O caderno digital de Tatyana Casarino. Aqui você encontrará textos e poesias repletos de profundidade com delicadeza.









Contador Grátis





Mostrando postagens com marcador História. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

10 Nações Extintas Pouco Conhecidas que Mudaram a História do Mundo

 

  10 Nações extintas pouco conhecidas que mudaram a história do mundo.



             


 

   O nosso colunista Mateus Ernani Heinzmann Bülow preparou um texto sobre nações pouco conhecidas que mudaram a história mundial para o blog “Recanto da Escritora”. Tendo em vista que o Brasil comemora a Independência no dia 7 de setembro, o nosso colunista decidiu compartilhar a história dessas nações.

  Você sabia que o Brasil ficou num estado intermediário entre o domínio português e a proclamação da Independência durante um breve período? Descubra o contexto dessa informação e as curiosidades históricas de alguns territórios no texto do Mateus. Boa leitura!

 

1-Reino do Brasil.

 



 

               Todo estudante aprende três períodos da história do Brasil, indo do período colonial (oficialmente chamado de Estado do Brasil) à chegada da corte portuguesa, depois o Império e a república. No entanto, durante um breve período, o Brasil ficou num estado intermediário entre o domínio português e a proclamação da Independência, e paradoxalmente já poderia ser chamado de nação, embora ainda fizesse parte dos domínios lusitanos de Ultramar. Esse intervalo talvez seja o mais importante da história brasileira, e ainda é pouco falado.

               O Reino do Brasil foi proclamado pelo Príncipe-Regente João VI em 1815, com duas finalidades: Representar os interesses portugueses na Europa sem a necessidade do retorno do monarca ao continente, e acalmar os ânimos dos brasileiros que desejavam a separação completa, o que poderia se reverter na anarquia que já dominava os territórios ultramarinos da monarquia espanhola nas redondezas.

               Nesse sistema, o Brasil teria autonomia para definir leis e finanças, e um parlamento conjunto foi criado para representar ambos os reinos. À primeira vista o arranjo funcionou muito bem, e tensões entre brasileiros e portugueses arrefeceram com os países teoricamente em condições iguais sob o mesmo monarca reinante. Pelos cinco anos seguintes, o imenso Império Português teria o Rio de Janeiro como sua capital.

               No entanto, a Revolução Liberal do Porto em 1820 forçou o retorno de Dom João ao seu país de origem, deixando para trás seu filho, Pedro, como Príncipe-Regente, e rancores não demoraram a eclodir: Os portugueses insistiam em demover o Brasil da condição de Reino, o que era inaceitável à nova elite política surgida no território americano.

 



 

 

               A independência total não era unanimidade entre os brasileiros, ainda crentes numa possibilidade de manter os laços de amizade da metrópole com a ex-colônia, e foi justamente a teimosia das Cortes portuguesas a maior responsável pelo azedume nas relações. O plano do governo de Lisboa incluía a fragmentação do Brasil em territórios menores e o retorno imediato do Príncipe-Regente, sob o pretexto de receber “devida instrução” nas cortes, o que efetivamente o reduziria a um prisioneiro em Portugal.

               Pedro descobriu a tramoia por meio de José Bonifácio e sua esposa, a Princesa Leopoldina, e decidiu que era hora de encerrar de vez os laços com Portugal. Com isto, o Império do Brasil foi proclamado, dando um ponto final no breve período do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. O esforço dos brasileiros em criarem uma Pátria livre de influências externas continuaria com a guerra contra os portugueses até 1824.

 

2-República de Vermont.

 



 

 

               O estado americano do Vermont possui um apelido interessante, sendo chamado de o “Décimo-Quarto” na historiografia dos EUA. Isto se deve ao fato de que o Vermont demorou a aderir à aliança das então chamadas Treze Colônias contra os britânicos, e lutou sozinho por um tempo. Nesse período entre 1777 até 1791, o Vermont foi uma nação independente.

               O surgimento da República de Vermont deveu-se a um ato do rei George III de anexar o território das Montanhas Verdes à Província de Nova York, uma decisão que enfureceu os colonos da região. Em resposta ao que consideravam uma arbitrariedade, os habitantes organizaram uma milícia conhecida como Green Mountain Scouts (“Batedores das Montanhas Verdes”), sob a liderança de Ethan Allen. Os rebeldes chamaram o novo país de Vermont, que significa “Monte Verde”, em francês.

               Em 1777, os vermontinos escreveram a primeira constituição em território americano, e também a primeira constituição a abolir a escravatura e permitir sufrágio masculino universal, sem considerar a renda do eleitor. Apesar de não durar por muito tempo (ao menos como documento de caráter nacional), é inegável que a Constituição de Vermont teria influência considerável na Constituição Americana de 1787.

 



 

 

               Durante seu breve período de independência, Vermont auxiliou os Patriotas de outros estados enviando milicianos dos Green Mountain Scouts para a linha de frente, mas a ameaça dos indígenas do noroeste frustrou um envio contínuo de reforços. Vermont também possuía serviço postal, além de uma moeda própria chamada Cobre Vermontino, e seu governo sob a liderança de Thomas Chitenden mantinha relações diplomáticas com outros países, como França e Holanda, e também com o Congresso Continental dos EUA.

               O governo de Vermont decidiu se unir aos EUA poucos anos antes do fim da guerra contra os britânicos, porque uma parcela considerável de seus habitantes nutria simpatia pela ideia, um detalhe que valeu o apelido de “República Relutante” à nação. Assim, o Vermont foi o décimo-quarto estado a se juntar aos EUA, com outra constituição estadual surgindo em 1793; essa nova carta estadual não diferia muito da anterior de 1777.

 

3-Primeiro Estado Islâmico.

 



 

 

               Para compreendermos a importância da terceira nação nesta lista, eu proponho o seguinte exercício mental: Imagine como seria a história do mundo se Jesus Cristo não fosse crucificado, e de alguma forma libertasse o território judeu do domínio romano, além de estabelecer um governo e uma constituição. Foi o que o Profeta Maomé (também chamado Mohammed) fez na Península Arábica.

               O Primeiro Estado Islâmico, também denominado Estado de Medina, surgiu como uma consequência da Hégira, o êxodo de Maomé e seus seguidores. Após alcançarem a cidade de Medina e unificarem as oito tribos da região, Maomé estabeleceu um governo com base na Constituição de Medina, proibindo a guerra entre os muçulmanos, além de criar um senso de comunidade com base na fé em Alá, o Deus Único.

               Apesar de obterem uma base permanente, os primeiros muçulmanos sob a liderança de Maomé não estavam plenamente seguros: Os governantes de Meca ainda hostilizavam os fugitivos, e a Tribo Coraixita também compunha uma grande ameaça. Por dez anos o oeste da Arábia foi palco de batalhas e escaramuças ferozes, até os muçulmanos se tornarem fortes o bastante para conquistarem Meca, em 630. O líder de Meca era Abu Sufyan ibn Harb, que se converteu ao Islã e ofereceu sua filha Ramla ao ex-inimigo.

 

 

 


              


 

 

 

              Após a conquista de Meca, Maomé teve de lidar com as tribos remanescentes que ainda resistiam ao Islã, mas nenhuma delas foi capaz de oferecer a aguerrida determinação dos senhores de Meca e seus aliados Coraixitas. O Profeta de Alá faleceu dois anos depois da conquista de Meca, porém a presença islâmica encontrava-se coesa na Península Arábica, restando apenas a questão da sucessão ao governo.

               O conflito pela sucessão de Maomé teria como vencedor Abu Bakr, pai de Aisha, a terceira esposa do Profeta. Abu Bakr foi o primeiro líder islâmico a adotar o título de Califa (literalmente “Sucessor” em árabe). Considera-se que o Primeiro Estado Islâmico se converteu no Califado Ortodoxo (também denominado Rashidun) com a ascensão do Primeiro Califa, que lideraria a expansão islâmica pelos próximos anos, assim como seus sucessores.

 

4-Império Gana.

