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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

10 Nações Extintas Pouco Conhecidas que Mudaram a História do Mundo

 

  10 Nações extintas pouco conhecidas que mudaram a história do mundo.



             


 

   O nosso colunista Mateus Ernani Heinzmann Bülow preparou um texto sobre nações pouco conhecidas que mudaram a história mundial para o blog “Recanto da Escritora”. Tendo em vista que o Brasil comemora a Independência no dia 7 de setembro, o nosso colunista decidiu compartilhar a história dessas nações.

  Você sabia que o Brasil ficou num estado intermediário entre o domínio português e a proclamação da Independência durante um breve período? Descubra o contexto dessa informação e as curiosidades históricas de alguns territórios no texto do Mateus. Boa leitura!

 

1-Reino do Brasil.

 



 

               Todo estudante aprende três períodos da história do Brasil, indo do período colonial (oficialmente chamado de Estado do Brasil) à chegada da corte portuguesa, depois o Império e a república. No entanto, durante um breve período, o Brasil ficou num estado intermediário entre o domínio português e a proclamação da Independência, e paradoxalmente já poderia ser chamado de nação, embora ainda fizesse parte dos domínios lusitanos de Ultramar. Esse intervalo talvez seja o mais importante da história brasileira, e ainda é pouco falado.

               O Reino do Brasil foi proclamado pelo Príncipe-Regente João VI em 1815, com duas finalidades: Representar os interesses portugueses na Europa sem a necessidade do retorno do monarca ao continente, e acalmar os ânimos dos brasileiros que desejavam a separação completa, o que poderia se reverter na anarquia que já dominava os territórios ultramarinos da monarquia espanhola nas redondezas.

               Nesse sistema, o Brasil teria autonomia para definir leis e finanças, e um parlamento conjunto foi criado para representar ambos os reinos. À primeira vista o arranjo funcionou muito bem, e tensões entre brasileiros e portugueses arrefeceram com os países teoricamente em condições iguais sob o mesmo monarca reinante. Pelos cinco anos seguintes, o imenso Império Português teria o Rio de Janeiro como sua capital.

               No entanto, a Revolução Liberal do Porto em 1820 forçou o retorno de Dom João ao seu país de origem, deixando para trás seu filho, Pedro, como Príncipe-Regente, e rancores não demoraram a eclodir: Os portugueses insistiam em demover o Brasil da condição de Reino, o que era inaceitável à nova elite política surgida no território americano.

 



 

 

               A independência total não era unanimidade entre os brasileiros, ainda crentes numa possibilidade de manter os laços de amizade da metrópole com a ex-colônia, e foi justamente a teimosia das Cortes portuguesas a maior responsável pelo azedume nas relações. O plano do governo de Lisboa incluía a fragmentação do Brasil em territórios menores e o retorno imediato do Príncipe-Regente, sob o pretexto de receber “devida instrução” nas cortes, o que efetivamente o reduziria a um prisioneiro em Portugal.

               Pedro descobriu a tramoia por meio de José Bonifácio e sua esposa, a Princesa Leopoldina, e decidiu que era hora de encerrar de vez os laços com Portugal. Com isto, o Império do Brasil foi proclamado, dando um ponto final no breve período do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. O esforço dos brasileiros em criarem uma Pátria livre de influências externas continuaria com a guerra contra os portugueses até 1824.

 

2-República de Vermont.

 



 

 

               O estado americano do Vermont possui um apelido interessante, sendo chamado de o “Décimo-Quarto” na historiografia dos EUA. Isto se deve ao fato de que o Vermont demorou a aderir à aliança das então chamadas Treze Colônias contra os britânicos, e lutou sozinho por um tempo. Nesse período entre 1777 até 1791, o Vermont foi uma nação independente.

