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segunda-feira, 7 de setembro de 2020

10 Heróis de Independência pouco conhecidos - Parte 1

 Olá, pessoal! Tendo em vista que a data de hoje comemora a Independência do Brasil, o escritor colaborador Mateus Bülow (colunista de textos com curiosidades históricas) separou curiosidades da História Mundial e fez uma lista com 10 Heróis de Independência pouco conhecidos. Venha conhecer esses heróis conosco ao mergulhar no texto de hoje! Boa leitura! 


10 Heróis de Independência pouco conhecidos.


      



Qual a sua primeira lembrança, quando chega a Semana da Pátria? Os desfiles de Sete de Setembro? Os trabalhos escolares nas cores verde, amarela, azul e branca? Pedro I berrando às margens do Ipiranga? Até os menos patriotas se lembram desses dias, onde quase todos os brasileiros deixam de lado as críticas severas ao país, e puxam do baú da memória os hinos do Brasil e da Independência.

Além da Independência do Brasil, outros processos históricos similares são tratados na escola, como a Revolução Americana e a Independência da América Espanhola, às vezes falando da Independência do Haiti nesse meio tempo. Alguns nomes se sobressaem na miríade dos heróis da liberdade, como George Washington, Simon Bolívar e José de San Martin, enquanto outros são arremessados ao esquecimento.

É impossível conhecer todos os heróis da história do mundo, porém nada impede uma visita ligeira ao passado, em busca de valentes que defenderam seu chão contra invasores e dominadores estrangeiros. Alguns ajudaram a fundar reinos e países novos, enquanto outros lutaram em nome de pátrias já existentes; a posteridade não foi gentil com todos eles, pois muitos foram presos ou executados, e outros não obtiveram sucesso em suas empreitadas, ou não conseguiram passar seu legado adiante.

A presente lista traz dez figuras históricas que se destacaram por unirem pessoas em torno de um objetivo maior: A liberdade de seus respectivos povos. Muitos deles tomaram atitudes controversas, dignas de julgamentos mais duros, porém é inegável a coragem desses homens, muitas vezes obrigados a lutarem contra inimigos mais numerosos e fortes, e com poucos recursos à disposição. Sem mais delongas, em frente!


1-Arminius.




Evento envolvido: Batalha da Floresta de Teutoburgo (IX DC).


Nosso primeiro integrante da lista foi um guerreiro germânico, responsável por definir a fronteira norte do Império Romano, após derrotar três legiões em uma emboscada. Arminius era filho de Segimero, chefe da tribo dos Queruscos; ele foi mandado a Roma durante sua juventude, como refém, e durante esse tempo aprendeu latim e artes da guerra, envolvendo-se com a política romana. Arminius logo percebeu que nunca seria visto pelos romanos como um conterrâneo, o que pode ter contribuído para sua traição a Roma.

Aos vinte e cinco anos, Arminius liderava um destacamento de guerreiros germânicos fiéis a Roma, sob as ordens diretas do general Publius Quintinus Varus. Nessa mesma época, ele fez contatos com diversas tribos germânicas, enquanto preparava sua revolta contra os romanos; foi uma tarefa difícil, pois as rivalidades tribais falavam alto, e apenas cinco tribos se juntaram aos Queruscos.

O ponto alto da campanha de Arminius contra seus antigos mestres ocorreu na Floresta de Teutoburgo, onde os Queruscos emboscaram três legiões romanas, com auxílio de seus aliados. O terreno pantanoso e fechado impedia a formação defensiva com a qual os romanos estavam acostumados, e Publius suicidou-se ante a derrota. A perda de três legiões foi um trauma nacional para os romanos, e o imperador Augustus determinou que nenhuma legião usaria novamente os números XVII, XVIII e XIX.

Arminius venceu os romanos e garantiu a independência das tribos germânicas, porém não teve tempo de aproveitar o triunfo: Líderes germânicos temerosos do poder adquirido por Arminius tramaram seu assassinato, e com sua morte também morreu a frágil união entre as tribos. Os romanos voltariam para a região alguns anos após a morte de seu grande inimigo germânico, porém desistiram de avançar além do Rio Reno, visto por eles como a fronteira entre a civilização e a barbárie.





No século XIX, diversos autores e historiadores alemães resgataram a figura de Arminius, retratando-o como um símbolo de liberdade e união entre os germânicos. Essa exaltação nacionalista atingiria seu ápice com a unificação alemã sob o comando de Otto Von Bismarck e Wilhelm I, mas entraria em declínio após a Segunda Guerra Mundial. Apesar disso, a estátua de Arminius, localizada próxima à Floresta de Teutoburgo, é um dos monumentos mais visitados na Alemanha, até hoje.


2-Yaqub ibn al-Layth al Saffar.


   


Evento envolvido: Fundação do Império Safárida (867-879).


O segundo personagem da lista foi um ferreiro que libertou a Pérsia de seus suseranos árabes. Yaqub ibn al-Layth al-Saffar nasceu em 840, perto da fronteira atual entre o Irã e o Afeganistão, e pouco se sabe de sua vida pregressa, exceto de sua profissão. Segundo relatos da época, Yaqub “não sorria muito” e nutria especial ódio aos árabes, um sentimento compartilhado por muitos persas desde a conquista islâmica, séculos antes; curiosamente, esse desgosto não impediu Yaqub de se casar com uma mulher de origem árabe.

Na primeira metade do Século IX, a Pérsia se encontrava sob o domínio da Dinastia Taírida, um “estado cliente” do Califado Abássida, o mais forte dos países islâmicos do Oriente Médio. Yaqub e seus irmãos se tornaram milicianos nessa época, dividindo suas profissões regulares com a patrulha da cidade de Sistan. Mais guerreiros se juntariam à guilda, e em 861, Yaqub derrubou o governador de Sistan.

A declaração de guerra contra os Abássidas foi enviada por Yaqub em 867, na forma de uma poesia tradicional persa. O líder rebelde afirmou que vingaria os imperadores Sassânidas derrubados pelos árabes e também salvaria a fé islâmica, que segundo ele foi deturpada pelos califas. Apesar da retórica explosiva, Yaqub demorou a lutar contra os Abássidas, preferindo concentrar esforços nos líderes semi-independentes do Afeganistão.




Apenas em 873 Yaqub e seus seguidores derrubariam o governante Taírida Muhhamad ibn Tahir, o que iniciaria o conflito contra os Abássidas. Ciente de que os fiéis não queriam enfrentar o maior líder espiritual islâmico, Yaqub reforçou a propaganda de guerra, afirmando que sua luta era contra os “bárbaros do deserto” que oprimiam o povo persa. O discurso funcionou entre as classes mais pobres das cidades persas, e alguns poetas comparavam Yaqub com o lendário herói Janshid, outro ferreiro que virou rei.

As batalhas no oeste do Irã e na Mesopotâmia foram difíceis, e após uma derrota em 876, Yaqub decidiu manter o que já possuía em mãos, abandonando o plano de derrubar o Califado Abássida, de uma vez por todas. O Império Safárida se estenderia do atual Irã até o oeste do Paquistão, e Yaqub morreu em 879, sendo sucedido pelo seu irmão, Amir. Outras dinastias turcas e persas sucederiam os Safáridas, mas os árabes nunca mais dominaram o Irã após a passagem meteórica de Yaqub ibn al-Layth al Saffar.


3-Kikuchi Takefusa.





Evento envolvido: Invasões Mongóis ao Japão (1274 e 1281).


Nosso próximo integrante foi um samurai a serviço do Imperador Go-Uda, e que ajudou a repelir duas invasões à sua pátria. Nascido em 1245, Takefusa virou chefe do Clã Kikuchi após o falecimento de seu irmão mais velho, e nesse meio tempo seu irmão Aritaka foi adotado pelo Clã Akahoshi, para firmar uma aliança entre as famílias.

A primeira invasão do Império Mongol ao Japão foi um evento decisivo ao pequeno país: Diversos clãs rivais uniram forças contra o que provavelmente era o maior exército da história, até então. Os mongóis construíram uma frota de 150 navios, levando soldados de diversos cantos do império, além de carregarem armas desconhecidas dos japoneses, como bombas e canhões.

As primeiras batalhas ocorreram nas ilhas de Tsushima, Hirado, Taka e Nokono, com resultados favoráveis aos invasores. A primeira vitória dos defensores ocorreu na baía de Hakata, na ilha de Kyushu, uma das maiores ilhas do Japão. Kikuchi Takefusa se sobressaiu nessa batalha, ao decapitar inúmeros inimigos e acertar uma flechada na testa de um general mongol.





A invasão terminou com o recuo da tropa mongol aos seus navios, seguida de um tufão que destruiu boa parte da armada; os japoneses chamaram o fenômeno de Kamikaze (“Vento Divino”), acreditando se tratar de uma ajuda dos deuses xintoístas. Durante a década seguinte, os japoneses reconstruíram cidades destruídas pelos mongóis, enquanto se preparavam para a inevitável revanche.