 



 

 

               Seguiremos agora para a África, onde existiu um império poderoso no oeste, trezentos anos depois do nascimento de Cristo. Pouca informação escrita restou sobre esse formidável império que se estendeu sobre o sul da Mauritânia e o oeste do Mali, sobrando uma rica tradição oral a respeito de sua existência.

               O fundador do Império Gana foi um chefe tribal do povo Soninke chamado Dinga, que estabeleceu uma pequena cidade chamada Uagadugu como a primeira capital de seu nascente país. O povo Soninke era descrito como excelente no combate a cavalo, mas o domínio não era mantido pela mão de ferro do governante, e sim com um sistema confederado que dotava as cidades fiéis ao império com autonomia em assuntos locais.

               Gana se encontrava numa área cheia de pastagens, além de minas de ouro e sal, e logo se tornou muito rico, permitindo a construção de uma nova capital chamada Kumbi-Saleh, cujas ruínas seriam encontradas apenas em 1913 pelos europeus. Manter o monopólio do acesso dessas riquezas subterrâneas era a principal função dos governantes em Gana, ao lado do comando do exército.

 



 

 

               O declínio do Império Gana começou em 1076, após a invasão dos Almorávidas, uma dinastia Berbere que dominava o Marrocos. Os Almorávidas não puderam fincar seu domínio na região de forma definitiva, mas o estrago estava feito: Rebeliões internas surgiram após a expulsão dos invasores do norte, e vários reinos e províncias declararam sua independência, fragmentando o domínio Gana sobre a região.

               É inegável que Gana inspirou os grandes impérios que surgiriam mais tarde no oeste africano, como o Mali e o Songhai (falamos dessa nação na segunda lista dos Heróis de Independência Pouco Conhecidos): A exploração do ouro e das rotas comerciais ao lado da autonomia provincial seria imitada por todos os países que viriam depois, em maior ou menor escala. Hoje, o nome Gana sobrevive numa nação ao sul de onde outrora se localizou o Império, e Uagadugu é o nome da capital de Burkina Faso.

 

 

 

5-Rússia de Kiev.

 



 

 

               O próximo integrante desta lista foi a primeira organização estatal dos povos eslavos do leste, bem como um produto da Era Viking. A chamada Rússia de Kiev influenciou de forma significativa as histórias de todos os países que outrora fizeram parte de seu extenso território, além de alimentar nacionalismos furiosos e conflitantes até hoje. Tanto a Rússia como a Ucrânia e Belarus reclamam para si o legado desta nação.

               Durante a Idade Média, a região ocidental da Rússia era entrecortada por grandes rios, planícies e florestas, alimentando o interesse dos Nórdicos em busca de um atalho rumo ao Mar Cáspio rumo à Pérsia. Os entrepostos comerciais montados pelos forasteiros em parceria com as tribos eslavas amistosas se converteriam nas primeiras cidades da região, tais como Novgorod, Moscou e Kiev, que mais tarde se tornaria a capital deste curioso império.

               Os fundadores da Rússia de Kiev foram os guerreiros Rurik e seu sucessor, Oleg, o Sábio. Enquanto Rurik liderou as primeiras expedições colonizadoras, Oleg foi o responsável pela transformação de Kiev na capital do novo país, além de expandir o território por meio da conquista e assimilação das tribos eslavas. O Povo Rus também lutou contra os Cazares ao leste e os Búlgaros ao sul, transformando-se em grandes aliados do Império Bizantino.

 



 

               Foi justamente o contato com Bizâncio que levou o Povo Rus a adotar o Cristianismo Ortodoxo, sob o reinado de Vladimir, o Grande. Esse monarca concordou em abandonar o paganismo numa visita à cidade de Constantinopla; como parte do acordo, Vladimir casou-se com Ana Porfirogênia, irmã do imperador Basílio II.

               Vladimir foi sucedido por seu filho Yaroslav, que defendeu o território Rus dos Pechenegues um povo nômade do leste. Depois de Yaroslav, as rachaduras apareceram na Rússia de Kiev, com o enfraquecimento do comércio e vários príncipes declarando sua independência; surgiram novos domínios e poderes no extenso território, como a República de Novgorod, o Principado de Vladimir-Suzdal e a Galícia-Volínia.

               Os novos estados eram pequenos e desunidos demais para resistir ao avanço do Império Mongol em 1237, gerando um período de submissão que apenas se reverteria em 1480. Ironicamente, a resistência e posterior vitória contra os mongóis devem-se muito a uma cidade considerada pequena demais para ser saqueada na época da invasão: Essa cidade era Moscou, que mais tarde se tornaria sede do Grão-Ducado da Moscóvia, a nação que cresceria até se tornar o Império Russo.

 

6-Yuan do Norte.

 



 

 

               O próximo império na lista é um caso interessante, porque o seu papel de destaque na história não foram suas realizações, e sim o que ele impediu de forma indireta, devido à sua existência. O chamado Yuan do Norte foi um estado remanescente do Império Yuan, uma das divisões do grande Império Mongol. Após o estabelecimento da Dinastia Ming, os mongóis foram obrigados a recuar para sua terra natal, onde os descendentes de Gengis Khan se reorganizaram para não serem dominados pelos antigos vassalos.

               O novo estado foi fundado em 1368 por Toghon Temur, o último imperador mongol que reinou sobre a China, e considerado também o último Grande Khan do Império fundado por Gengis Khan, seguindo a linha tradicional de sucessão. A fragilidade desse estado ficou evidente em diversas ocasiões, com invasões movidas pelos chineses e rivalidades internas; durante um bom tempo os Khans não passavam de figuras decorativas no trono, enquanto senhores da guerra mandavam no Yuan do Norte.

               A situação se inverteria com a ascensão de Dayan Khan, em 1480. Ao lado de sua esposa, chamada Mandukhai, o novo Grande Khan tirou o Yuan do Norte da defensiva e pôs novamente os mongóis no ataque, eliminando clãs hostis e fustigando as posições chinesas instaladas ao norte da Grande Muralha. O Yuan do Norte recuperou diversas tribos que se aliaram aos chineses, e expandiu seu território até o Lago Baikal na Sibéria.

               O reinado de Dayan Khan e Mandukhai foi tão bem-sucedido que alguns historiadores falam numa “segunda reunificação” durante sua época, provavelmente a melhor fase da dinastia. Nessa época o Budismo também se tornou a religião dominante na Mongólia, enquanto o tradicional xamanismo era deixado para trás.

 



 

               Em 1600 em diante, o Yuan do Norte voltou a mergulhar em conflitos internos crônicos, enquanto a China foi dominada pelos Manchus da Dinastia Qing, que logo voltaram seus arcos e mosquetes à Mongólia. A Dinastia Ming e o Yuan do Norte caíram sob o domínio Manchu praticamente na mesma época, entre 1635 e 1644, tornando seus respectivos fins especialmente irônicos.

               Apesar de não deter a mesma força de seu antecessor imediato, nem se destacar em grandes conquistas, é inegável que o Yuan do Norte mudou a história do mundo ao oferecer um desafio à China. Os ataques movidos por Dayan Khan ocorreram numa época em que a China buscava se expandir pelos oceanos de forma parecida com portugueses e espanhóis na mesma época; isso obrigou os soberanos Ming a focarem seus esforços contra os inimigos ao norte da Muralha, impedindo-os de participarem das Grandes Navegações.

 

7-Estado Borgonhês.

 



 

 

               Entre os anos de 1384 e 1482 existiu um território nos atuais Países Baixos que em tese encontrava-se governado por vassalos do Rei da França, mas na prática era uma nação independente. O chamado Estado Borgonhês foi um dos maiores poderes políticos, militares e culturais da Europa no Século XV, mas simplesmente desapareceu no início da Era das Grandes Navegações. No rastro de sua partilha surgiu a rivalidade entre as famílias reais de Valois, da França, e os Habsburgos, que governavam a Espanha e o Sacro Império Romano.

               A história do Estado Borgonhês é longa, então focaremos apenas no período em que essa entidade efetivamente agiu como se fosse uma nação independente. O arquiteto da autonomia borgonhesa foi o duque João Sem Medo, que assumiu a liderança da Borgonha em meio à Guerra dos Cem Anos e à Guerra Civil que retalhou a França em facções pró-monarquia e favoráveis à autonomia de certos domínios.