               O surgimento da República de Vermont deveu-se a um ato do rei George III de anexar o território das Montanhas Verdes à Província de Nova York, uma decisão que enfureceu os colonos da região. Em resposta ao que consideravam uma arbitrariedade, os habitantes organizaram uma milícia conhecida como Green Mountain Scouts (“Batedores das Montanhas Verdes”), sob a liderança de Ethan Allen. Os rebeldes chamaram o novo país de Vermont, que significa “Monte Verde”, em francês.

               Em 1777, os vermontinos escreveram a primeira constituição em território americano, e também a primeira constituição a abolir a escravatura e permitir sufrágio masculino universal, sem considerar a renda do eleitor. Apesar de não durar por muito tempo (ao menos como documento de caráter nacional), é inegável que a Constituição de Vermont teria influência considerável na Constituição Americana de 1787.

 



 

 

               Durante seu breve período de independência, Vermont auxiliou os Patriotas de outros estados enviando milicianos dos Green Mountain Scouts para a linha de frente, mas a ameaça dos indígenas do noroeste frustrou um envio contínuo de reforços. Vermont também possuía serviço postal, além de uma moeda própria chamada Cobre Vermontino, e seu governo sob a liderança de Thomas Chitenden mantinha relações diplomáticas com outros países, como França e Holanda, e também com o Congresso Continental dos EUA.

               O governo de Vermont decidiu se unir aos EUA poucos anos antes do fim da guerra contra os britânicos, porque uma parcela considerável de seus habitantes nutria simpatia pela ideia, um detalhe que valeu o apelido de “República Relutante” à nação. Assim, o Vermont foi o décimo-quarto estado a se juntar aos EUA, com outra constituição estadual surgindo em 1793; essa nova carta estadual não diferia muito da anterior de 1777.

 

3-Primeiro Estado Islâmico.

 



 

 

               Para compreendermos a importância da terceira nação nesta lista, eu proponho o seguinte exercício mental: Imagine como seria a história do mundo se Jesus Cristo não fosse crucificado, e de alguma forma libertasse o território judeu do domínio romano, além de estabelecer um governo e uma constituição. Foi o que o Profeta Maomé (também chamado Mohammed) fez na Península Arábica.

               O Primeiro Estado Islâmico, também denominado Estado de Medina, surgiu como uma consequência da Hégira, o êxodo de Maomé e seus seguidores. Após alcançarem a cidade de Medina e unificarem as oito tribos da região, Maomé estabeleceu um governo com base na Constituição de Medina, proibindo a guerra entre os muçulmanos, além de criar um senso de comunidade com base na fé em Alá, o Deus Único.

               Apesar de obterem uma base permanente, os primeiros muçulmanos sob a liderança de Maomé não estavam plenamente seguros: Os governantes de Meca ainda hostilizavam os fugitivos, e a Tribo Coraixita também compunha uma grande ameaça. Por dez anos o oeste da Arábia foi palco de batalhas e escaramuças ferozes, até os muçulmanos se tornarem fortes o bastante para conquistarem Meca, em 630. O líder de Meca era Abu Sufyan ibn Harb, que se converteu ao Islã e ofereceu sua filha Ramla ao ex-inimigo.

 

 

 


              


 

 

 

              Após a conquista de Meca, Maomé teve de lidar com as tribos remanescentes que ainda resistiam ao Islã, mas nenhuma delas foi capaz de oferecer a aguerrida determinação dos senhores de Meca e seus aliados Coraixitas. O Profeta de Alá faleceu dois anos depois da conquista de Meca, porém a presença islâmica encontrava-se coesa na Península Arábica, restando apenas a questão da sucessão ao governo.

               O conflito pela sucessão de Maomé teria como vencedor Abu Bakr, pai de Aisha, a terceira esposa do Profeta. Abu Bakr foi o primeiro líder islâmico a adotar o título de Califa (literalmente “Sucessor” em árabe). Considera-se que o Primeiro Estado Islâmico se converteu no Califado Ortodoxo (também denominado Rashidun) com a ascensão do Primeiro Califa, que lideraria a expansão islâmica pelos próximos anos, assim como seus sucessores.

 

4-Império Gana.