A segunda invasão ocorreu em 1281, e a nova frota mongol era ainda maior que a anterior, contando com inúmeros barcos de tripulação chinesa. Os mongóis não conseguiram desembarcar na baía de Hakata e sofreram derrotas em Tsushima, a mesma ilha onde obtiveram a primeira vitória na invasão anterior. Durante a noite, Takefusa liderou ataques noturnos aos navios de guerra mongóis e chineses, aproveitando-se da escuridão e do cansaço dos inimigos após as invasões mal sucedidas.

Outro tufão foi o responsável pela destruição da frota mongol, finalizando a ameaça de uma vez por todas e invertendo o domínio do mar aos japoneses, que agora atacavam cidades portuárias do Império Mongol. Kikuchi Takefusa morreu de uma doença desconhecida, quatro anos após a segunda invasão, e a liderança do clã passou ao seu neto, Kikuchi Tokitaka.


4-Dmitri Donskoy.




Eventos envolvidos: Guerra Lituano-Moscovita (1368-1372) e Batalha de Kulikovo (1380).


Indo agora às estepes russas, encontraremos outro povo que se libertou do domínio mongol sob a liderança de um líder visionário. Dmitri era filho do Knyaz (“príncipe”, ou “duque”) Ivan II de Moscou, considerado um governante pacífico demais por seus súditos. Com nove anos, Dmitri perdeu o pai, e a regência ficou ao encargo de um metropolita (como os ortodoxos chamam seus bispos) chamado Aleksei.

Desde o século XII, diversas cidades-estados eslavas foram submetidas pelos mongóis, e estas eram obrigadas a pagar tributos em peles, cavalos, madeira, âmbar, mel. O poder dominante na região era a Horda Dourada, liderada pelos tártaros e já independente do Império Mongol; apesar da supremacia dos nômades, as cidades-estados enriqueceram com o comércio constante, transformando-se em principados e ducados.

O primeiro desafio de Dmitri veio do oeste: Os lituanos queriam mais territórios e entraram em conflito com os moscovitas, sofrendo três derrotas decisivas. Um incidente ocorrido durante a luta contra os lituanos serviu de alerta a Dmitri, quando os tártaros tentaram submeter Moscou ao ducado de Nizhny Novgorod, outro poder relevante nas estepes russas. Os moscovitas se utilizaram de intimidação militar e uma gorda propina para “convencer” o príncipe de Nizhny Novgorod a recusar a proposta.




Em 1374, os principados partiram da defesa para o confronto aberto com os tártaros, aproveitando-se de uma guerra sucessória na Horda Dourada. O exército eslavo era formado por guerreiros vindos de diversos lugares, com notável maioria dos moscovitas na composição, além de mercenários e renegados lituanos. Mesmo com essa diversidade, era inegável que o exército tártaro superava os eslavos em número.

Sabe-se que a batalha de Kulikovo ocorreu às margens do grande rio Don, mas até hoje o local é desconhecido, assim como a margem correspondente do rio. Um dos participantes mais famosos dessa luta foi o monge-cavaleiro Aleksander Peresvet, que desafiou o campeão tártaro Temir-Murza; ambos mataram um ao outro no duelo. Dmitri sobreviveu por pouco à luta, porém desmaiou de cansaço, acordando horas depois.

Apesar da vitória, Kulikovo não seria o ponto final na luta dos russos contra os tártaros, e Dmitri teve de enfrentar outra invasão, em 1382. Apesar do Grão-Ducado de Moscou ainda se encontrar submisso à Horda Dourada, Dmitri foi reconhecido como um grande herói, adotando o honorífico Donskoy em referência ao rio Don; os sucessores de Dmitri continuaram a luta contra os tártaros, formando o embrião do que seria a Rússia.


5-Taksin, o Grande.





Eventos envolvidos: Guerras Birmano-Siamesas de 1765-1767 e 1775-1776.


Se você passou pela lista dos Dez Militares que sacrificaram suas Vidas em Conflitos, do mesmo autor, deve se lembrar de que em 1765 tropas da Birmânia (atual Myanmar) atacaram o Sião (atual Tailândia), sendo obrigadas a recuar logo em seguida, devido a uma invasão chinesa ao norte. Resta terminar essa história, envolvendo um rei que lutou pela liberdade do Sião, antes de enlouquecer e ser derrubado pelo próprio amigo, que assumiu o trono em seu lugar.

O homem que passou à história como Taksin nasceu em 1734, em Ayutthaya, então capital do Sião; seu pai era um coletor de impostos nascido na China, enquanto sua mãe era de um ramo menor da nobreza local. Com sete anos, o menino foi enviado a um templo budista, recebendo o nome de Sin (“Fortuna”, em tailandês), e mais tarde decidiu seguir a carreira das armas, virando um governador militar na vila de Tak. A partir daí ele seria conhecido pelo nome histórico.

Em 1765, os birmaneses impuseram um cerco a Ayutthaya, e Taksin foi um dos poucos governadores militares a responderem ao pedido de ajuda do rei, enquanto a maior parte deles preferiu se entrincheirar em seus distritos ou desertar de suas funções. Taksin se portou com bravura diante dos birmaneses, mas percebeu que nada poderia fazer diante do imenso exército adversário; o governador militar abandonou a cidade na calada da noite com 500 soldados e seguiu até o sul.

Embora profundamente abalado com a queda da capital, Taksin reorganizou a tropa e retornou a Ayutthaya dois anos depois, aproveitando-se do recuo dos birmaneses e matando o governador “testa de ferro” deixado pelos invasores. Não foi exatamente um triunfo, pois a capital foi destruída ao ponto do inabitável, obrigando os siameses a estabelecerem o governo em outra região. O lugar escolhido foi a vila de Thomburi, próxima ao mar e mais fácil de ser defendida com poucos soldados.

Taksin foi declarado rei em 1767, porém ainda tinha um reino a ser reunido após a devastação birmanesa. Durante três anos o monarca se ocupou com os rivais mais fortes, responsáveis por dividirem o Sião em cinco entidades separadas, enquanto buscava apoio político e armamento no exterior, com destaque para a China, a Inglaterra, Portugal e Holanda. Mesmo nesse turbilhão, Taksin arranjava tempo para escrever peças de teatro.





Em 1775, os rivais de longa data voltaram à fronteira, apenas para serem rechaçados pelo novo exército siamês, mais disciplinado e numeroso em comparação com a guerra de 1765-1767. As tropas birmanesas recuaram em 1776 (coincidentemente o mesmo ano em que os americanos declararam independência em relação à Inglaterra), e os siameses asseguraram o controle sobre as províncias do noroeste. Um ano depois, Taksin já se ocupava com disputas fronteiriças no Camboja e no Laos.

Taksin poderia ser lembrado como o maior monarca de seu país, porém “algo errado” aconteceu. Em 1781, o rei siamês passou a dedicar tempo excessivo às atividades religiosas e declarou-se uma reencarnação de Buda, adotando diversas políticas contraditórias. Bastou apenas um ano para que Taksin fosse deposto e executado sob as ordens do general Chao Phraya Chakri, fundador da atual dinastia da Tailândia; a capital foi transferida de Thomburi para a cidade de Bangcoc.

Não existe consenso entre os historiadores a respeito da doença que acometeu o rei do Sião, ou mesmo se esta insanidade causou tantos danos quanto a história oficial tailandesa sugere. Algumas lendas afirmam que Taksin não foi executado, e sim enviado a um templo nas montanhas, onde passou o resto de sua vida estudando textos sagrados. A saga desse líder contraditório foi um capítulo de rodapé na história da Tailândia durante um bom tempo, até a Revolução Constitucional de 1932, que acabou com o poder absoluto dos monarcas.


6-Theodoros Kolokotronis.





Evento envolvido: Independência da Grécia (1821-1830).


Um personagem comum no imaginário mundial é o fora-da-lei convertido em campeão da liberdade, geralmente forçado a agir pelas circunstâncias e lentamente convertido ao ideal maior. Durante a Guerra de Independência da Grécia contra o Império Otomano, muitos bandidos das montanhas se tornariam campeões da liberdade, e o mais conhecido deles foi Theodoros Kolokotronis, apelidado como “O Homem Velho de Moreia”.

Os foras-da-lei das montanhas gregas eram conhecidos como Klephtes, e apesar da má fama nem todos viviam desonestamente: Alguns eram apenas pastores enquanto outros ofereciam serviços como seguranças às famílias mais abastadas, ou então auxiliavam as autoridades otomanas a procurarem foragidos (algo parecido com os jagunços no Brasil). A família Kolokotronis já era famosa antes mesmo do início da rebelião, pois o pai de Theodoros, chamado Konstantinus, participou de uma revolta mal sucedida em 1770.