               Os borgonheses compreensivelmente apoiavam a vertente descentralizadora, e João Sem Medo pagou com sua vida numa negociação realizada numa ponte em Paris, após ser (supostamente) morto à traição. Seu filho, Felipe, jurou vingança pelo ocorrido, aliando-se aos ingleses a partir de 1420, além de capturar e entregar Joana D’Arc aos seus “novos amigos”, dez anos depois. Felipe não permaneceria aliado aos ingleses por muito tempo, e logo mudaria de lado cinco anos depois da captura da Donzela de Orleans.

 

 



 

 

               Depois de auxiliar os franceses e apoiar uma revolta conhecida como Praguerie, Felipe se afastou dos assuntos ao oeste, agindo como um líder independente e expandindo o território borgonhês. Sua corte era suntuosa, provavelmente a mais sofisticada da Europa na época. Em seu auge, a Borgonha se estendia dos Países Baixos até o centro-leste da França; o exército borgonhês também era poderoso, com tropas pagas regularmente, além de canhões e arcabuzes em grande quantidade.

               Essa potência nascente seria destruída pelas ambições do sucessor de Felipe, Carlos o Temerário, que morreu depois de invadir a Suíça, esgotando o poderio militar borgonhês. As cidades da Holanda e Bélgica também se ressentiam de um domínio centralizado, e em pouco tempo o domínio fragmentado seria partido entre uma França cada vez mais forte e o Sacro Império dos Habsburgos.

               O lugar do Estado Borgonhês na historiografia da Bélgica é interessante: Durante o Século XIX, quando os Belgas se tornaram independentes da Holanda (falamos desse episódio na lista das Constituições mais Antigas ainda em Vigor), a Borgonha era vista como um “ancestral” do país, numa visão nacionalista da história. Essa situação se inverteria no Século XX, com historiadores belgas declarando ironicamente que foi o fim do Estado Borgonhês a razão pela qual a Bélgica existiria mais tarde como nação.

 

8-Império Srivijaya.

 



 

 

               Seguindo rumo ao Sudeste Asiático, encontraremos agora uma Talassocracia (poder marítimo) que definiria a história de países como a Indonésia, a Malásia e muitos outros. O chamado Império Srivijaya, também chamado Serivijaya, foi a primeira grande nação do Arquipélago Malaio a se beneficiar do Estreito de Malaca, vital para o comércio entre a China e as Índias, além de servir com um importante centro budista.

               Poucas evidências físicas restaram de Srivijaya, restando apenas os testemunhos de viajantes chineses e relatos orais em Sumatra, a maior e mais ocidental das ilhas que compõem a atual Indonésia. Sabe-se que o núcleo inicial desse império surgiu no Século VII, perto da moderna cidade de Palembang, no sul de Sumatra. A acanhada cidade-estado tem como fundador o rei Jayanasa, que também começou a expansão do país.

               Em seu auge, Srivijaya dominou toda a Sumatra, além da Península Malaia ao norte, o oeste de Bornéu e metade da ilha de Java, sob a enérgica Dinastia Sailendra. O império era forte o bastante para ameaçar vizinhos, como o Império Khmer e os Champas do Vietnã, mas seu grande inimigo foi o Reino de Medang, que ocupava o leste de Java. Srivijaya e Medang guerrearam entre si até 1016, quando o reino do leste colapsou sob o poderio do rival mais rico e poderoso.

 



 

               A vitória sobre Medang foi a última glória de Srivijaya, porque um adversário mais forte veio do leste, no sul da Índia: Em 1025, o rei Rajendra do Império Chola invadiu Srivijaya, com o objetivo de proteger o Império Khmer, aliado dos indianos. O aguerrido monarca lançou o que provavelmente foi a maior expedição naval do sudeste asiático durante a era medieval, e arrebentou com uma nação que já sofria com a constante pirataria e o enfraquecimento de sua marinha, ocupada em inúmeras frentes.

               O sucessor de Srivijaya foi Melayu, um dos primeiros reinos a declarar independência diante da fraqueza de seus suseranos. Praticamente todos os grandes impérios do Arquipélago Malaio adotaram o sistema de Srivijaya, focando no comércio em áreas estratégicas e uma poderosa força naval. Alguns destes estados sucessores foram Singhasari, Majapahit e os Sultanatos de Malaca e Brunei.

 

9 e 10-Províncias Unidas da Nova Granada e Estado Livre de Cundinamarca.

 



 

 

               Para finalizar esta lista eu escolhi duas nações que existiram ao mesmo tempo e que acabaram numa destruição mútua, abrindo um precedente sombrio na América Latina. Os dois países surgiram como facções rivais na atual Colômbia, então nomeada como Vice-Reinado de Nova Granada, e seu breve período de existência entre 1810 e 1815 é conhecido como a “Pátria Boba” na história desta nação.

               Para compreender melhor o ocorrido é necessário puxar da memória as aulas sobre a Independência da América Espanhola, e o surgimento das primeiras Juntas, ou governos autônomos nos territórios de Ultramar. Em resposta à captura do rei espanhol Fernando VII, os latino-americanos estabeleceram seus próprios governos regionais, e não demorou a surgirem rivalidades entre eles.

               Na Nova Granada foi proclamada uma Junta que resultou nas Províncias Unidas, de cunho federalista, sob a liderança de José Miguel Pey, considerado historicamente o primeiro presidente da Colômbia. Apesar de a independência entrar nos planos da maioria dos líderes, havia uma grande divergência sobre a forma que o novo estado deveria ter; em resposta ao projeto federalista, e também por temer a perda da hegemonia de Bogotá, Antonio Nariño proclamou a independência de Cundinamarca.

 



 

               Entre 1811 e 1813 ocorreu uma guerra entre os federalistas, chamados de “Carracos”, e os centralistas, apelidados de “Patiadores”. A vitória do primeiro grupo foi breve, pois os espanhóis reconquistaram Nova Granada, e não sairiam até 1819, quando os colombianos se reorganizaram sob a liderança de Francisco de Santander, contando com o importante apoio dos venezuelanos de Simon Bolívar.

               O legado da “Pátria Boba” serviu como advertência aos líderes independentistas da América Latina, e também abriu um precedente funesto na história da Colômbia, com suas frequentes guerras civis e insurreições. Há quem afirme que os Federalistas e Centralistas foram em sua época o que mais tarde se tornariam os partidos Conservador e Liberal, que também mancharam de sangue a jornada conturbada deste país.

 

Texto escrito por Mateus Ernani Heinzmann Bülow.

 

Mateus é Bacharel em Direito, escritor e colunista do blog “Recanto da Escritora”.

 

Confira os textos do Mateus que foram citados na postagem do blog:

 

 

10 Constituições antigas que continuam em vigor


https://poetisataty.blogspot.com/2019/06/10-constituicoes-antigas-que-continuam.html

 

 

10 Heróis de Independência pouco conhecidos – parte 2

 

https://poetisataty.blogspot.com/2021/09/10-herois-de-independencia-pouco.html

 


Confira os livros publicados pelo escritor (disponíveis na Amazon):

 

 

Taquarê – Entre a Selva e o Mar




 

 

Taquarê – Entre um Império e um Reino




 


 

 

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

10 Heróis de Independência pouco conhecidos - Parte 1

 Olá, pessoal! Tendo em vista que a data de hoje comemora a Independência do Brasil, o escritor colaborador Mateus Bülow (colunista de textos com curiosidades históricas) separou curiosidades da História Mundial e fez uma lista com 10 Heróis de Independência pouco conhecidos. Venha conhecer esses heróis conosco ao mergulhar no texto de hoje! Boa leitura! 


10 Heróis de Independência pouco conhecidos.


      



Qual a sua primeira lembrança, quando chega a Semana da Pátria? Os desfiles de Sete de Setembro? Os trabalhos escolares nas cores verde, amarela, azul e branca? Pedro I berrando às margens do Ipiranga? Até os menos patriotas se lembram desses dias, onde quase todos os brasileiros deixam de lado as críticas severas ao país, e puxam do baú da memória os hinos do Brasil e da Independência.