 



 

 

               Seguiremos agora para a África, onde existiu um império poderoso no oeste, trezentos anos depois do nascimento de Cristo. Pouca informação escrita restou sobre esse formidável império que se estendeu sobre o sul da Mauritânia e o oeste do Mali, sobrando uma rica tradição oral a respeito de sua existência.

               O fundador do Império Gana foi um chefe tribal do povo Soninke chamado Dinga, que estabeleceu uma pequena cidade chamada Uagadugu como a primeira capital de seu nascente país. O povo Soninke era descrito como excelente no combate a cavalo, mas o domínio não era mantido pela mão de ferro do governante, e sim com um sistema confederado que dotava as cidades fiéis ao império com autonomia em assuntos locais.

               Gana se encontrava numa área cheia de pastagens, além de minas de ouro e sal, e logo se tornou muito rico, permitindo a construção de uma nova capital chamada Kumbi-Saleh, cujas ruínas seriam encontradas apenas em 1913 pelos europeus. Manter o monopólio do acesso dessas riquezas subterrâneas era a principal função dos governantes em Gana, ao lado do comando do exército.

 



 

 

               O declínio do Império Gana começou em 1076, após a invasão dos Almorávidas, uma dinastia Berbere que dominava o Marrocos. Os Almorávidas não puderam fincar seu domínio na região de forma definitiva, mas o estrago estava feito: Rebeliões internas surgiram após a expulsão dos invasores do norte, e vários reinos e províncias declararam sua independência, fragmentando o domínio Gana sobre a região.

               É inegável que Gana inspirou os grandes impérios que surgiriam mais tarde no oeste africano, como o Mali e o Songhai (falamos dessa nação na segunda lista dos Heróis de Independência Pouco Conhecidos): A exploração do ouro e das rotas comerciais ao lado da autonomia provincial seria imitada por todos os países que viriam depois, em maior ou menor escala. Hoje, o nome Gana sobrevive numa nação ao sul de onde outrora se localizou o Império, e Uagadugu é o nome da capital de Burkina Faso.

 

 

 

5-Rússia de Kiev.

 



 

 

               O próximo integrante desta lista foi a primeira organização estatal dos povos eslavos do leste, bem como um produto da Era Viking. A chamada Rússia de Kiev influenciou de forma significativa as histórias de todos os países que outrora fizeram parte de seu extenso território, além de alimentar nacionalismos furiosos e conflitantes até hoje. Tanto a Rússia como a Ucrânia e Belarus reclamam para si o legado desta nação.

               Durante a Idade Média, a região ocidental da Rússia era entrecortada por grandes rios, planícies e florestas, alimentando o interesse dos Nórdicos em busca de um atalho rumo ao Mar Cáspio rumo à Pérsia. Os entrepostos comerciais montados pelos forasteiros em parceria com as tribos eslavas amistosas se converteriam nas primeiras cidades da região, tais como Novgorod, Moscou e Kiev, que mais tarde se tornaria a capital deste curioso império.

               Os fundadores da Rússia de Kiev foram os guerreiros Rurik e seu sucessor, Oleg, o Sábio. Enquanto Rurik liderou as primeiras expedições colonizadoras, Oleg foi o responsável pela transformação de Kiev na capital do novo país, além de expandir o território por meio da conquista e assimilação das tribos eslavas. O Povo Rus também lutou contra os Cazares ao leste e os Búlgaros ao sul, transformando-se em grandes aliados do Império Bizantino.

 



 

               Foi justamente o contato com Bizâncio que levou o Povo Rus a adotar o Cristianismo Ortodoxo, sob o reinado de Vladimir, o Grande. Esse monarca concordou em abandonar o paganismo numa visita à cidade de Constantinopla; como parte do acordo, Vladimir casou-se com Ana Porfirogênia, irmã do imperador Basílio II.