Theodoros servia a família Deliyannis, uma das mais poderosas da região, e trabalhava em parceria com Mitros Petrovas, outro líder dos Klephtes. Foi com Petrovas que Theodoros se aproximou dos ideais de liberdade e Iluminismo, ainda fortes na Europa apesar da repressão dos países vencedores das Guerras Napoleônicas. Ironicamente, os britânicos serviriam de aliados a Kolokotronis: Após ser forçado a fugir para a ilha de Zante, então em mãos inglesas, o líder Klepht seria instruído nas artes da guerra.

Em 1821, Theodoros retornou à Grécia continental e forjou uma aliança com outros grupos de Klephtes insatisfeitos com o domínio otomano. Na época ele tinha cinquenta anos, o que contribuiu para o apelido de “Homem Velho de Moreia”, mas sua energia e vivacidade eram dignas de um rapaz jovem. Um monge ortodoxo afirmou que Theodoros se envolvia tanto com o comando de suas tropas que recebia a comunhão montado a cavalo, do lado de fora da igreja.




Apesar de menos numerosos em comparação com o poderoso exército turco, os Klephtes contornavam esse problema com o conhecimento do terreno montanhoso, além de fazerem emboscadas constantes. O maior triunfo de Theodoros durante a luta pela liberdade da Grécia foi a Batalha de Dervenakia, onde os turcos foram atraídos para uma ravina, antes de serem destroçados pelos gregos.

As lutas de Theodoros não envolveram apenas os turcos, pois os gregos tiveram duas guerras civis no meio da rebelião, em 1824 e 1825. Na segunda delas Theodoros perdeu um filho, pouco tempo após o casamento deste com Eleni, filha de Laskarina Boubolina (falamos dela na lista das Mulheres na Guerra, do mesmo autor). Como se não bastasse essa tragédia, o “Homem Velho de Moreia” foi preso no mesmo ano, sendo liberado em seguida.

Após o fim da Guerra, Theodoros apoiou o conde Ioannis Kapodistrias, o fundador da Primeira República Grega. O assassinato de Kapodistrias levou o país à beira de outra guerra civil, e Theodoros apoiou o estabelecimento de uma monarquia. O escolhido para se tornar o primeiro rei da Grécia foi o príncipe alemão Otto, na época ainda um menino, e o governo foi dominado por uma regência de estrangeiros, quase todos vindos da Bavária. Theodoros se opôs ao que considerava um novo domínio estrangeiro, e foi preso em 1834, sendo liberado um ano depois.

Após esse incidente, o Homem Velho de Moreia deixou a política de lado e se dedicou a aprender a ler e escrever, a fim de relatar as suas memórias. Theodoros Kolokotronis morreu em 1843, um dia após o casamento de seu filho mais novo, e tanto o matrimônio como o funeral do velho guerreiro ocorreram com a presença do rei Otto, agradecido pelo apoio durante os turbulentos anos de conflito.


7-José Rafael Carrera y Turcios.




Eventos envolvidos: Fragmentação da República da América Central; surgimento da República da Guatemala (1839-1847); Guerra contra os Filibusteiros (1856-1857).


A América Central é uma “terra incógnita” no estudo de história no Brasil, e raramente se fala sobre o processo de independência na região. É possível falar em três independências ocorrendo quase simultaneamente, primeiro contra a Espanha, depois contra o México, e finalmente entre os estados membros da frágil união. Um dos personagens mais importantes durante os anos turbulentos foi um caudilho guatemalteco, outrora um criador de porcos analfabeto que recebeu o apelido de “Rei dos Índios e dos Padres”, ainda em vida.

José Rafael Carrera y Turcios nasceu em 1814. Com vinte e três anos, Carrera era um líder informal entre os agricultores das redondezas da Cidade da Guatemala, até que em 1837 ele se juntou às rebeliões campesinas e indígenas contra o governo liberal e anticlerical da República da América Central, presidida por Francisco Morazán. Havia uma razão pessoal para Carrera participar do movimento, pois Morazán ordenou a execução de seu sogro ao reprimir uma rebelião anterior.

Diversas guerrilhas centro-americanas se revoltaram na primeira metade do século XIX, mas nenhuma delas ofereceu desafio ao governo unionista como o exército de indígenas e monges-guerreiros de Rafael Carrera. Quase todas as cidades guatemaltecas se mantiveram fiéis a Morazán, mas o mesmo não podia ser dito das florestas e montanhas do país, onde os guerrilheiros conservadores se escondiam. Em 1840, Carrera e seu exército improvisado derrotaram os soldados sob o comando de Morazán, quando estes adentraram a Cidade da Guatemala, após acreditarem em um falso recuo de seus adversários.

Rafael Carrera tornou-se presidente da Guatemala em 1844, dois anos após a morte de Morazán, porém apenas declarou independência em 1847, equilibrando o conservadorismo católico com generosas concessões aos indígenas e aos liberais moderados. Nesse período, Carrera manteve distância dos conflitos nos países vizinhos, enquanto firmava acordos com a Santa Sé, a Bélgica e o Reino Unido. Em troca de acordos comerciais favoráveis, a Guatemala cedeu o atual Belize aos ingleses, e uma colônia belga foi fundada ao leste do país.





Em 1851, um exército de salvadorenhos e hondurenhos atacou a Guatemala, dispostos a apearem os conservadores do poder. A força invasora era duas vezes maior que o exército guatemalteco, porém foi derrotada na Batalha de Arada; nenhum governante liberal ousou atacar a Guatemala após a vitória improvável do “Rei dos Índios e dos Padres”. Carrera também se envolveu na Guerra contra os Filibusteiros (falamos dela nas listas das Mulheres na Guerra e dos Heróis que sacrificaram suas Vidas em Conflitos) e ocupou-se de realizar obras de infraestrutura, incluindo um teatro de Ópera.

Após a morte de Carrera em 1865, quem assumiu a presidência da Guatemala foi um general chamado Vicente Cerna. Em 1871 ocorreu a Revolução Liberal, liderada por Justo Rufino Barrios e Miguel García Granados, que derrubou o governo conservador. Os governos liberais reverteram boa parte das medidas pacificadoras de Carrera e privaram os indígenas de suas terras; diversos conflitos no interior da Guatemala eclodiriam após a mudança nas leis das terras indígenas.

Devido à forte rivalidade entre liberais e conservadores, é difícil avaliar o governo de Carrera, e quase toda a culpa pela fragmentação da República da América Central recai sobre o “Rei dos Índios e dos Padres”. Esse julgamento é injusto, afinal Carrera não interviu em outras nações após a fundação da Guatemala; os liberais também não demonstraram prudência no reformismo dos anos iniciais da república unida, enquanto reprimiam indígenas e perseguiam líderes religiosos, além de se apropriarem de seus bens.


8-Matías Ramón Mella.





Eventos envolvidos: Independência da República Dominicana (1844-1856) e Guerra da Restauração (1863-1865).


Deixamos para trás a América Central e seguimos ao Caribe, rumo à ilha de Hispaniola, dividida entre Haiti e República Dominicana. Enquanto a Revolução Haitiana é estudada nas escolas brasileiras, quase nada a é dito a respeito do país vizinho, que teve três declarações oficiais de independência em 1821, 1844 e 1865. Um herói envolvido nesses processos foi Matías Ramón Mella, considerado um dos três Pais da Pátria Dominicana, ao lado de Juan Pablo Duarte e Francisco Del Rosário Sanchez.

Matías era apenas um menino quando a parte oriental da ilha de Hispaniola declarou sua independência, sob o nome de Estado do Haiti Espanhol, apenas para ser anexada ao país vizinho em 1822 (ironicamente, o ano da independência do Brasil). A ocupação haitiana promovida pelo general Jean Pierre Boyer se destacou pela desapropriação de terras e pela repressão aos costumes herdados da Espanha; até mesmo brigas de galos e jogos de azar foram proibidos pela ditadura de Boyer.

Nesse regime de terror surgiu uma organização maçônica chamada “La Trinitária”, fundada por Juan Pablo Duarte. O nome dessa organização fazia referência à Santíssima Trindade e ao método de recrutamento, onde cada membro novo deveria recrutar ao menos três pessoas interessadas. Matías se juntou à Trinitária após ser convidado por Francisco Sanchez, destacando-se ao espalhar as notícias da rebelião em diversas cidades do interior, enquanto mantinha-se incógnito.




O primeiro tiro da guerra de independência contra o Haiti foi disparado por Matías em 1844, ao dar o sinal para os revoltosos dominarem o Forte Ozama, em Santo Domingo. As batalhas entre dominicanos e haitianos foram violentas, e os maiores inimigos da Trinitária foram os generais Charles Riviere-Herard e Faustin Soulouque. Faustin se autoproclamou imperador do Haiti durante a guerra, e seria deposto após uma derrota humilhante contra os dominicanos na Batalha de Sabana Larga, em 1856.

Após a independência, Matías apoiou um proprietário de terras chamado Pedro Santana, que se tornaria o primeiro presidente da República Dominicana. O campeão da luta pela independência respeitava Santana, devido à valentia deste na Batalha de 19 de Março de 1844. Entretanto, esta admiração se converteria em hostilidade, após Matías descobrir que Santana almejava transformar o país em um protetorado da Espanha, sob o argumento de manter a ordem e prevenir outra invasão haitiana.