Além da Independência do Brasil, outros processos históricos similares são tratados na escola, como a Revolução Americana e a Independência da América Espanhola, às vezes falando da Independência do Haiti nesse meio tempo. Alguns nomes se sobressaem na miríade dos heróis da liberdade, como George Washington, Simon Bolívar e José de San Martin, enquanto outros são arremessados ao esquecimento.

É impossível conhecer todos os heróis da história do mundo, porém nada impede uma visita ligeira ao passado, em busca de valentes que defenderam seu chão contra invasores e dominadores estrangeiros. Alguns ajudaram a fundar reinos e países novos, enquanto outros lutaram em nome de pátrias já existentes; a posteridade não foi gentil com todos eles, pois muitos foram presos ou executados, e outros não obtiveram sucesso em suas empreitadas, ou não conseguiram passar seu legado adiante.

A presente lista traz dez figuras históricas que se destacaram por unirem pessoas em torno de um objetivo maior: A liberdade de seus respectivos povos. Muitos deles tomaram atitudes controversas, dignas de julgamentos mais duros, porém é inegável a coragem desses homens, muitas vezes obrigados a lutarem contra inimigos mais numerosos e fortes, e com poucos recursos à disposição. Sem mais delongas, em frente!


1-Arminius.




Evento envolvido: Batalha da Floresta de Teutoburgo (IX DC).


Nosso primeiro integrante da lista foi um guerreiro germânico, responsável por definir a fronteira norte do Império Romano, após derrotar três legiões em uma emboscada. Arminius era filho de Segimero, chefe da tribo dos Queruscos; ele foi mandado a Roma durante sua juventude, como refém, e durante esse tempo aprendeu latim e artes da guerra, envolvendo-se com a política romana. Arminius logo percebeu que nunca seria visto pelos romanos como um conterrâneo, o que pode ter contribuído para sua traição a Roma.

Aos vinte e cinco anos, Arminius liderava um destacamento de guerreiros germânicos fiéis a Roma, sob as ordens diretas do general Publius Quintinus Varus. Nessa mesma época, ele fez contatos com diversas tribos germânicas, enquanto preparava sua revolta contra os romanos; foi uma tarefa difícil, pois as rivalidades tribais falavam alto, e apenas cinco tribos se juntaram aos Queruscos.

O ponto alto da campanha de Arminius contra seus antigos mestres ocorreu na Floresta de Teutoburgo, onde os Queruscos emboscaram três legiões romanas, com auxílio de seus aliados. O terreno pantanoso e fechado impedia a formação defensiva com a qual os romanos estavam acostumados, e Publius suicidou-se ante a derrota. A perda de três legiões foi um trauma nacional para os romanos, e o imperador Augustus determinou que nenhuma legião usaria novamente os números XVII, XVIII e XIX.

Arminius venceu os romanos e garantiu a independência das tribos germânicas, porém não teve tempo de aproveitar o triunfo: Líderes germânicos temerosos do poder adquirido por Arminius tramaram seu assassinato, e com sua morte também morreu a frágil união entre as tribos. Os romanos voltariam para a região alguns anos após a morte de seu grande inimigo germânico, porém desistiram de avançar além do Rio Reno, visto por eles como a fronteira entre a civilização e a barbárie.





No século XIX, diversos autores e historiadores alemães resgataram a figura de Arminius, retratando-o como um símbolo de liberdade e união entre os germânicos. Essa exaltação nacionalista atingiria seu ápice com a unificação alemã sob o comando de Otto Von Bismarck e Wilhelm I, mas entraria em declínio após a Segunda Guerra Mundial. Apesar disso, a estátua de Arminius, localizada próxima à Floresta de Teutoburgo, é um dos monumentos mais visitados na Alemanha, até hoje.


2-Yaqub ibn al-Layth al Saffar.


   


Evento envolvido: Fundação do Império Safárida (867-879).


O segundo personagem da lista foi um ferreiro que libertou a Pérsia de seus suseranos árabes. Yaqub ibn al-Layth al-Saffar nasceu em 840, perto da fronteira atual entre o Irã e o Afeganistão, e pouco se sabe de sua vida pregressa, exceto de sua profissão. Segundo relatos da época, Yaqub “não sorria muito” e nutria especial ódio aos árabes, um sentimento compartilhado por muitos persas desde a conquista islâmica, séculos antes; curiosamente, esse desgosto não impediu Yaqub de se casar com uma mulher de origem árabe.

Na primeira metade do Século IX, a Pérsia se encontrava sob o domínio da Dinastia Taírida, um “estado cliente” do Califado Abássida, o mais forte dos países islâmicos do Oriente Médio. Yaqub e seus irmãos se tornaram milicianos nessa época, dividindo suas profissões regulares com a patrulha da cidade de Sistan. Mais guerreiros se juntariam à guilda, e em 861, Yaqub derrubou o governador de Sistan.

A declaração de guerra contra os Abássidas foi enviada por Yaqub em 867, na forma de uma poesia tradicional persa. O líder rebelde afirmou que vingaria os imperadores Sassânidas derrubados pelos árabes e também salvaria a fé islâmica, que segundo ele foi deturpada pelos califas. Apesar da retórica explosiva, Yaqub demorou a lutar contra os Abássidas, preferindo concentrar esforços nos líderes semi-independentes do Afeganistão.




Apenas em 873 Yaqub e seus seguidores derrubariam o governante Taírida Muhhamad ibn Tahir, o que iniciaria o conflito contra os Abássidas. Ciente de que os fiéis não queriam enfrentar o maior líder espiritual islâmico, Yaqub reforçou a propaganda de guerra, afirmando que sua luta era contra os “bárbaros do deserto” que oprimiam o povo persa. O discurso funcionou entre as classes mais pobres das cidades persas, e alguns poetas comparavam Yaqub com o lendário herói Janshid, outro ferreiro que virou rei.

As batalhas no oeste do Irã e na Mesopotâmia foram difíceis, e após uma derrota em 876, Yaqub decidiu manter o que já possuía em mãos, abandonando o plano de derrubar o Califado Abássida, de uma vez por todas. O Império Safárida se estenderia do atual Irã até o oeste do Paquistão, e Yaqub morreu em 879, sendo sucedido pelo seu irmão, Amir. Outras dinastias turcas e persas sucederiam os Safáridas, mas os árabes nunca mais dominaram o Irã após a passagem meteórica de Yaqub ibn al-Layth al Saffar.


3-Kikuchi Takefusa.





Evento envolvido: Invasões Mongóis ao Japão (1274 e 1281).


Nosso próximo integrante foi um samurai a serviço do Imperador Go-Uda, e que ajudou a repelir duas invasões à sua pátria. Nascido em 1245, Takefusa virou chefe do Clã Kikuchi após o falecimento de seu irmão mais velho, e nesse meio tempo seu irmão Aritaka foi adotado pelo Clã Akahoshi, para firmar uma aliança entre as famílias.

A primeira invasão do Império Mongol ao Japão foi um evento decisivo ao pequeno país: Diversos clãs rivais uniram forças contra o que provavelmente era o maior exército da história, até então. Os mongóis construíram uma frota de 150 navios, levando soldados de diversos cantos do império, além de carregarem armas desconhecidas dos japoneses, como bombas e canhões.

As primeiras batalhas ocorreram nas ilhas de Tsushima, Hirado, Taka e Nokono, com resultados favoráveis aos invasores. A primeira vitória dos defensores ocorreu na baía de Hakata, na ilha de Kyushu, uma das maiores ilhas do Japão. Kikuchi Takefusa se sobressaiu nessa batalha, ao decapitar inúmeros inimigos e acertar uma flechada na testa de um general mongol.





A invasão terminou com o recuo da tropa mongol aos seus navios, seguida de um tufão que destruiu boa parte da armada; os japoneses chamaram o fenômeno de Kamikaze (“Vento Divino”), acreditando se tratar de uma ajuda dos deuses xintoístas. Durante a década seguinte, os japoneses reconstruíram cidades destruídas pelos mongóis, enquanto se preparavam para a inevitável revanche.