               Vladimir foi sucedido por seu filho Yaroslav, que defendeu o território Rus dos Pechenegues um povo nômade do leste. Depois de Yaroslav, as rachaduras apareceram na Rússia de Kiev, com o enfraquecimento do comércio e vários príncipes declarando sua independência; surgiram novos domínios e poderes no extenso território, como a República de Novgorod, o Principado de Vladimir-Suzdal e a Galícia-Volínia.

               Os novos estados eram pequenos e desunidos demais para resistir ao avanço do Império Mongol em 1237, gerando um período de submissão que apenas se reverteria em 1480. Ironicamente, a resistência e posterior vitória contra os mongóis devem-se muito a uma cidade considerada pequena demais para ser saqueada na época da invasão: Essa cidade era Moscou, que mais tarde se tornaria sede do Grão-Ducado da Moscóvia, a nação que cresceria até se tornar o Império Russo.

 

6-Yuan do Norte.

 



 

 

               O próximo império na lista é um caso interessante, porque o seu papel de destaque na história não foram suas realizações, e sim o que ele impediu de forma indireta, devido à sua existência. O chamado Yuan do Norte foi um estado remanescente do Império Yuan, uma das divisões do grande Império Mongol. Após o estabelecimento da Dinastia Ming, os mongóis foram obrigados a recuar para sua terra natal, onde os descendentes de Gengis Khan se reorganizaram para não serem dominados pelos antigos vassalos.

               O novo estado foi fundado em 1368 por Toghon Temur, o último imperador mongol que reinou sobre a China, e considerado também o último Grande Khan do Império fundado por Gengis Khan, seguindo a linha tradicional de sucessão. A fragilidade desse estado ficou evidente em diversas ocasiões, com invasões movidas pelos chineses e rivalidades internas; durante um bom tempo os Khans não passavam de figuras decorativas no trono, enquanto senhores da guerra mandavam no Yuan do Norte.

               A situação se inverteria com a ascensão de Dayan Khan, em 1480. Ao lado de sua esposa, chamada Mandukhai, o novo Grande Khan tirou o Yuan do Norte da defensiva e pôs novamente os mongóis no ataque, eliminando clãs hostis e fustigando as posições chinesas instaladas ao norte da Grande Muralha. O Yuan do Norte recuperou diversas tribos que se aliaram aos chineses, e expandiu seu território até o Lago Baikal na Sibéria.

               O reinado de Dayan Khan e Mandukhai foi tão bem-sucedido que alguns historiadores falam numa “segunda reunificação” durante sua época, provavelmente a melhor fase da dinastia. Nessa época o Budismo também se tornou a religião dominante na Mongólia, enquanto o tradicional xamanismo era deixado para trás.

 



 

               Em 1600 em diante, o Yuan do Norte voltou a mergulhar em conflitos internos crônicos, enquanto a China foi dominada pelos Manchus da Dinastia Qing, que logo voltaram seus arcos e mosquetes à Mongólia. A Dinastia Ming e o Yuan do Norte caíram sob o domínio Manchu praticamente na mesma época, entre 1635 e 1644, tornando seus respectivos fins especialmente irônicos.

               Apesar de não deter a mesma força de seu antecessor imediato, nem se destacar em grandes conquistas, é inegável que o Yuan do Norte mudou a história do mundo ao oferecer um desafio à China. Os ataques movidos por Dayan Khan ocorreram numa época em que a China buscava se expandir pelos oceanos de forma parecida com portugueses e espanhóis na mesma época; isso obrigou os soberanos Ming a focarem seus esforços contra os inimigos ao norte da Muralha, impedindo-os de participarem das Grandes Navegações.

 

7-Estado Borgonhês.

 



 

 

               Entre os anos de 1384 e 1482 existiu um território nos atuais Países Baixos que em tese encontrava-se governado por vassalos do Rei da França, mas na prática era uma nação independente. O chamado Estado Borgonhês foi um dos maiores poderes políticos, militares e culturais da Europa no Século XV, mas simplesmente desapareceu no início da Era das Grandes Navegações. No rastro de sua partilha surgiu a rivalidade entre as famílias reais de Valois, da França, e os Habsburgos, que governavam a Espanha e o Sacro Império Romano.

