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sábado, 14 de julho de 2018

Conto de Humor -- O Primeiro Encontro de Catarina -- Parte II


Confiram a segunda parte do Conto de Catarina "O Primeiro Encontro de Catarina": 




Catarina desceu do carro em direção à mesa que estava Luís. Ele estava com fones de ouvido e balançava a perna direita de modo ansioso. Assim que viu Catarina, ele tirou os fones dos ouvidos e abriu um largo sorriso.
─Fiquei com medo de que não viesse. De que me desse um bolo.
─O único bolo que posso te dar é o de chocolate. ─Respondeu Catarina antes dos dois caírem em risadas.
─Tudo bem, Catarina?
─Tudo joia, Luís. ─Disse Catarina enquanto o rapaz se levantá-la para abraçá-la e dar dois beijinhos de cumprimento nas bochechas.
─Pode ficar tranquilo que eu não costumo dar bolo em ninguém. Quando eu marco alguma coisa, eu venho. Eventualmente, posso negar ou me atrasar, mas jamais deixei de comparecer em algo combinado. Desculpe pelo atraso.
─Está certo, Catarina. Aproveitei esses minutinhos para ouvir a minha playlist favorita.
─Posso saber o que o moço estava ouvindo?
─Escuta só. ─Disse o rapaz enquanto colocava os seus fones nos ouvidos dela.
─Uau! I disappear do Metallica. Eu amo esta música. Você não vai acreditar se eu te disser...
─Diga. Acredito em você.
─Eu estava ouvindo exatamente essa música enquanto me arrumava para te encontrar.
─Hum, então todo esse charme é para mim?
─Seu bobo, eu sempre gostei de me arrumar e colocar vestidos assim. ─Disse Catarina antes de soltar uma risada.
─Eu já vou ao balcão fazer o pedido. Você quer comer alguma coisa ou só tomar um refresco?
─Por enquanto, vou ficar só na Sprite mesmo. Mais tarde eu como alguma coisa. E você, o que vai querer?
─Tomarei um café.
─Vou ao balcão junto com você.
─Não, Catarina. Pode ficar sentada aí. Sua Sprite é por minha conta. Faço questão.
─Obrigada. ─Disse Catarina com um sorriso bobo nos lábios. Ela não estava acostumada a receber uma gentileza assim. Geralmente, era ela quem pagava o lanche e as bebidas de suas amigas. “Que fofo! Que bonitinho! Ele vai pagar a Sprite para mim. Não é pelo dinheiro, mas pelo gesto de cavalheirismo. Adoro gestos assim. O tempo não passou para o meu romantismo.” ─Pensou Catarina enquanto um sorriso abria os seus lábios involuntariamente.
Depois de ir ao balcão, Luís Rodolfo chegou à mesa carregando uma bandeja de plástico cinza com uma xícara de café, uma lata de Sprite, um copo de vidro, canudinhos e guardanapos.
─Gata, você aceita um conselho?
─Adoraria receber o conselho de um filósofo.
─Para de beber refrigerante.
─Por quê?─Indagou Catarina com um sorriso nos lábios enquanto tomava a Sprite dentro do copo de vidro com canudinho colorido.
─Refri contém muito açúcar e substâncias químicas que fazem mal ao organismo.
─Ah, mas eu não bebo todo dia. Minha alimentação é saudável. Me alimento todo dia de comida caseira da vovó com sucos naturais. Não vejo mal num lanche com refrigerante em alguns fins de semana. Só se vive uma vez, né?
─Você é muito argumentativa. Só foi um conselho. Sabia que sair com uma futura advogada ia dar nisso. Deixa a sua argumentação para defender os seus futuros clientes, gata. ─Disse Luís com um sorriso irônico, deixando a Catarina sem graça. “Que cara chato, implicando com o meu refri.” ─Pensou Catarina.
─Então, mudando um pouco de assunto, você é um rapaz bem religioso, não é mesmo?
─Deus é tudo na minha vida. Podemos filosofar a respeito da bíblia ou do bem e o mal.
─Sobre qual assunto você quer falar?
─Sobre as tentações do mal. Você acha que o Diabo existe?