Em 1862, Santana renunciou ao cargo de governador-geral do protetorado, desiludido, e no ano seguinte começou a luta dos dominicanos contra os espanhóis. Juan Pablo Duarte foi exilado e nunca mais retornaria ao país, enquanto Francisco Sanchez foi capturado e fuzilado; dessa forma, Matías era o único veterano da luta contra o Haiti a se envolver na Guerra de Restauração. Os principais líderes dominicanos nessa guerra foram Santiago Rodriguez Masagó e Gregório Luperón; este último foi presidente provisório do governo interino, enquanto Matías serviu como vice-presidente.

Tanto Matías como Santana morreram no mesmo ano, em 1864, de enfermidades distintas; disenteria no caso de Matías e derrame no caso de Santana. No ano seguinte, as autoridades espanholas saíram da República Dominicana, após perderem inúmeros soldados para os guerrilheiros e a febre amarela. Considera-se que a Guerra de Restauração Dominicana motivou os independentistas de Cuba, outra colônia espanhola que obteria sua liberdade na alvorada do século XX.

Hoje, os restos de Juan Pablo Duarte, Francisco Del Rosário Sanchez, Matías Ramón Mella e de outros heróis da República Dominicana repousam no Altar da Pátria, em Santo Domingo, e Pedro Santana se encontra ao lado deles. De certa forma, a presença desse controvertido personagem ao lado de outros vultos históricos representa o desejo dos dominicanos de viverem em paz com seu passado.


9-Menelik II da Etiópia.





Evento envolvido: Primeira Guerra Ítalo-Etíope (1894-1896).


Agora iremos ao coração da África, onde encontraremos um grande líder nascido na Etiópia. Menelik era um dos inúmeros príncipes na linha sucessória do trono etíope, e teve de lutar pelo comando da única nação independente no leste do continente. Nada indicava que o jovem Menelik seria o responsável por triplicar o tamanho da Etiópia, além de surpreender as potências coloniais europeias.

Os três reis antecessores a Menelik deram suas próprias contribuições, centralizando a administração do país e repelindo agressões de vizinhos islâmicos, uma ameaça constante na milenar história da Etiópia. Durante esse período turbulento, Menelik pouco se envolveu com as guerras nas fronteiras, preferindo atuar como observador na repressão às revoltas internas; esse conhecimento se provaria valioso no futuro, pois ele necessitaria da ajuda desses bandos rebeldes para manter o poder.

Enquanto lutava para garantir o trono, Menelik formava alianças com grupos islâmicos minoritários que também se ressentiam dos tradicionais inimigos da Etiópia, além de manter contato frequente com italianos e franceses em busca de armas. Um conde italiano descreveu o Imperador como um “apaixonado” por armas de fogo, além de ligeiro no adestramento com fuzis, pistolas e revólveres.

Em 1889, Menelik se tornou Imperador com o apoio da maioria da nobreza. Apesar dos esforços de monarcas enérgicos na centralização do estado etíope, havia muito a ser feito: Disputas regionais ocorriam com frequência, e boa parte dos guerreiros era fiel aos líderes locais, e não ao Imperador. Menelik II desmontou os governadores rebeldes enquanto abria a Etiópia ao mundo, atento ao colonialismo europeu que engolia a África.

Uma das principais mudanças ocorridas nesse período foi o estabelecimento de uma capital permanente para a Etiópia, em Adis-Abeba. Até então, considerava-se que a capital do país era onde estivesse o Imperador, mesmo se o local não passasse de uma tenda ou cabana. O local foi escolhido pela imperatriz Taytu Betul em 1889, e a expansão de Adis-Abeba foi impressionante: Em 1910, a capital etíope contava com 70.000 habitantes, e sete anos depois foi construída uma estrada de ferro conectando-a à colônia francesa do Djibuti.

Escaramuças com as forças coloniais italianas na Eritréia motivaram Menelik II a firmar um tratado com o país europeu, que passaria à história como o Tratado de Wuchale, chamado Ucciale pelos italianos. Esse talvez seja o tratado internacional mais insólito da história, pois a versão em amárico (uma língua da Etiópia utilizada em documentos oficiais) reconhecia a amizade entre as nações, enquanto a versão em italiano do mesmo tratado efetivamente transformava o país africano em um protetorado da Itália.





A guerra se tornou inevitável, e Menelik II foi ligeiro ao defender a Etiópia contra os italianos, enquanto conclamava seu povo a lutar com o que tivesse à mão. Ao lado do exército regular etíope, o Imperador contava com os Mehal Sefari, guerreiros de elite criados no início de seu reinado, e rebeldes eritreus também pegaram em armas contra os italianos. A maior batalha dessa guerra ocorreu em Adwa, onde o exército colonial italiano simplesmente deixou de existir; essa vitória é celebrada até hoje na Etiópia.

A vitória etíope teria resultados interessantes ao longo prazo: Os países europeus foram obrigados a reconhecerem a existência da Etiópia como um poder regional, a única nação africana livre no continente, ao lado da Libéria. Os teóricos da superioridade racial caucasiana, por sua vez, viram um desafio legítimo às suas crenças, e a ascensão etíope seria o primeiro passo na fundação do pan-africanismo e no combate ao racismo.

Os últimos anos de Menelik II no trono foram dedicados à modernização da Etiópia, embora quase todas as novidades estivessem restritas a Adis-Abeba. Eletricidade, novas técnicas de agricultura, ferrovias, telégrafos, correios e até mesmo um banco central surgiram no país, até então uma “solitária ilha de cristãos em um imenso mar de pagãos”, nas palavras do próprio Imperador.

Em 1913, o velho monarca faleceu e foi sucedido por um parente distante, chamado Iyasu. Um dos sucessores de Menelik II foi Haile Selassie, conhecido como “Rastafári” no ocidente. Assim como o vencedor de Adwa, Selassie buscou modernizar a Etiópia, criando a primeira constituição do país em 1931, e teve de enfrentar uma invasão italiana em 1935; os etíopes mais uma vez derrotaram os italianos, com ajuda dos britânicos.


10-Emílio Aguinaldo.




Eventos envolvidos: Revolução Filipina (1896-1898) e Guerra Filipino-Estadunidense (1902-1913).


E terminamos essa lista com um herói guerreiro nascido nas Filipinas, quando esta ainda era colônia da Espanha. Emílio Aguinaldo seria presidente da primeira república constitucional fundada na Ásia, além de seu mais jovem chefe de estado, com apenas vinte e nove anos. A vida de Emílio Aguinaldo foi um verdadeiro caleidoscópio, assim como a história de seu curioso país.

Emílio Aguinaldo nasceu em 1869, na cidade de Kawit, sendo o sétimo de oito filhos; assim como Taksin, havia sangue chinês por parte de pai na família de Emílio, uma das mais prósperas da região. Os Aguinaldos viviam da fazenda e do comércio, e tanto Emílio como seu pai foram chefes da câmara de vereadores de Kawit. O rapaz se juntou à maçonaria em 1895, o mesmo ano na qual virou chefe da câmara, e a partir daí ele se envolveria com diversos partidários da independência.

Um amigo da família convenceria Emílio a se juntar ao Katipunan, um movimento patriótico criado por Andrés Bonifácio. Os ânimos estavam exaltados em 1896, após a prisão e execução do poeta José Rizal, quando este publicou diversos artigos atacando as autoridades espanholas no arquipélago. Andrés afirmava que a hora de lutar havia chegado, enquanto Emílio defendia cautela, argumentando que os Katipuneros precisavam aumentar seus efetivos para terem alguma chance contra os espanhóis.

A descoberta do Katipunan pelas autoridades coloniais já em 1896 obrigou os patriotas filipinos a contra-atacarem com pressa. A primeira batalha de Emílio ocorreu em sua cidade natal, e o líder revolucionário deu ordens para seus homens não executarem os prisioneiros espanhóis, prevendo que o governo colonial devolveria todas as agressões dos rebeldes com a mesma força.



O Katipunan se saiu bem na maioria das batalhas, mas a rivalidade entre Andrés e Emílio aumentava a cada vitória ou derrota. Em 1897 ocorreu uma convenção de Katipuneros na cidade de Tejeros, a primeira eleição presidencial da história asiática. Andrés tentou ser nomeado vice-presidente quando soube que perderia a disputa, apenas para ouvir Daniel Tirona, membro fundador do Katipunan, afirmar que um advogado seria melhor opção para o cargo. Andrés sentiu-se insultado e por pouco não disparou o revólver contra Daniel.