               A história do Estado Borgonhês é longa, então focaremos apenas no período em que essa entidade efetivamente agiu como se fosse uma nação independente. O arquiteto da autonomia borgonhesa foi o duque João Sem Medo, que assumiu a liderança da Borgonha em meio à Guerra dos Cem Anos e à Guerra Civil que retalhou a França em facções pró-monarquia e favoráveis à autonomia de certos domínios.

               Os borgonheses compreensivelmente apoiavam a vertente descentralizadora, e João Sem Medo pagou com sua vida numa negociação realizada numa ponte em Paris, após ser (supostamente) morto à traição. Seu filho, Felipe, jurou vingança pelo ocorrido, aliando-se aos ingleses a partir de 1420, além de capturar e entregar Joana D’Arc aos seus “novos amigos”, dez anos depois. Felipe não permaneceria aliado aos ingleses por muito tempo, e logo mudaria de lado cinco anos depois da captura da Donzela de Orleans.

 

 



 

 

               Depois de auxiliar os franceses e apoiar uma revolta conhecida como Praguerie, Felipe se afastou dos assuntos ao oeste, agindo como um líder independente e expandindo o território borgonhês. Sua corte era suntuosa, provavelmente a mais sofisticada da Europa na época. Em seu auge, a Borgonha se estendia dos Países Baixos até o centro-leste da França; o exército borgonhês também era poderoso, com tropas pagas regularmente, além de canhões e arcabuzes em grande quantidade.

               Essa potência nascente seria destruída pelas ambições do sucessor de Felipe, Carlos o Temerário, que morreu depois de invadir a Suíça, esgotando o poderio militar borgonhês. As cidades da Holanda e Bélgica também se ressentiam de um domínio centralizado, e em pouco tempo o domínio fragmentado seria partido entre uma França cada vez mais forte e o Sacro Império dos Habsburgos.

               O lugar do Estado Borgonhês na historiografia da Bélgica é interessante: Durante o Século XIX, quando os Belgas se tornaram independentes da Holanda (falamos desse episódio na lista das Constituições mais Antigas ainda em Vigor), a Borgonha era vista como um “ancestral” do país, numa visão nacionalista da história. Essa situação se inverteria no Século XX, com historiadores belgas declarando ironicamente que foi o fim do Estado Borgonhês a razão pela qual a Bélgica existiria mais tarde como nação.

 

8-Império Srivijaya.

 



 

 

               Seguindo rumo ao Sudeste Asiático, encontraremos agora uma Talassocracia (poder marítimo) que definiria a história de países como a Indonésia, a Malásia e muitos outros. O chamado Império Srivijaya, também chamado Serivijaya, foi a primeira grande nação do Arquipélago Malaio a se beneficiar do Estreito de Malaca, vital para o comércio entre a China e as Índias, além de servir com um importante centro budista.

               Poucas evidências físicas restaram de Srivijaya, restando apenas os testemunhos de viajantes chineses e relatos orais em Sumatra, a maior e mais ocidental das ilhas que compõem a atual Indonésia. Sabe-se que o núcleo inicial desse império surgiu no Século VII, perto da moderna cidade de Palembang, no sul de Sumatra. A acanhada cidade-estado tem como fundador o rei Jayanasa, que também começou a expansão do país.

               Em seu auge, Srivijaya dominou toda a Sumatra, além da Península Malaia ao norte, o oeste de Bornéu e metade da ilha de Java, sob a enérgica Dinastia Sailendra. O império era forte o bastante para ameaçar vizinhos, como o Império Khmer e os Champas do Vietnã, mas seu grande inimigo foi o Reino de Medang, que ocupava o leste de Java. Srivijaya e Medang guerrearam entre si até 1016, quando o reino do leste colapsou sob o poderio do rival mais rico e poderoso.