A segunda invasão ocorreu em 1281, e a nova frota mongol era ainda maior que a anterior, contando com inúmeros barcos de tripulação chinesa. Os mongóis não conseguiram desembarcar na baía de Hakata e sofreram derrotas em Tsushima, a mesma ilha onde obtiveram a primeira vitória na invasão anterior. Durante a noite, Takefusa liderou ataques noturnos aos navios de guerra mongóis e chineses, aproveitando-se da escuridão e do cansaço dos inimigos após as invasões mal sucedidas.

Outro tufão foi o responsável pela destruição da frota mongol, finalizando a ameaça de uma vez por todas e invertendo o domínio do mar aos japoneses, que agora atacavam cidades portuárias do Império Mongol. Kikuchi Takefusa morreu de uma doença desconhecida, quatro anos após a segunda invasão, e a liderança do clã passou ao seu neto, Kikuchi Tokitaka.


4-Dmitri Donskoy.




Eventos envolvidos: Guerra Lituano-Moscovita (1368-1372) e Batalha de Kulikovo (1380).


Indo agora às estepes russas, encontraremos outro povo que se libertou do domínio mongol sob a liderança de um líder visionário. Dmitri era filho do Knyaz (“príncipe”, ou “duque”) Ivan II de Moscou, considerado um governante pacífico demais por seus súditos. Com nove anos, Dmitri perdeu o pai, e a regência ficou ao encargo de um metropolita (como os ortodoxos chamam seus bispos) chamado Aleksei.

Desde o século XII, diversas cidades-estados eslavas foram submetidas pelos mongóis, e estas eram obrigadas a pagar tributos em peles, cavalos, madeira, âmbar, mel. O poder dominante na região era a Horda Dourada, liderada pelos tártaros e já independente do Império Mongol; apesar da supremacia dos nômades, as cidades-estados enriqueceram com o comércio constante, transformando-se em principados e ducados.

O primeiro desafio de Dmitri veio do oeste: Os lituanos queriam mais territórios e entraram em conflito com os moscovitas, sofrendo três derrotas decisivas. Um incidente ocorrido durante a luta contra os lituanos serviu de alerta a Dmitri, quando os tártaros tentaram submeter Moscou ao ducado de Nizhny Novgorod, outro poder relevante nas estepes russas. Os moscovitas se utilizaram de intimidação militar e uma gorda propina para “convencer” o príncipe de Nizhny Novgorod a recusar a proposta.




Em 1374, os principados partiram da defesa para o confronto aberto com os tártaros, aproveitando-se de uma guerra sucessória na Horda Dourada. O exército eslavo era formado por guerreiros vindos de diversos lugares, com notável maioria dos moscovitas na composição, além de mercenários e renegados lituanos. Mesmo com essa diversidade, era inegável que o exército tártaro superava os eslavos em número.

Sabe-se que a batalha de Kulikovo ocorreu às margens do grande rio Don, mas até hoje o local é desconhecido, assim como a margem correspondente do rio. Um dos participantes mais famosos dessa luta foi o monge-cavaleiro Aleksander Peresvet, que desafiou o campeão tártaro Temir-Murza; ambos mataram um ao outro no duelo. Dmitri sobreviveu por pouco à luta, porém desmaiou de cansaço, acordando horas depois.

Apesar da vitória, Kulikovo não seria o ponto final na luta dos russos contra os tártaros, e Dmitri teve de enfrentar outra invasão, em 1382. Apesar do Grão-Ducado de Moscou ainda se encontrar submisso à Horda Dourada, Dmitri foi reconhecido como um grande herói, adotando o honorífico Donskoy em referência ao rio Don; os sucessores de Dmitri continuaram a luta contra os tártaros, formando o embrião do que seria a Rússia.


5-Taksin, o Grande.





Eventos envolvidos: Guerras Birmano-Siamesas de 1765-1767 e 1775-1776.


Se você passou pela lista dos Dez Militares que sacrificaram suas Vidas em Conflitos, do mesmo autor, deve se lembrar de que em 1765 tropas da Birmânia (atual Myanmar) atacaram o Sião (atual Tailândia), sendo obrigadas a recuar logo em seguida, devido a uma invasão chinesa ao norte. Resta terminar essa história, envolvendo um rei que lutou pela liberdade do Sião, antes de enlouquecer e ser derrubado pelo próprio amigo, que assumiu o trono em seu lugar.

O homem que passou à história como Taksin nasceu em 1734, em Ayutthaya, então capital do Sião; seu pai era um coletor de impostos nascido na China, enquanto sua mãe era de um ramo menor da nobreza local. Com sete anos, o menino foi enviado a um templo budista, recebendo o nome de Sin (“Fortuna”, em tailandês), e mais tarde decidiu seguir a carreira das armas, virando um governador militar na vila de Tak. A partir daí ele seria conhecido pelo nome histórico.

Em 1765, os birmaneses impuseram um cerco a Ayutthaya, e Taksin foi um dos poucos governadores militares a responderem ao pedido de ajuda do rei, enquanto a maior parte deles preferiu se entrincheirar em seus distritos ou desertar de suas funções. Taksin se portou com bravura diante dos birmaneses, mas percebeu que nada poderia fazer diante do imenso exército adversário; o governador militar abandonou a cidade na calada da noite com 500 soldados e seguiu até o sul.

Embora profundamente abalado com a queda da capital, Taksin reorganizou a tropa e retornou a Ayutthaya dois anos depois, aproveitando-se do recuo dos birmaneses e matando o governador “testa de ferro” deixado pelos invasores. Não foi exatamente um triunfo, pois a capital foi destruída ao ponto do inabitável, obrigando os siameses a estabelecerem o governo em outra região. O lugar escolhido foi a vila de Thomburi, próxima ao mar e mais fácil de ser defendida com poucos soldados.

Taksin foi declarado rei em 1767, porém ainda tinha um reino a ser reunido após a devastação birmanesa. Durante três anos o monarca se ocupou com os rivais mais fortes, responsáveis por dividirem o Sião em cinco entidades separadas, enquanto buscava apoio político e armamento no exterior, com destaque para a China, a Inglaterra, Portugal e Holanda. Mesmo nesse turbilhão, Taksin arranjava tempo para escrever peças de teatro.





Em 1775, os rivais de longa data voltaram à fronteira, apenas para serem rechaçados pelo novo exército siamês, mais disciplinado e numeroso em comparação com a guerra de 1765-1767. As tropas birmanesas recuaram em 1776 (coincidentemente o mesmo ano em que os americanos declararam independência em relação à Inglaterra), e os siameses asseguraram o controle sobre as províncias do noroeste. Um ano depois, Taksin já se ocupava com disputas fronteiriças no Camboja e no Laos.

Taksin poderia ser lembrado como o maior monarca de seu país, porém “algo errado” aconteceu. Em 1781, o rei siamês passou a dedicar tempo excessivo às atividades religiosas e declarou-se uma reencarnação de Buda, adotando diversas políticas contraditórias. Bastou apenas um ano para que Taksin fosse deposto e executado sob as ordens do general Chao Phraya Chakri, fundador da atual dinastia da Tailândia; a capital foi transferida de Thomburi para a cidade de Bangcoc.

Não existe consenso entre os historiadores a respeito da doença que acometeu o rei do Sião, ou mesmo se esta insanidade causou tantos danos quanto a história oficial tailandesa sugere. Algumas lendas afirmam que Taksin não foi executado, e sim enviado a um templo nas montanhas, onde passou o resto de sua vida estudando textos sagrados. A saga desse líder contraditório foi um capítulo de rodapé na história da Tailândia durante um bom tempo, até a Revolução Constitucional de 1932, que acabou com o poder absoluto dos monarcas.


6-Theodoros Kolokotronis.





Evento envolvido: Independência da Grécia (1821-1830).