O presidente escolhido para a república em gestação foi Emílio, e Andrés ordenou a recontagem de votos, obtendo o mesmo resultado. Ironicamente, Emílio sequer sabia da Convenção de Tejeros, pois estava na frente de batalha em Pasong Santol, e foi avisado do ocorrido um dia depois, por seu irmão. Sentindo-se traído por Andrés, Emílio concordou em assumir a presidência e enviou um telegrama ao rival, em nome da união dos Katipuneros, mas foi rechaçado. Emílio ordenou a prisão e execução de Andrés e seus seguidores, uma ação até hoje controversa entre os historiadores filipinos.

A guerra contra os espanhóis terminaria em 1898, após o pacto de Biak-na-Bato, mas outro desafio apareceria diante da Primeira República das Filipinas: Os americanos, até então vistos como aliados, na verdade queriam anexar o arquipélago, e muitos companheiros de Emílio concordavam que um novo governo colonial talvez fosse preferível à instabilidade interna do Katipunan. Apesar de exaustos, os patriotas filipinos resistiram como puderam ao exército americano, até a captura de Emílio em 1901; no ano seguinte, quase todos os líderes rebeldes depuseram armas, embora rebeliões ocorressem até 1913.

Durante o período colonial americano nas Filipinas (1901-1935), Emílio se afastou da política, enquanto representava entidades de auxílio aos veteranos das lutas nas quais se envolveu; vez ou outra ele demonstrava apoio a algum representante político mais exaltado, conclamando pela independência total. Em 1935, os Estados Unidos afrouxaram o domínio sobre o protetorado; nessa época, Emílio disputou as eleições para presidente da Comunidade das Filipinas, mas perdeu as eleições para Manuel Quezon.

Após a ocupação japonesa das ilhas, Emílio foi preso sob uma acusação infundada de colaboracionismo com os invasores. Em 1946, os americanos concederam a independência às Filipinas e Emílio foi chamado pelo presidente Elpídio Quirino para fazer parte do recém-estabelecido conselho de estado; ele não ficou muito tempo na posição, voltando a lidar com os assuntos dos veteranos de guerra.

Em 1962, o dia da independência das Filipinas foi alterado de quatro de Julho para 12 de Junho, em homenagem à Revolução liderada por Emílio Aguinaldo e Andrés Bonifácio. O último herói vivo da independência filipina participou dos eventos, a despeito de sua saúde frágil. Dois anos mais tarde, Emílio faleceu de trombose coronária, com noventa e quatro anos, sendo o mais longevo herói dessa lista; sua última ação foi doar a casa onde vivia, a fim de transformá-la em um museu da Revolução Filipina.


*Confira outro texto sobre o tema:


10 Heróis de Independência pouco conhecidos - Parte 2



Texto escrito por Mateus Ernani Heinzmann Bulow. 

   


Mateus Bulow é gaúcho da cidade de Santa Maria/RS, Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Santa Maria (FADISMA), escritor e poeta. 

Ele é autor de dois livros de fantasia publicados:

*Taquarê -- Entre a Selva e o Mar




*Livro dele no Skoob:


https://www.skoob.com.br/taquare-entre-a-selva-e-o-mar-844417ed849687.html


*Divulgação do Livro no Blogue:

http://tatycasarino.blogspot.com/2017/06/taquare-entre-selva-e-o-mar_68.html


*Divulgação do Livro no Canal do YouTube de Taty Casarino:



https://www.youtube.com/watch?v=XFpiUL97u3I



*Leia o início do livro gratuitamente e compre o livro para ler a história completa no Link abaixo:


https://pensecomigo.com.br/livro-taquare-entre-a-selva-e-o-mar-pdf-mateus-ernani-heinzmann-bulow/

*Compre o Livro no site Amazon: 


https://www.amazon.com/dp/B071K2WZV6?ref_=cm_sw_r_kb_dp_DbZ3ybGJMJ3GP&tag=pc161256-20&linkCode=kpe



*Taquarê -- Entre um Império e um Reino




*Divulgação do Livro no Blogue:


http://tatycasarino.blogspot.com/2019/04/divulgacao-de-livro-taquare-entre-um.html


*Sobre o Livro dele no Jornal Diário de Santa Maria:


https://diariosm.com.br/cultura/taquar%C3%AA-entre-um-imp%C3%A9rio-e-um-reino-1.2138628

                *Mateus falando sobre o seu livro no Lançamento que ocorreu na Feira do Livro de Santa Maria/RS (Canal do Youtube do Diário de Santa Maria):


           



   https://www.youtube.com/watch?time_continue=4&v=nvyq1UuDi-Q&feature=emb_logo



*Compre o livro no Site Amazon:

https://www.amazon.com/TAQUAR%C3%8A-Entre-Imp%C3%A9rio-Reino-Portuguese/dp/179548831X

*Confira todas as postagens do colunista Mateus no blogue:

http://tatycasarino.blogspot.com/search/label/Mateus%20Ernani%20Heinzmann%20Bulow


*Mateus Bülow também é colaborador do Podcast "Literatura em Ação" no YouTube (dentro do Canal da Taty Casarino) e no Spotify (dentro do Podcast "Literatura em Ação") com dicas de escrita para jovens escritores.

*Literatura em Ação no Spotify:

https://open.spotify.com/show/3Nqc44j01TlisrngKyVIMB?si=lxyX4g8fQvqURncRjip4lw

*Os três pilares da literatura fantástica no YouTube:


   



https://www.youtube.com/watch?v=cmGyobeSKBA

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

10 Mitos da Era Medieval.

                


  Olá, querido leitor! Como você imagina o período da Idade Média na sua cabeça? Como um período obscuro e sujo? Como a época da Peste Negra? Como um período retrógrado e isento de ciência? Como uma interminável caça às bruxas? Como um período machista e isento de mulheres no poder? Como um período onde as pessoas acreditavam que a Terra era plana? Como um período onde não havia República e apenas reis dominavam as suas terras? 
   Ou você acredita na Idade Média como um período bonitinho, repleto de príncipes encantados e seus cavalos brancos, cavaleiros medievais virtuosos e princesas da Disney?
    Saiba que a visão negativista acerca dessa época está equivocada apesar da visão romântica sobre ela também ser falsa. A realidade está em algum lugar sóbrio, moderado e isento de paixões políticas. Vamos fazer justiça à Idade Média e estudar como ela era de verdade? A Igreja Católica não foi tão obscurantista, os criacionistas reconheciam que a Terra era redonda, as mulheres não foram tão oprimidas como dizem (as moças do Império Bizantino eram cultas e tinham direito ao divórcio, por exemplo) e nem todos os lugares eram governados por reis. 
      Preparado para ver a Idade Média com mais realismo? Então, suba em seu cavalo, pegue a sua espada mais afiada para rasgar as vendas e os falsos véus sobre essa época e esteja preparado para essa aventura em formato de texto. Vamos derrubar 10 mitos da Era Medieval a seguir! Boa leitura!

***Observação: O texto abaixo foi escrito pelo amigo escritor Mateus Ernani Heinzmann Bulow. 


10 Mitos da Era Medieval.




Quando se fala na Idade Média, duas imagens costumam surgir na mente. A primeira delas é sombria e lúgubre, mostrando esse período como um vazio de conhecimento e progresso humano, dominado pela violência e pela superstição, ao lado das pestes e da fome. A outra visão é mais colorida e romântica, de cavaleiros heroicos salvando princesas e lutando contra dragões, enquanto lindos castelos ponteiam a paisagem dos campos.
Como seria de se esperar, a visão mais realista da Idade Média pende à primeira das formas habituais de analisar o período, mas esta também não se encontra totalmente correta. Na verdade, a Idade Média foi mais vibrante e diversa do que imaginamos, tanto na cultura como nas artes e na ciência, além de formar a base de boa parte do que nós chamamos hoje de “mundo ocidental”.
Boa parte dos enganos comuns a respeito da Idade Média deve-se ao Iluminismo iniciado no Século XVIII. Autores como Voltaire, Rousseau e Locke criticavam com veemência diversos aspectos do Regime Absolutista, enraizado em instituições do período anterior à Idade Moderna. É possível falar em “ressentimento” contra a Idade Média por parte desses autores, o que afetou as interpretações dos mesmos em relação ao período.
Estudos a respeito dos mitos sobre a Era Medieval não são novos, e essa lista com dez mitos é apenas um grão de areia no esforço da compreensão do passado, com foco na Idade Média europeia. Fiz um apanhado geral de assuntos, indo da vida cotidiana dos camponeses e passando por outros aspectos interessantes, como os armamentos, as formas de governo, a alimentação e tradições que sobreviveram ao fim da Era Medieval. Sem mais delongas, embarque na carruagem, e vamos em frente!

1-“As pessoas achavam que a Terra era plana”.


                   




A primeira vítima dos mal-entendidos envolvendo o período medieval costuma ser a ciência daquela época, vista como um mero suspiro tímido, envolto em superstição e opressão religiosa. Hoje se sabe que a ciência medieval se encontrava em um nível comparável ao da antiguidade, com seus respectivos altos e baixos e lugares amistosos aos sábios e cientistas, como as cidades-estados italianas e as cortes de monarcas mais tolerantes. Nesse fogo cruzado, o formato da Terra é outra vítima das interpretações erradas.