 



 

               A vitória sobre Medang foi a última glória de Srivijaya, porque um adversário mais forte veio do leste, no sul da Índia: Em 1025, o rei Rajendra do Império Chola invadiu Srivijaya, com o objetivo de proteger o Império Khmer, aliado dos indianos. O aguerrido monarca lançou o que provavelmente foi a maior expedição naval do sudeste asiático durante a era medieval, e arrebentou com uma nação que já sofria com a constante pirataria e o enfraquecimento de sua marinha, ocupada em inúmeras frentes.

               O sucessor de Srivijaya foi Melayu, um dos primeiros reinos a declarar independência diante da fraqueza de seus suseranos. Praticamente todos os grandes impérios do Arquipélago Malaio adotaram o sistema de Srivijaya, focando no comércio em áreas estratégicas e uma poderosa força naval. Alguns destes estados sucessores foram Singhasari, Majapahit e os Sultanatos de Malaca e Brunei.

 

9 e 10-Províncias Unidas da Nova Granada e Estado Livre de Cundinamarca.

 



 

 

               Para finalizar esta lista eu escolhi duas nações que existiram ao mesmo tempo e que acabaram numa destruição mútua, abrindo um precedente sombrio na América Latina. Os dois países surgiram como facções rivais na atual Colômbia, então nomeada como Vice-Reinado de Nova Granada, e seu breve período de existência entre 1810 e 1815 é conhecido como a “Pátria Boba” na história desta nação.

               Para compreender melhor o ocorrido é necessário puxar da memória as aulas sobre a Independência da América Espanhola, e o surgimento das primeiras Juntas, ou governos autônomos nos territórios de Ultramar. Em resposta à captura do rei espanhol Fernando VII, os latino-americanos estabeleceram seus próprios governos regionais, e não demorou a surgirem rivalidades entre eles.

               Na Nova Granada foi proclamada uma Junta que resultou nas Províncias Unidas, de cunho federalista, sob a liderança de José Miguel Pey, considerado historicamente o primeiro presidente da Colômbia. Apesar de a independência entrar nos planos da maioria dos líderes, havia uma grande divergência sobre a forma que o novo estado deveria ter; em resposta ao projeto federalista, e também por temer a perda da hegemonia de Bogotá, Antonio Nariño proclamou a independência de Cundinamarca.

 



 

               Entre 1811 e 1813 ocorreu uma guerra entre os federalistas, chamados de “Carracos”, e os centralistas, apelidados de “Patiadores”. A vitória do primeiro grupo foi breve, pois os espanhóis reconquistaram Nova Granada, e não sairiam até 1819, quando os colombianos se reorganizaram sob a liderança de Francisco de Santander, contando com o importante apoio dos venezuelanos de Simon Bolívar.

               O legado da “Pátria Boba” serviu como advertência aos líderes independentistas da América Latina, e também abriu um precedente funesto na história da Colômbia, com suas frequentes guerras civis e insurreições. Há quem afirme que os Federalistas e Centralistas foram em sua época o que mais tarde se tornariam os partidos Conservador e Liberal, que também mancharam de sangue a jornada conturbada deste país.

 

Texto escrito por Mateus Ernani Heinzmann Bülow.

 

Mateus é Bacharel em Direito, escritor e colunista do blog “Recanto da Escritora”.

 

Confira os textos do Mateus que foram citados na postagem do blog:

 

 

10 Constituições antigas que continuam em vigor


https://poetisataty.blogspot.com/2019/06/10-constituicoes-antigas-que-continuam.html

 

 

10 Heróis de Independência pouco conhecidos – parte 2

 

https://poetisataty.blogspot.com/2021/09/10-herois-de-independencia-pouco.html

 


Confira os livros publicados pelo escritor (disponíveis na Amazon):

 

 

Taquarê – Entre a Selva e o Mar




 

 

Taquarê – Entre um Império e um Reino




 


 

 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Navios etéreos

 



 

Pensamentos são como navios:

navegam pela alma sem cessar

e somente ancoram quando o capitão permite.