Um personagem comum no imaginário mundial é o fora-da-lei convertido em campeão da liberdade, geralmente forçado a agir pelas circunstâncias e lentamente convertido ao ideal maior. Durante a Guerra de Independência da Grécia contra o Império Otomano, muitos bandidos das montanhas se tornariam campeões da liberdade, e o mais conhecido deles foi Theodoros Kolokotronis, apelidado como “O Homem Velho de Moreia”.

Os foras-da-lei das montanhas gregas eram conhecidos como Klephtes, e apesar da má fama nem todos viviam desonestamente: Alguns eram apenas pastores enquanto outros ofereciam serviços como seguranças às famílias mais abastadas, ou então auxiliavam as autoridades otomanas a procurarem foragidos (algo parecido com os jagunços no Brasil). A família Kolokotronis já era famosa antes mesmo do início da rebelião, pois o pai de Theodoros, chamado Konstantinus, participou de uma revolta mal sucedida em 1770.

Theodoros servia a família Deliyannis, uma das mais poderosas da região, e trabalhava em parceria com Mitros Petrovas, outro líder dos Klephtes. Foi com Petrovas que Theodoros se aproximou dos ideais de liberdade e Iluminismo, ainda fortes na Europa apesar da repressão dos países vencedores das Guerras Napoleônicas. Ironicamente, os britânicos serviriam de aliados a Kolokotronis: Após ser forçado a fugir para a ilha de Zante, então em mãos inglesas, o líder Klepht seria instruído nas artes da guerra.

Em 1821, Theodoros retornou à Grécia continental e forjou uma aliança com outros grupos de Klephtes insatisfeitos com o domínio otomano. Na época ele tinha cinquenta anos, o que contribuiu para o apelido de “Homem Velho de Moreia”, mas sua energia e vivacidade eram dignas de um rapaz jovem. Um monge ortodoxo afirmou que Theodoros se envolvia tanto com o comando de suas tropas que recebia a comunhão montado a cavalo, do lado de fora da igreja.




Apesar de menos numerosos em comparação com o poderoso exército turco, os Klephtes contornavam esse problema com o conhecimento do terreno montanhoso, além de fazerem emboscadas constantes. O maior triunfo de Theodoros durante a luta pela liberdade da Grécia foi a Batalha de Dervenakia, onde os turcos foram atraídos para uma ravina, antes de serem destroçados pelos gregos.

As lutas de Theodoros não envolveram apenas os turcos, pois os gregos tiveram duas guerras civis no meio da rebelião, em 1824 e 1825. Na segunda delas Theodoros perdeu um filho, pouco tempo após o casamento deste com Eleni, filha de Laskarina Boubolina (falamos dela na lista das Mulheres na Guerra, do mesmo autor). Como se não bastasse essa tragédia, o “Homem Velho de Moreia” foi preso no mesmo ano, sendo liberado em seguida.

Após o fim da Guerra, Theodoros apoiou o conde Ioannis Kapodistrias, o fundador da Primeira República Grega. O assassinato de Kapodistrias levou o país à beira de outra guerra civil, e Theodoros apoiou o estabelecimento de uma monarquia. O escolhido para se tornar o primeiro rei da Grécia foi o príncipe alemão Otto, na época ainda um menino, e o governo foi dominado por uma regência de estrangeiros, quase todos vindos da Bavária. Theodoros se opôs ao que considerava um novo domínio estrangeiro, e foi preso em 1834, sendo liberado um ano depois.

Após esse incidente, o Homem Velho de Moreia deixou a política de lado e se dedicou a aprender a ler e escrever, a fim de relatar as suas memórias. Theodoros Kolokotronis morreu em 1843, um dia após o casamento de seu filho mais novo, e tanto o matrimônio como o funeral do velho guerreiro ocorreram com a presença do rei Otto, agradecido pelo apoio durante os turbulentos anos de conflito.


7-José Rafael Carrera y Turcios.




Eventos envolvidos: Fragmentação da República da América Central; surgimento da República da Guatemala (1839-1847); Guerra contra os Filibusteiros (1856-1857).


A América Central é uma “terra incógnita” no estudo de história no Brasil, e raramente se fala sobre o processo de independência na região. É possível falar em três independências ocorrendo quase simultaneamente, primeiro contra a Espanha, depois contra o México, e finalmente entre os estados membros da frágil união. Um dos personagens mais importantes durante os anos turbulentos foi um caudilho guatemalteco, outrora um criador de porcos analfabeto que recebeu o apelido de “Rei dos Índios e dos Padres”, ainda em vida.

José Rafael Carrera y Turcios nasceu em 1814. Com vinte e três anos, Carrera era um líder informal entre os agricultores das redondezas da Cidade da Guatemala, até que em 1837 ele se juntou às rebeliões campesinas e indígenas contra o governo liberal e anticlerical da República da América Central, presidida por Francisco Morazán. Havia uma razão pessoal para Carrera participar do movimento, pois Morazán ordenou a execução de seu sogro ao reprimir uma rebelião anterior.

Diversas guerrilhas centro-americanas se revoltaram na primeira metade do século XIX, mas nenhuma delas ofereceu desafio ao governo unionista como o exército de indígenas e monges-guerreiros de Rafael Carrera. Quase todas as cidades guatemaltecas se mantiveram fiéis a Morazán, mas o mesmo não podia ser dito das florestas e montanhas do país, onde os guerrilheiros conservadores se escondiam. Em 1840, Carrera e seu exército improvisado derrotaram os soldados sob o comando de Morazán, quando estes adentraram a Cidade da Guatemala, após acreditarem em um falso recuo de seus adversários.

Rafael Carrera tornou-se presidente da Guatemala em 1844, dois anos após a morte de Morazán, porém apenas declarou independência em 1847, equilibrando o conservadorismo católico com generosas concessões aos indígenas e aos liberais moderados. Nesse período, Carrera manteve distância dos conflitos nos países vizinhos, enquanto firmava acordos com a Santa Sé, a Bélgica e o Reino Unido. Em troca de acordos comerciais favoráveis, a Guatemala cedeu o atual Belize aos ingleses, e uma colônia belga foi fundada ao leste do país.





Em 1851, um exército de salvadorenhos e hondurenhos atacou a Guatemala, dispostos a apearem os conservadores do poder. A força invasora era duas vezes maior que o exército guatemalteco, porém foi derrotada na Batalha de Arada; nenhum governante liberal ousou atacar a Guatemala após a vitória improvável do “Rei dos Índios e dos Padres”. Carrera também se envolveu na Guerra contra os Filibusteiros (falamos dela nas listas das Mulheres na Guerra e dos Heróis que sacrificaram suas Vidas em Conflitos) e ocupou-se de realizar obras de infraestrutura, incluindo um teatro de Ópera.

Após a morte de Carrera em 1865, quem assumiu a presidência da Guatemala foi um general chamado Vicente Cerna. Em 1871 ocorreu a Revolução Liberal, liderada por Justo Rufino Barrios e Miguel García Granados, que derrubou o governo conservador. Os governos liberais reverteram boa parte das medidas pacificadoras de Carrera e privaram os indígenas de suas terras; diversos conflitos no interior da Guatemala eclodiriam após a mudança nas leis das terras indígenas.

Devido à forte rivalidade entre liberais e conservadores, é difícil avaliar o governo de Carrera, e quase toda a culpa pela fragmentação da República da América Central recai sobre o “Rei dos Índios e dos Padres”. Esse julgamento é injusto, afinal Carrera não interviu em outras nações após a fundação da Guatemala; os liberais também não demonstraram prudência no reformismo dos anos iniciais da república unida, enquanto reprimiam indígenas e perseguiam líderes religiosos, além de se apropriarem de seus bens.


8-Matías Ramón Mella.





Eventos envolvidos: Independência da República Dominicana (1844-1856) e Guerra da Restauração (1863-1865).


Deixamos para trás a América Central e seguimos ao Caribe, rumo à ilha de Hispaniola, dividida entre Haiti e República Dominicana. Enquanto a Revolução Haitiana é estudada nas escolas brasileiras, quase nada a é dito a respeito do país vizinho, que teve três declarações oficiais de independência em 1821, 1844 e 1865. Um herói envolvido nesses processos foi Matías Ramón Mella, considerado um dos três Pais da Pátria Dominicana, ao lado de Juan Pablo Duarte e Francisco Del Rosário Sanchez.