Sabe-se hoje que os gregos antigos já reconheciam a Terra como redonda, e o primeiro a calcular a circunferência do globo foi Eratóstenes de Cirene. O método de Eratóstenes se baseava na observação do sol e nas sombras de objetos, como estacas cravadas no solo; embora a técnica fosse boa, Eratóstenes errou por alguns quilômetros ao fazer seu cálculo, e seu engano influenciaria concepções posteriores.

             

Esse conhecimento sobreviveria à turbulência dos primeiros anos da Era Medieval, assim como várias descobertas realizadas anteriormente, graças à tão vilipendiada Igreja Católica. Um dos símbolos da autoridade papal nesse período tratava-se de um globo com uma cruz, chamado Globus Cruciger (falamos dele na lista das 10 Iconografias Cristãs), mais tarde adotado por monarcas de diversos países.



Outro personagem frequente no mito da Terra plana é Cristóvão Colombo. Até hoje vemos pessoas repetindo o mito de que o navegador genovês convenceu os reis Fernando de Aragão e Isabel de Castela do formato redondo do nosso planeta azul, quando na verdade a ideia dele era outra: Para Colombo, era possível alcançar as Índias dando a volta no globo, indo a oeste. Ele errou apenas no tamanho da circunferência da Terra, maior do que o esperado, bem como na presença de um “pequeno” obstáculo no caminho: As Américas.

2-“A higiene pessoal era precária e quase ninguém tomava banho”.


          

É quase automático esse pensamento: De um lado, castelos impressionantes, e em suas redondezas se vê uma massa sufocante de choupanas de madeira e palha, com sujeira para todos os lados. Nesse espetáculo nauseabundo, os camponeses são ainda mais sujos que suas humildes residências, cobertos de terra e dejetos de seus animais.



A maior parte dos relatos falando nesse lado “porquinho” dos homens medievais vem do Século XIX, influenciados pelo Iluminismo tardio. Entretanto, basta ver algumas ilustrações e gravuras da época para perceber que o banho era uma atividade que fazia parte do cotidiano medieval, mesmo se estes não ocorressem com a mesma frequência com a qual limpamos o corpo hoje em dia.
Um dos principais defensores do banho como prevenção de doenças foi o médico milanês Maino de Maineri, que viveu no Século XIV. Maineri descreveu nada menos que cinquenta e sete condições clínicas que poderiam ser tratadas com um simples banho, tais como diarreia e dores musculares, além de desaconselhar o banho após as refeições (um hábito observado até hoje).
Algumas cidades localizadas próximas a fontes de água ficariam famosas por seus banhos públicos, que eram opções em conta para os mais humildes. Possuir os próprios meios de se banhar era luxo para poucos; era comum oferecer às visitas uma tina cheia d’água para lavar o rosto e os pés. Essas casas de banho público também serviam como tavernas e casas de prostituição.
As casas de banho público entrariam em decadência no início do Século XV, após a passagem da Peste Negra pela Europa. Com a devastação causada pela doença, os europeus tornaram-se mais desconfiados a expor o corpo perto de outras pessoas, e mais tarde as viagens ao Novo Mundo trariam outra doença associada ao contato físico: A Sífilis.

3-“As mulheres eram menos livres”.



         

Este é outro estereótipo clássico associado a essa era, e até hoje é evocado pelos movimentos feministas, geralmente ao lado de alguma crítica indireta à Igreja Católica. A mulher durante esse período quase sempre é retratada como uma figura recatada, passiva e sofrida, oprimida pelo meio onde vivia.
A despeito do pensamento geral da época, deixando mulheres em situação inferior em relação aos homens, na prática não ocorriam diferenciações acentuadas entre os sexos, ao menos no trabalho diário. Era comum ver as esposas ajudando os maridos em seus ofícios e administrando a casa quando o esposo estava longe. Tal liberdade não era a mesma em todos os lugares: Em comparação com o oeste da Europa, as mulheres no Império Bizantino e nos territórios da atual Rússia costumavam ser mais cultas e tinham direito ao divórcio.
Um mito associado ao suposto tratamento ruim dado às mulheres é o da primeira noite de núpcias, que dava aos senhores feudais o direito de tirarem a virgindade de mulheres que se casariam em seus domínios. Não existem registros a respeito dessa bizarrice, mas sabe-se que alguns senhores cobravam taxas de servos que trouxessem noivas de feudos vizinhos. Ironicamente, os europeus medievais acreditavam que os povos bárbaros pagãos tinham esse costume da primeira noite de núpcias.



Diversas mulheres nobres se sobressairiam na história europeia, ofuscando seus companheiros e outros membros homens de suas famílias. Foi o caso de Eleanor da Aquitânia, esposa de Luís VII da França e mãe de Ricardo I da Inglaterra, uma das mais poderosas rainhas de sua época, controlando um território que compunha os dois países. Essa união dinástica entre França e Inglaterra seria um dos estopins da Guerra dos Cem Anos, onde as identidades de ambos os países seriam construídas na ponta da espada.



Outra rainha de destaque na passagem da Era Medieval para a Era Moderna foi Isabel de Castela, esposa de Fernando de Aragão. Durante o reinado dos chamados Reis Católicos, a Espanha seria unificada, os últimos reinos mouros cairiam ante as armas cristãs e as Grandes Navegações revelariam um Novo Mundo. Os espanhóis da época costumavam dizer “Monta Tanto, Isabel como Fernando”, indicando a igualdade dos monarcas sob a mesma coroa.

4-“Todos os lugares eram governados por reis ou nobres”.

      


Um dos aspectos associados à Era Medieval é a monarquia como forma de governo, mas a história prova que tivemos repúblicas no período, e não eram poucas. Vale lembrar que o Império Romano foi uma república durante um longo período, e esta experiência se repetiria na Itália, nas cidades de Gênova, Florença, Pisa, Veneza e San Marino (falamos de San Marino na lista das 10 Constituições ainda em vigor). Embora fossem pequenas, essas repúblicas marítimas eram ricas e poderosas, graças ao intenso comércio no Mar Mediterrâneo.
É digno de nota que a cidade de Roma foi convertida em uma república entre os anos de 1144 e 1193. Sob a liderança de Giordano Pierleoni, a população da cidade se rebelou contra o crescente poder do Papa e instaurou um senado, tentando emular a antiga República Romana. Essa curiosa experiência seguiria até a batalha do Monte Porzio, onde tropas do Sacro Império Germânico derrotaram os republicanos de Roma, forçando o retorno do Papa ao governo da cidade.



Falando no Sacro Império Germânico, deve-se observar que esta entidade era uma confederação de reinos e ducados semi-independentes, e entre eles existiam as Cidades Livres (“Freie Reichsstadt”, em alemão). Essas cidades eram parte do Império, porém gozavam de autonomia ainda maior, incluindo a forma de governo; a maioria das Cidades Livres era governada por um bispo ou um príncipe sem laços com as famílias mais influentes, e algumas eram repúblicas, como era o caso de Worms, Augsburg e Hamburgo.


Como visto anteriormente, algumas repúblicas medievais surgiram como reação à opressão dos monarcas, e o melhor exemplo é a Islândia. Outrora uma ilha desabitada, a Islândia sofreu um fluxo de “refugiados” após as guerras de unificação movidas por Harald Fairhair, o primeiro rei da Noruega (falamos dele e de sua esposa, Gyda Eiriksdatter, na lista dos 10 Casais da Realeza), e seria governada por um parlamento formado por líderes de clãs. A Comunidade Islandesa entraria em um longo período de guerras fratricidas no Século XIII, e após 1260 quase todos os líderes da ilha aceitariam a suserania do rei da Noruega.



Até na longínqua Rússia existiu uma república, na cidade de Novgorod. Apesar do nome, a República de Novgorod lembrava uma oligarquia feudal, dominada pelos prósperos comerciantes do Mar Báltico; seu território se estendia do norte da atual Rússia até o oeste da Sibéria. O declínio dessa república se deve tanto à independência da importante cidade de Pskov, no oeste, como às disputas territoriais com o Grão-Ducado de Moscou. Pskov e Novgorod seriam submetidas por Moscou, que se tornaria o núcleo da Rússia.

5-“Apenas os cavaleiros possuíam armaduras”.



Em comparação com as disciplinadas legiões romanas, exércitos medievais pareciam massas desorganizadas, com poucos homens de armadura a cavalo e uma centena de camponeses maltrapilhos, quase todos carregando lanças improvisadas e ferramentas como enxadas, pás e machados. Essa visão fazia sentido no início da Era Medieval, mas a situação dos guerreiros mais simples se inverteria durante a Baixa Idade Média.
Uma armadura completa era difícil de ser obtida, mas isso não significava que soldados sem sangue nobre estavam proibidos de utilizar proteções mais elaboradas. Da mesma forma que hoje um sujeito humilde pode pagar por versões mais baratas de um celular, um soldado a pé dispunha de opções acessíveis de armaduras metálicas; estas armaduras simples não protegiam o corpo com a eficiência da roupa metálica de um cavaleiro, porém como diz o ditado, “pouco é melhor que nada”.