Quem é o capitão do seu reino interior?

 

Há mar no reino de dentro,

há mar, areia, sol e nuvens.

E há navios estranhos também,

que sussurram loucuras sob a lua.

 

Quantas loucuras beijaram a sua mente?

Um mar silencioso, profundo e dormente

vencerá o peso de um grande navio?

Seja racional para não ser febril!

 

Eu vi um farol de poesia na praia,

eu vi uma estrela-guia no céu.

E eles me guiaram para casa

antes do navio do pensar me perturbar.

 

Os navios etéreos do pensamento

são carregados de muitas loucuras.

Sou princesa do mar bondoso da luz,

não sei nadar na sombra que seduz.


Prefiro nadar sob a luz do dia,

sou sereia, princesa e sacerdotisa.

Mas, ainda não sou a rainha sombria

que beija a tristeza sem ficar abatida.

 

Prefiro fugir dos pensamentos tristes

como uma sereia que escapa das redes

e que se esconde de tantos navios.

Seja prudente para não ser febril!


Poesia escrita por Tatyana Casarino. 







O poema reflete sobre a importância de gerenciar os pensamentos com sabedoria. Se a mente é como o mar, é preciso navegar sobre os pensamentos com inteligência. 


Fonte das imagens: Pinterest.

Desejo

 





 

O desejo é como a cachoeira,

mas uma cachoeira em brasas.

Ele dita o prazer e foge da luta,

ele beija a alma e acende o corpo.

 

A luta mais pura é contra o desejo,

mas todo esse combate é em vão.

Não aniquilamos os desejos do nosso corpo,

transmutamos em oração ou cedemos à paixão.

 

A paixão consumada com alma

é como uma oração amorosa:

cheia de esplendor e prosa.

Amar o desejo é purificá-lo inteiro.  

 

Não podemos ceder às paixões vis,

eis que a carne pela carne prende a alma.

Mas, podemos trazer beleza à paixão

por meio do amor, o cavaleiro da salvação.

 

A paixão com amor liberta a alma,

o desejo belo é um anjo aceito.

Os isentos de desejo não são os eleitos,

pois estes são os que transmutaram o desejo.


Poesia escrita por Tatyana Casarino. 







Esse poema retrata a função do desejo na evolução espiritual. Em vez de aniquilar o desejo, aquele que almeja a transcendência precisa purificá-lo. O verdadeiro crescimento espiritual não nasce da repressão, mas da paz interior. E a paz de espírito é o presente de quem sabe ordenar os impulsos da alma e transmutar o desejo em beleza por meio do amor. 

sábado, 18 de julho de 2026

Quando o vento sopra beleza

 



Quando o vento sopra beleza,

pérolas formam o corpo da mulher.

Surge uma deusa da concha e do sonho,

pétalas de flores caem em seu belo corpo.

 

Um corpo imaculado sob a luz,

apreciado pela natureza vibrante.

Ela é a sabedoria pagã do passado,

ela também é a pureza cristã do presente.

 

Ela surge da água formosa,

banhando os olhares de beleza.

Seus cabelos ruivos dançam ao vento,

sua alma é maravilha sem lamento.

 

Ela é o casamento do fogo e da água,

ela é a deusa desejada e intocada.

Pode chamá-la de Vênus ou de Afrodite,

ela é a beleza personificada que existe.

 

O vento levanta a beleza da água,

Assim como ergue a onda do mar.

E, soprando flores pelo infinito,

a alma da rosa transforma o espírito.


A sua beleza é apreciada por todos.

rara unanimidade que brilha.

Pela beleza, ela sopra a paz.

Pelo silêncio, ela emana poesia.

 

Afrodite é a beleza pura,

a beleza mais pura que existe.

O seu retrato demonstra amor,

desejo imaculado, libido sem ardor.

 

Musa intocável dos poetas,

paixão platônica pela vida.

Sem beleza, tudo seria tristeza.

Sem beleza, não haveria certeza.