Matías era apenas um menino quando a parte oriental da ilha de Hispaniola declarou sua independência, sob o nome de Estado do Haiti Espanhol, apenas para ser anexada ao país vizinho em 1822 (ironicamente, o ano da independência do Brasil). A ocupação haitiana promovida pelo general Jean Pierre Boyer se destacou pela desapropriação de terras e pela repressão aos costumes herdados da Espanha; até mesmo brigas de galos e jogos de azar foram proibidos pela ditadura de Boyer.

Nesse regime de terror surgiu uma organização maçônica chamada “La Trinitária”, fundada por Juan Pablo Duarte. O nome dessa organização fazia referência à Santíssima Trindade e ao método de recrutamento, onde cada membro novo deveria recrutar ao menos três pessoas interessadas. Matías se juntou à Trinitária após ser convidado por Francisco Sanchez, destacando-se ao espalhar as notícias da rebelião em diversas cidades do interior, enquanto mantinha-se incógnito.




O primeiro tiro da guerra de independência contra o Haiti foi disparado por Matías em 1844, ao dar o sinal para os revoltosos dominarem o Forte Ozama, em Santo Domingo. As batalhas entre dominicanos e haitianos foram violentas, e os maiores inimigos da Trinitária foram os generais Charles Riviere-Herard e Faustin Soulouque. Faustin se autoproclamou imperador do Haiti durante a guerra, e seria deposto após uma derrota humilhante contra os dominicanos na Batalha de Sabana Larga, em 1856.

Após a independência, Matías apoiou um proprietário de terras chamado Pedro Santana, que se tornaria o primeiro presidente da República Dominicana. O campeão da luta pela independência respeitava Santana, devido à valentia deste na Batalha de 19 de Março de 1844. Entretanto, esta admiração se converteria em hostilidade, após Matías descobrir que Santana almejava transformar o país em um protetorado da Espanha, sob o argumento de manter a ordem e prevenir outra invasão haitiana.

Em 1862, Santana renunciou ao cargo de governador-geral do protetorado, desiludido, e no ano seguinte começou a luta dos dominicanos contra os espanhóis. Juan Pablo Duarte foi exilado e nunca mais retornaria ao país, enquanto Francisco Sanchez foi capturado e fuzilado; dessa forma, Matías era o único veterano da luta contra o Haiti a se envolver na Guerra de Restauração. Os principais líderes dominicanos nessa guerra foram Santiago Rodriguez Masagó e Gregório Luperón; este último foi presidente provisório do governo interino, enquanto Matías serviu como vice-presidente.

Tanto Matías como Santana morreram no mesmo ano, em 1864, de enfermidades distintas; disenteria no caso de Matías e derrame no caso de Santana. No ano seguinte, as autoridades espanholas saíram da República Dominicana, após perderem inúmeros soldados para os guerrilheiros e a febre amarela. Considera-se que a Guerra de Restauração Dominicana motivou os independentistas de Cuba, outra colônia espanhola que obteria sua liberdade na alvorada do século XX.

Hoje, os restos de Juan Pablo Duarte, Francisco Del Rosário Sanchez, Matías Ramón Mella e de outros heróis da República Dominicana repousam no Altar da Pátria, em Santo Domingo, e Pedro Santana se encontra ao lado deles. De certa forma, a presença desse controvertido personagem ao lado de outros vultos históricos representa o desejo dos dominicanos de viverem em paz com seu passado.


9-Menelik II da Etiópia.





Evento envolvido: Primeira Guerra Ítalo-Etíope (1894-1896).


Agora iremos ao coração da África, onde encontraremos um grande líder nascido na Etiópia. Menelik era um dos inúmeros príncipes na linha sucessória do trono etíope, e teve de lutar pelo comando da única nação independente no leste do continente. Nada indicava que o jovem Menelik seria o responsável por triplicar o tamanho da Etiópia, além de surpreender as potências coloniais europeias.

Os três reis antecessores a Menelik deram suas próprias contribuições, centralizando a administração do país e repelindo agressões de vizinhos islâmicos, uma ameaça constante na milenar história da Etiópia. Durante esse período turbulento, Menelik pouco se envolveu com as guerras nas fronteiras, preferindo atuar como observador na repressão às revoltas internas; esse conhecimento se provaria valioso no futuro, pois ele necessitaria da ajuda desses bandos rebeldes para manter o poder.

Enquanto lutava para garantir o trono, Menelik formava alianças com grupos islâmicos minoritários que também se ressentiam dos tradicionais inimigos da Etiópia, além de manter contato frequente com italianos e franceses em busca de armas. Um conde italiano descreveu o Imperador como um “apaixonado” por armas de fogo, além de ligeiro no adestramento com fuzis, pistolas e revólveres.

Em 1889, Menelik se tornou Imperador com o apoio da maioria da nobreza. Apesar dos esforços de monarcas enérgicos na centralização do estado etíope, havia muito a ser feito: Disputas regionais ocorriam com frequência, e boa parte dos guerreiros era fiel aos líderes locais, e não ao Imperador. Menelik II desmontou os governadores rebeldes enquanto abria a Etiópia ao mundo, atento ao colonialismo europeu que engolia a África.

Uma das principais mudanças ocorridas nesse período foi o estabelecimento de uma capital permanente para a Etiópia, em Adis-Abeba. Até então, considerava-se que a capital do país era onde estivesse o Imperador, mesmo se o local não passasse de uma tenda ou cabana. O local foi escolhido pela imperatriz Taytu Betul em 1889, e a expansão de Adis-Abeba foi impressionante: Em 1910, a capital etíope contava com 70.000 habitantes, e sete anos depois foi construída uma estrada de ferro conectando-a à colônia francesa do Djibuti.

Escaramuças com as forças coloniais italianas na Eritréia motivaram Menelik II a firmar um tratado com o país europeu, que passaria à história como o Tratado de Wuchale, chamado Ucciale pelos italianos. Esse talvez seja o tratado internacional mais insólito da história, pois a versão em amárico (uma língua da Etiópia utilizada em documentos oficiais) reconhecia a amizade entre as nações, enquanto a versão em italiano do mesmo tratado efetivamente transformava o país africano em um protetorado da Itália.





A guerra se tornou inevitável, e Menelik II foi ligeiro ao defender a Etiópia contra os italianos, enquanto conclamava seu povo a lutar com o que tivesse à mão. Ao lado do exército regular etíope, o Imperador contava com os Mehal Sefari, guerreiros de elite criados no início de seu reinado, e rebeldes eritreus também pegaram em armas contra os italianos. A maior batalha dessa guerra ocorreu em Adwa, onde o exército colonial italiano simplesmente deixou de existir; essa vitória é celebrada até hoje na Etiópia.

A vitória etíope teria resultados interessantes ao longo prazo: Os países europeus foram obrigados a reconhecerem a existência da Etiópia como um poder regional, a única nação africana livre no continente, ao lado da Libéria. Os teóricos da superioridade racial caucasiana, por sua vez, viram um desafio legítimo às suas crenças, e a ascensão etíope seria o primeiro passo na fundação do pan-africanismo e no combate ao racismo.

Os últimos anos de Menelik II no trono foram dedicados à modernização da Etiópia, embora quase todas as novidades estivessem restritas a Adis-Abeba. Eletricidade, novas técnicas de agricultura, ferrovias, telégrafos, correios e até mesmo um banco central surgiram no país, até então uma “solitária ilha de cristãos em um imenso mar de pagãos”, nas palavras do próprio Imperador.

Em 1913, o velho monarca faleceu e foi sucedido por um parente distante, chamado Iyasu. Um dos sucessores de Menelik II foi Haile Selassie, conhecido como “Rastafári” no ocidente. Assim como o vencedor de Adwa, Selassie buscou modernizar a Etiópia, criando a primeira constituição do país em 1931, e teve de enfrentar uma invasão italiana em 1935; os etíopes mais uma vez derrotaram os italianos, com ajuda dos britânicos.