É necessário frisar que cavaleiros raramente lutavam sozinhos, exceto em duelos individuais. Conforme os exércitos medievais se convertiam em forças permanentes, mais soldados adquiriam proteções corporais. Na passagem da Idade Média para a Idade Moderna, surgiriam as chamadas armaduras de munição, que eram alojadas nos quartéis para oferecer proteção mínima aos soldados quando se fizesse necessário. As armaduras de munição eram feitas de uma liga de ferro e fósforo, mais resistente em comparação com ferro puro.

6-“Exércitos medievais não usavam armas de fogo”.



Assim como o mito anterior, essa afirmação era válida no início da Era Medieval, porém seria quebrada durante a Baixa Idade Média. Existem duas hipóteses de como a pólvora saiu da longínqua China até chegar ao Ocidente: A primeira delas afirma que mercadores trouxeram a pólvora consigo, enquanto outros registros apontam os exércitos mongóis a serviço de Genghis Khan como os responsáveis por apresentarem os europeus a esse novo método de guerrear.



O primeiro registro de um canhão utilizado em solo europeu data de 1346, na Batalha de Crecy; os ingleses utilizaram dois canhões contra seus inimigos franceses, sem grande resultado. Durante o decisivo cerco de Orleans, onde ocorreu o batismo de fogo de Joana D’Arc, os defensores da cidade utilizaram canhões, assim como os atacantes. Em Castillon, onde ocorreu a última batalha da Guerra dos Cem Anos, os franceses utilizaram canhões de diversos tamanhos, inclusive canhões de mão.



O canhão de mão é um tubo pequeno de metal com uma forquilha de madeira e disparado por meio de um buraco de pólvora. Os exemplares mais antigos datam de 1288 e foram encontrados na China (isso elimina o mito de que os chineses apenas usavam pólvora em fogos de artifício). Em comparação com arcos e bestas, o canhão de mão é desajeitado e impreciso, mas possui enorme vantagem na velocidade de treinamento dos soldados. O humilde tubo metálico serviria de base para todas as armas de fogo pessoais que surgiriam nos séculos seguintes.



No final da Idade Média, outra arma de fogo de pequeno porte apareceria em 1411, chamada arcabuz. Seu formato era aparentado com as espingardas modernas, além de ser disparado por um pavio ligado à pólvora e um gatilho, mais seguro em comparação com o canhão de mão. Alguns governantes da época reconheciam o poder do arcabuz e de outras armas de fogo, como é o caso de Matias Corvino, rei da Hungria: Nada menos que um em cada cinco soldados de seu exército portava um arcabuz ou canhão de mão.

7-“A Autoridade Papal era Inquestionável, e perseguições contra hereges e bruxas eram frequentes”.



No início da Idade Média o número de cristãos era menor que o atual. A conversão de povos bárbaros foi difícil, pois muitos deles veneravam deuses tradicionais ao lado de símbolos cristãos. Era normal um marinheiro viking rezar a Thor e a Jesus antes de partir em uma viagem, afinal para ele o homem que morreu na cruz era apenas um deus a mais no panteão. A solução encontrada pelos monges ao catequizarem povos aguerridos foi apresentar Jesus como um ícone da vitória sobre o mal, enfatizando o lado belicoso de sua figura.



Mesmo com todo o esforço dos missionários, muitas regiões europeias continuariam dominadas pelos pagãos. Um exemplo é a Samogícia, no oeste da atual Lituânia, onde o paganismo dominaria até o Século XV, com o deus do trovão Perkunas liderando o panteão. Foram necessários duzentos anos para converter os habitantes da Samogícia, além de muito sangue derramado, entre poloneses, lituanos, ordens de cavaleiros alemães e pagãos.
Conversões agressivas eram desencorajadas pelo Papado, pois almas mortas não podiam ser salvas. O Papado se intrometia na política dos reinos, muitas vezes tentando impedir perseguições injustas a determinados grupos, como judeus e bruxas. Um dos exemplos mais notórios da interferência da Igreja foi uma carta enviada pelo Papa Gregório VII ao rei Harald III da Dinamarca, ordenando-o a cessar perseguições às mulheres acusadas de bruxaria, sob o argumento de que as bruxas não existiam. Perseguições similares ainda ocorreriam na Europa, a despeito da pressão religiosa.



Apesar do reconhecimento nominal da supremacia papal por outros soberanos, na prática o Papado necessitava se defender com frequência, inclusive de agressões militares. A Península Italiana sempre foi um palco de guerra, e Papas também lideravam exércitos, como Júlio II. Conhecido pelo temperamento explosivo, Júlio II era temido pelas cidades-estados próximas a Roma, e seus dez anos à frente da mais importante posição da cristandade foram marcados por vitórias militares.


Uma das maiores reações à Igreja Católica foi a rebelião dos Cátaros, no sul da França, em 1205. Os Cátaros, também chamados Albigenses, acreditavam na existência de dois deuses, um bom e outro mau, além de chamarem o Papa de “Filho do Demônio”. De início o Papado tentou negociar com os Cátaros, mas o assassinato de um emissário serviria de estopim ao conflito, com veteranos das Cruzadas ao Oriente Médio se juntando à refrega, que duraria de 1209 até 1229. Alguns historiadores classificam a ação dos Estados Papais e de seus aliados como “genocida”.



Em 1419, outra rebelião religiosa explodiria na atual República Checa. As chamadas Guerras Hussitas seriam iniciadas pela execução do monge Jan Hus, acusado de heresia, e nada menos do que cinco cruzadas convocadas pelo Papa foram derrotadas pelos rebeldes checos. Um dos maiores comandantes Hussitas foi Jan Zizka, um latifundiário cego de um olho, responsável pela criação de uma nova forma de guerrear contra os cavaleiros medievais, utilizando carretas e canhões de mão.
Diferentemente da Cruzada Albigense, as Guerras Hussitas acabariam em tratados favoráveis aos rebeldes, ou ao menos parte deles. Por volta de 1423, os Hussitas se dividiram em Utraquistas e Taboritas; os Utraquistas eram moderados dispostos a assinarem um acordo de paz com os católicos, algo inaceitável para os Taboritas. Após a morte de Jan Zizka, os Taboritas mudaram o nome para Sirotci (“Órfãos”, em checo), e foram derrotados na batalha de Lipany, por uma força conjunta de católicos e Utraquistas. Considera-se que os conflitos Hussitas serviram de “ensaio” para a Reforma Protestante de 1519.

8-“Com exceção da Nobreza e do Clero, quase ninguém comia carne”.

            
           
                  

Voltando à vida cotidiana dos camponeses, passamos por esse mito comum em livros mais antigos. Sabe-se hoje que os homens da época contavam com uma gama variada de alimentos, salvo durante os períodos de escassez. Embora alguns animais de caça fossem exclusividade dos senhores de terra, como veados e faisões, a carne foi mais comum na mesa das classes populares do que se imagina.
A disponibilidade de alimentos não era a mesma em todas as regiões ou durante todo o ano. Ovelhas e vacas, por exemplo, eram mais populares ao norte, enquanto a França e a Península Ibérica eram territórios dos criadores de porcos. Na Quaresma e na Páscoa o consumo de carne dava lugar ao de peixe, e os europeus viam “peixes” em praticamente todos os animais aquáticos, incluindo mariscos, lagostas, golfinhos e baleias.

           

As galinhas e os porcos eram os animais mais importantes à população pobre, devido à facilidade de manter um bom número desses animais sem necessidade de extensas pastagens. Outra vantagem está no ciclo reprodutivo: Enquanto vacas e ovelhas costumam ter uma cria por vez, uma porca consegue ter dez ou mais leitões em apenas uma gestação, e uma galinha nunca para de botar ovos.
Os porcos eram animais significativos à economia medieval, pois eles serviam para tudo: Os pelos são bons para fazer pincéis, enquanto a gordura é usada na fabricação de velas, sabão e até óleo lubrificante para rodas de carroças. Havia certo orgulho entre os cristãos ao comerem porco, pois judeus e muçulmanos eram proibidos de consumir esse animal.





Animais caçados forneciam outra fonte importante de proteína, ao lado dos animais domésticos, e essas ocasiões muitas vezes uniam nobres e plebeus na busca pelo jantar. Lebres e javalis eram as presas mais comuns, porém praticamente todo bicho era aproveitado, de uma forma ou outra. As caçadas eram excelentes oportunidades para se demonstrar força e coragem, com destaque para a caçada de javalis.

9-“Todas as expedições à Terra Santa resultaram em retumbantes fracassos, com exceção da Primeira Cruzada”.