 

A beleza ainda salvará o mundo,

pois ela emana paz e moral.

Quem respeita a beleza é nobre,

eis que a estética vence o mal.


Poesia escrita por Tatyana Casarino.





O poema foi inspirado na pintura "O Nascimento de Vênus" do artista italiano Sandro Botticelli. No quadro, a deusa do amor e da beleza emerge das águas em uma concha, a qual é soprada para a margem por Zéfiro, o Vento Oeste, símbolo das paixões espirituais. A deusa recebe um manto bordado de flores de Hora (as Horas eram as deusas das estações).

A poesia expressa o espírito da beleza que está além da estética: trata-se da atmosfera de paz e sabedoria que a beleza espiritual transmite para o mundo por meio da harmonia entre as formas e a natureza. 

O poema transmite a ideia de que existe uma beleza misteriosa entrelaçada ao caminho da bem. A famosa frase "A beleza salvará o mundo" (atribuída ao escritor russo Dostoiévski) inspira os versos sobre a missão da beleza na sociedade: despertar o espírito humano para ideais nobres e elevados. 


Tatyana Casarino. 



Ainda há uma doce crença

 



 

Na infância, tudo era brilho:

o mar, o sol, o parque e o rio.

Na tempestade, víamos emoção,

e, na calmaria, brincar era imensidão.  

 

Hoje, o tédio corrompe o dia,

e o cansaço ceifa a alegria.

O dia especial é mais um,

o calendário é um contrato.

 

Queria artes, dança, brilho!

Queria rugir como um leão

e criar até o mais doce infinito.

A rotina é um cárcere sem filtro.

 

Não sei se nasci para ser triste

ou se nasci para ser bem feliz.

Ainda não me encontrei por aqui.

Queria ser poetisa. Será que consegui?

 

O céu mente sobre nós na infância,

pois lá tudo era inocente e possível.

Amar, casar e ser feliz para sempre,

ter um trabalho lindo, nobre e ardente.


O céu mente sobre nós na infância,

pois as catedrais brilhavam mais.

Eu olhava para os vitrais e sorria!

Quão gloriosa parecia ser a vida!

 

O futuro parecia um mar de sonhos,

um mar de sonhos a realizar.

O sol penetrava nos vitrais,

minha cor favorita a brilhar.

 

Cores fabulosas refletidas no olhar,

olhar de criança doce, perdido no alto.

Hoje, adultos escravizados e tristes

vivem a olhar para uma tela abaixo.

 

O céu mente sobre nós na infância,

porque a vida parecia um sonho,

um sonho colorido a brincar e desbravar.

Hoje, não somos sequer parte da dança.

 

Não nos sentimos adultos inteiros,

não temos sonhos nem dinheiro.

Tudo o que resta é a persistência,

visto que ainda há uma doce crença.

 

Poesia escrita por Tatyana Casarino. 





Esse poema foi inspirado em uma pintura do artista inglês Herbert James Draper. O título da pintura é: "O céu mente sobre nós na infância". 

A obra traz uma atmosfera reflexiva que captura a transição entre a inocência da criança e a realidade da vida adulta. O olhar puro e idealista da menina somente é capaz de mirar o céu enquanto ela reza por um futuro brilhante. 

A garota não percebe o semblante triste dos adultos ao seu redor, que não são iluminados pela luz do sol e que, provavelmente, estão rezando em busca de alívio para as suas realidades cinzentas e sombrias. 

A luz que atravessa o vitral ilumina apenas a criança, porque ela é a única que está conectada com o céu e com as possibilidades infinitas de alegria do mundo espiritual. 

Apesar do tom melancólico e reflexivo, o poema, a pintura e o título da pintura carregam uma dose de bom humor. Afinal, o contraste entre a infância e a vida adulta pode ser visto como uma comédia também. 

O final do poema traz uma mensagem de esperança: quem carrega a criança interior em seu coração sempre terá uma doce crença sobre a vida. 


Tatyana Casarino.