10-Emílio Aguinaldo.




Eventos envolvidos: Revolução Filipina (1896-1898) e Guerra Filipino-Estadunidense (1902-1913).


E terminamos essa lista com um herói guerreiro nascido nas Filipinas, quando esta ainda era colônia da Espanha. Emílio Aguinaldo seria presidente da primeira república constitucional fundada na Ásia, além de seu mais jovem chefe de estado, com apenas vinte e nove anos. A vida de Emílio Aguinaldo foi um verdadeiro caleidoscópio, assim como a história de seu curioso país.

Emílio Aguinaldo nasceu em 1869, na cidade de Kawit, sendo o sétimo de oito filhos; assim como Taksin, havia sangue chinês por parte de pai na família de Emílio, uma das mais prósperas da região. Os Aguinaldos viviam da fazenda e do comércio, e tanto Emílio como seu pai foram chefes da câmara de vereadores de Kawit. O rapaz se juntou à maçonaria em 1895, o mesmo ano na qual virou chefe da câmara, e a partir daí ele se envolveria com diversos partidários da independência.

Um amigo da família convenceria Emílio a se juntar ao Katipunan, um movimento patriótico criado por Andrés Bonifácio. Os ânimos estavam exaltados em 1896, após a prisão e execução do poeta José Rizal, quando este publicou diversos artigos atacando as autoridades espanholas no arquipélago. Andrés afirmava que a hora de lutar havia chegado, enquanto Emílio defendia cautela, argumentando que os Katipuneros precisavam aumentar seus efetivos para terem alguma chance contra os espanhóis.

A descoberta do Katipunan pelas autoridades coloniais já em 1896 obrigou os patriotas filipinos a contra-atacarem com pressa. A primeira batalha de Emílio ocorreu em sua cidade natal, e o líder revolucionário deu ordens para seus homens não executarem os prisioneiros espanhóis, prevendo que o governo colonial devolveria todas as agressões dos rebeldes com a mesma força.



O Katipunan se saiu bem na maioria das batalhas, mas a rivalidade entre Andrés e Emílio aumentava a cada vitória ou derrota. Em 1897 ocorreu uma convenção de Katipuneros na cidade de Tejeros, a primeira eleição presidencial da história asiática. Andrés tentou ser nomeado vice-presidente quando soube que perderia a disputa, apenas para ouvir Daniel Tirona, membro fundador do Katipunan, afirmar que um advogado seria melhor opção para o cargo. Andrés sentiu-se insultado e por pouco não disparou o revólver contra Daniel.

O presidente escolhido para a república em gestação foi Emílio, e Andrés ordenou a recontagem de votos, obtendo o mesmo resultado. Ironicamente, Emílio sequer sabia da Convenção de Tejeros, pois estava na frente de batalha em Pasong Santol, e foi avisado do ocorrido um dia depois, por seu irmão. Sentindo-se traído por Andrés, Emílio concordou em assumir a presidência e enviou um telegrama ao rival, em nome da união dos Katipuneros, mas foi rechaçado. Emílio ordenou a prisão e execução de Andrés e seus seguidores, uma ação até hoje controversa entre os historiadores filipinos.

A guerra contra os espanhóis terminaria em 1898, após o pacto de Biak-na-Bato, mas outro desafio apareceria diante da Primeira República das Filipinas: Os americanos, até então vistos como aliados, na verdade queriam anexar o arquipélago, e muitos companheiros de Emílio concordavam que um novo governo colonial talvez fosse preferível à instabilidade interna do Katipunan. Apesar de exaustos, os patriotas filipinos resistiram como puderam ao exército americano, até a captura de Emílio em 1901; no ano seguinte, quase todos os líderes rebeldes depuseram armas, embora rebeliões ocorressem até 1913.

Durante o período colonial americano nas Filipinas (1901-1935), Emílio se afastou da política, enquanto representava entidades de auxílio aos veteranos das lutas nas quais se envolveu; vez ou outra ele demonstrava apoio a algum representante político mais exaltado, conclamando pela independência total. Em 1935, os Estados Unidos afrouxaram o domínio sobre o protetorado; nessa época, Emílio disputou as eleições para presidente da Comunidade das Filipinas, mas perdeu as eleições para Manuel Quezon.

Após a ocupação japonesa das ilhas, Emílio foi preso sob uma acusação infundada de colaboracionismo com os invasores. Em 1946, os americanos concederam a independência às Filipinas e Emílio foi chamado pelo presidente Elpídio Quirino para fazer parte do recém-estabelecido conselho de estado; ele não ficou muito tempo na posição, voltando a lidar com os assuntos dos veteranos de guerra.

Em 1962, o dia da independência das Filipinas foi alterado de quatro de Julho para 12 de Junho, em homenagem à Revolução liderada por Emílio Aguinaldo e Andrés Bonifácio. O último herói vivo da independência filipina participou dos eventos, a despeito de sua saúde frágil. Dois anos mais tarde, Emílio faleceu de trombose coronária, com noventa e quatro anos, sendo o mais longevo herói dessa lista; sua última ação foi doar a casa onde vivia, a fim de transformá-la em um museu da Revolução Filipina.


*Confira outro texto sobre o tema:


10 Heróis de Independência pouco conhecidos - Parte 2



Texto escrito por Mateus Ernani Heinzmann Bulow. 

   


Mateus Bulow é gaúcho da cidade de Santa Maria/RS, Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Santa Maria (FADISMA), escritor e poeta. 

Ele é autor de dois livros de fantasia publicados:

*Taquarê -- Entre a Selva e o Mar




*Livro dele no Skoob:


https://www.skoob.com.br/taquare-entre-a-selva-e-o-mar-844417ed849687.html


*Divulgação do Livro no Blogue:

http://tatycasarino.blogspot.com/2017/06/taquare-entre-selva-e-o-mar_68.html


*Divulgação do Livro no Canal do YouTube de Taty Casarino:



https://www.youtube.com/watch?v=XFpiUL97u3I



*Leia o início do livro gratuitamente e compre o livro para ler a história completa no Link abaixo:


https://pensecomigo.com.br/livro-taquare-entre-a-selva-e-o-mar-pdf-mateus-ernani-heinzmann-bulow/

*Compre o Livro no site Amazon: 


https://www.amazon.com/dp/B071K2WZV6?ref_=cm_sw_r_kb_dp_DbZ3ybGJMJ3GP&tag=pc161256-20&linkCode=kpe



*Taquarê -- Entre um Império e um Reino




*Divulgação do Livro no Blogue:


http://tatycasarino.blogspot.com/2019/04/divulgacao-de-livro-taquare-entre-um.html


*Sobre o Livro dele no Jornal Diário de Santa Maria:


https://diariosm.com.br/cultura/taquar%C3%AA-entre-um-imp%C3%A9rio-e-um-reino-1.2138628

                *Mateus falando sobre o seu livro no Lançamento que ocorreu na Feira do Livro de Santa Maria/RS (Canal do Youtube do Diário de Santa Maria):


           



   https://www.youtube.com/watch?time_continue=4&v=nvyq1UuDi-Q&feature=emb_logo



*Compre o livro no Site Amazon:

https://www.amazon.com/TAQUAR%C3%8A-Entre-Imp%C3%A9rio-Reino-Portuguese/dp/179548831X

*Confira todas as postagens do colunista Mateus no blogue:

http://tatycasarino.blogspot.com/search/label/Mateus%20Ernani%20Heinzmann%20Bulow


*Mateus Bülow também é colaborador do Podcast "Literatura em Ação" no YouTube (dentro do Canal da Taty Casarino) e no Spotify (dentro do Podcast "Literatura em Ação") com dicas de escrita para jovens escritores.

*Literatura em Ação no Spotify:

https://open.spotify.com/show/3Nqc44j01TlisrngKyVIMB?si=lxyX4g8fQvqURncRjip4lw

*Os três pilares da literatura fantástica no YouTube:


   



https://www.youtube.com/watch?v=cmGyobeSKBA