Nenhum evento marcaria a Idade Média como as Expedições de Cristo, chamadas tardiamente de Cruzadas pela historiografia moderna. Na verdade, as Cruzadas não ficaram restritas à Terra Santa, indo de lugares tão distantes como o norte da Europa e a Península Ibérica. Como ocorreram inúmeras guerras entre cristãos, islâmicos e pagãos, falarei apenas das principais aventuras europeias no Levante, somando oito expedições.
O estopim da primeira Expedição de Cristo foi o pedido de socorro do imperador bizantino Aleixo I, cujo reinado se encontrava sob a ameaça dos turcos Seljúcidas.  Muitos fatores levariam à reconquista de Jerusalém, tais como devoção religiosa, desejo de adquirir terras, proteger peregrinos e combater inimigos do cristianismo. Havia ainda a preocupação do papa Urbano II com a violência entre cavaleiros; Urbano II acreditava que usar a agressividade dos guerreiros contra inimigos da cristandade faria bem aos fiéis.



O estabelecimento do Reino de Jerusalém e de outros estados cristãos no Outremer (literalmente, “Além-Mar” em francês medieval) marcou o fim da Primeira Cruzada, mas a defesa dos frágeis territórios dependia dos cavaleiros e peregrinos vindos do ocidente. A necessidade de defender a região levaria ao surgimento de ordens de cavaleiros, como os Templários, os Hospitalários, os Teutônicos, entre outros grupos.
A Segunda Cruzada foi iniciada pela queda do Condado de Edessa diante do exército islâmico de Imadadim Zengi, fundador da dinastia que leva seu nome. A expedição cristã para libertar Edessa foi derrotada, mas influenciou o rumo da Reconquista Ibérica: O exército combinado de cruzados vindos de toda a Europa auxiliou o rei Afonso I de Portugal a expulsar os islâmicos de Lisboa. Imadadim Zengi, por sua vez, não teria tempo de aproveitar sua vitória, sendo assassinado por um escravo logo após vencer os cruzados.



Com o fim de Zengi, outra dinastia islamita surgiria na região, chamada Aiuíbida; o fundador desse império foi Saladino, o primeiro muçulmano a reconquistar Jerusalém, após anos de supremacia cristã. Muitos reis participaram da Terceira Cruzada, com destaque para Richard I da Inglaterra, o único adversário nunca derrotado por Saladino. A “Cruzada dos Reis” terminou em vitória militar para os cruzados e com o estabelecimento de um domínio cristão na cidade de Acre, porém Jerusalém continuaria com os islâmicos; Saladino se comprometeu a respeitar peregrinos cristãos.
Mais Cruzadas ocorreriam no futuro, e nenhuma delas repetiria os feitos das primeiras expedições. A Quarta Cruzada terminou em tragédia, com o saque de Constantinopla e o enfraquecimento do Império Bizantino, enquanto a Quinta Cruzada terminou em outra derrota militar para os cristãos. A Sexta Cruzada terminaria com vitória diplomática de Frederico II do Sacro Império Germânico, sem necessidade de invadir Jerusalém. Tanto a Sétima Cruzada como a Oitava Cruzada foram lideradas pelo rei Luís IX da França, sem obter sucesso.
Vendo em retrospecto, o primeiro impulso é imaginar que as Cruzadas não passaram de perda de tempo, recursos, energia e vidas. Entretanto, os domínios cristãos no Outremer compuseram o primeiro caso de colonialismo europeu em terras distantes, e as viagens além-mar tornaram os europeus mais familiarizados com diversas especiarias do oriente, como o açafrão, a noz moscada, a canela, a cânfora e o cravo da índia. A Era das Navegações deve muito ao período cruzadista e à valentia dos cavaleiros, nobres, clérigos, mercadores e camponeses que largaram tudo para retomarem Jerusalém.

10-“Os cavaleiros sumiram após o fim da Era Medieval”.




E terminamos a lista com uma instituição que resistiu ao fim da Era Medieval, e ainda se encontra firme e forte, a despeito das mudanças radicais nos métodos de guerrear na Baixa Idade Média. Os cavaleiros perderiam sua importância nos campos de batalha conforme os exércitos europeus se tornavam forças profissionais, porém alguns símbolos tradicionais sobreviveriam ao advento da pólvora, ao menos durante alguns séculos.

        

Durante a transição entre a Era Medieval e a Idade Moderna, surgiram dois guerreiros a cavalo que ainda carregavam o legado de seus antecessores: Os Reiters e os Gendarmes. Os Reiters surgiram na atual Alemanha, e eram homens de armadura a cavalo levando pistolas e espingardas. Os Gendarmes, por sua vez, foram criados na França, e lembravam muito os cavaleiros de antigamente, armados com lanças e proteções pesadas.




Tanto os Reiters como os Gendarmes deixaram as armaduras de lado após o Século XVII, enquanto soldados a pé se tornavam a força dominante nos campos de batalha. No aspecto linguístico, os Gendarmes deixaram sua marca na palavra “Gendarmaria”, muitas vezes usada para se referir às polícias militares de alguns países.

        

Algumas ações de ordens de cavalaria posteriores à Idade Média são impressionantes, com destaque para os Cavaleiros Hospitalários diante do Império Otomano pelo domínio do Mar Mediterrâneo. Esses guerreiros foram um obstáculo ferrenho à expansão dos turcos, mesmo lutando em desvantagem numérica e de armamentos. Duas lutas dos Cavaleiros Hospitalários são dignas de nota, nas ilhas de Rodes e Malta.
A primeira batalha em Rodes ocorreu em 1522, e aos cavaleiros sobreviventes foi garantido o direito de saírem da ilha, sem serem perturbados pelos turcos. Os Hospitalários se instalaram na ilha de Malta, com ajuda do rei Carlos I da Espanha (falamos dele e de sua esposa, Isabel de Portugal, na lista dos 10 Casais da Realeza), e de sua nova base eles moviam ações contra piratas muçulmanos, além de atacarem portos no norte da África.

        

Em 1565, os Hospitalários e o Império Otomano entrariam em outra guerra. O Grande Cerco de Malta terminaria com a vitória dos Hospitalários e seus aliados malteses e espanhóis, a despeito da disparidade entre as forças (35000 turcos contra 9000 cristãos). A vitória da Ordem foi um dos eventos mais celebrados em sua época, e marcaria o início da retomada cristã no Mediterrâneo.




Nem todas as ordens mantiveram a condição militar: A moderna Ordem Teutônica, por exemplo, perdeu seu aspecto combativo em 1929, adotando caráter puramente católico. A Ordem Teutônica foi temporariamente abolida durante o período nazista na Alemanha e na Áustria, e alguns integrantes se juntaram às resistências civis ao regime. Ironicamente, a propaganda nazista utilizava os cavaleiros teutônicos como símbolos nacionalistas.
A despeito de muitas ordens terem se tornado instituições de caridade, como ocorreu com os Teutônicos, até hoje existem ordens militares e monásticas denominadas como “cavaleiros”. Alguns exemplos são a Ordem do Santo Sepulcro, da qual o próprio Papa é o Grão-Mestre, a Ordem de Malta (herdeira direta dos Hospitalários) e a Ordem de Avis, sendo essa última nativa de Portugal e liderada pelo presidente da república portuguesa.


Texto escrito por Mateus Ernani Heinzmann Bulow, gaúcho de Santa Maria/RS.

O autor desse texto, Mateus Bulow, tem vasto conhecimento de História. Ele é Bacharel em Direito, poeta, historiador nato e escritor com dois livros de fantasia publicados:





*Taquarê -- Entre a Selva e o Mar.






*Taquarê -- Entre um Império e um Reino. 



*Conheça mais a respeito dos livros dele nos seguintes Links:


https://www.skoob.com.br/taquare-entre-a-selva-e-o-mar-844417ed849687.html

http://tatycasarino.blogspot.com/2017/06/taquare-entre-selva-e-o-mar_68.html

http://tatycasarino.blogspot.com/2019/04/divulgacao-de-livro-taquare-entre-um.html 


*Confira mais textos do nosso colunista Mateus:


*10 Casais da Realeza


http://tatycasarino.blogspot.com/2018/09/10-casais-da-realeza.html

*10 Constituições Antigas que continuam em vigor


http://tatycasarino.blogspot.com/2019/06/10-constituicoes-antigas-que-continuam.html

*10 Curiosas Iconografias Cristãs

http://tatycasarino.blogspot.com/2018/07/10-curiosas-iconografias-cristas.html

*10 Governantes Tirânicos que poderiam ser vilões da Literatura

http://tatycasarino.blogspot.com/2018/04/10-governantes-tiranicos-que-poderiam.html

*10 Mitos sobre a História do Brasil

http://tatycasarino.blogspot.com/2019/08/10-mitos-sobre-historia-do-brasil.html

*Confira todas as postagens que o Mateus escreveu para colaborar com o Recanto da Escritora:

http://tatycasarino.blogspot.com/search/label/Mateus%20Ernani%20Heinzmann%20Bulow