─Sim. Existe o contraponto. É inevitável o inimigo. ─Respondeu Catarina rapidamente. “Nossa, eu sempre reclamei das futilidades das baladas e da falta de profundidade de alguns caras, mas este cara começou com um papo profundo demais para uma sexta-feira.” ─Pensou Catarina enquanto fazia uma careta. Ela não conseguia esconder suas emoções e o seu desconforto diante do papo.
─O que foi? Algum problema? Você fez uma careta.
─Ah! Eu fiz uma careta?─Indagou Catarina constrangida por deixar transparecer no rosto as emoções de dentro. ─É a repugnância pelo Diabo. ─Disse Catarina, considerando-se esperta pela resposta.   
─Eu vejo o bem e o mal como as ondas de um mar, gata. Depois de uma onda boa, sempre vem uma onda ruim. E, assim, o equilíbrio acontece na vida da gente.
─Profunda a sua colocação. ─Disse Catarina enquanto pensava em que papo poderia puxar para mudar de assunto. Naquele momento, no entanto, apenas conseguia pensar na voz de Lulu Santos cantando “Como uma onda no mar.”
─Eu sou franciscano e ambientalista.
─É mesmo? Que legal! Sempre admirei os franciscanos. Sou devota de São Francisco de Assim também. A oração de São Francisco é linda. Quanto ao meio ambiente, sou o tipo de pessoa que ama o Direito Ambiental.
─Não parece. ─Disse Luís antes de soltar uma risadinha. ─Com este salto alto e esta maquiagem, você não é o tipo de pessoa que eu diria ser franciscana ou ambientalista.
─Não entendi. Preciso arrastar sandálias franciscanas para ser devota, por acaso? Não pode sair julgando as pessoas pelas aparências. Isto não tem nada a ver com a filosofia cristã, seu filósofo roqueiro.
─Acalme-se, gata. Não precisa ficar nervosa.
─Não precisa me chamar de gata, pois eu não te dei esta liberdade. Meu nome é Catarina, por favor. Não sou nada sua. Não sou sua namorada. Sou apenas uma moça que você encontrou na igreja.
─Ok. Desculpe-me. Você está com as bochechas vermelhas de raiva e parece alterada emocionalmente. Quer que eu compre uma água?
─Não. A Sprite basta. ─Respondeu Catarina antes de respirar fundo e tomar o refrigerante pelo canudinho.
─É que nós franciscanos pregamos a humildade. Não gostamos de nos vestir com muito luxo ou chamar a atenção. E, como ambientalista, não poderia deixar de observar que os produtos químicos usados na maquiagem fazem mal ao meio ambiente. Além disso, muitos itens da cosmética são testados em animais.
─Está me chamando de metida então? Eu não combino com o universo franciscano por faltar humildade em mim, né? Só por gostar de me vestir assim ou de me maquiar, não é mesmo? A gente se arruma toda bonita para um encontro e ainda tem que ouvir isso... Putz grila, cara...
─Gata... Quer dizer, Catarina, espero que não me entenda mal...
─Eu já entendi tudo, Luís, eu já entendi tudo. Eu não sou conveniente à sua filosofia, não é mesmo? E para de me chamar de gata. No começo, era um elogio. Mas agora, você está me irritando. Quer que eu te chame de algum animal também? Tipo jacaré?
─Gata quer dizer mulher bonita.
─Eu sei o que significam as gírias. Mas vamos deixá-las de lado.
─Falou a pessoa que ainda usa a expressão “putz grila”. ─Disse Luís antes de soltar uma risada irônica.
─Não gostei de sua ironia. ─Respondeu Catarina. “Não gosto de ironia, esta característica me afasta de qualquer paquera.” ─Pensou Catarina.
─A gente não pode brincar com você, Catarina? Se continuar séria desse jeito, vai afastar todo mundo que queira se aproximar de ti. Eu vi um baita muro ao redor de ti, mas não me intimidei com ele não. Essa sua pose de orgulhosa e dona da verdade afasta os caras, viu?
─Está admitindo que me acha orgulhosa! Falou o franciscano agora! Eu gosto de bom humor e de homens que me façam rir. Mas não gosto de humor sarcástico. Existe uma grande diferença entre bom humor e humor sarcástico. Entendeu?
─A linha entre humor e sarcasmo em mim é tênue como um fio de cabelo. ─Disse Luís enquanto acariciava os cabelos de Catarina.
─Que mão boa é essa?─Indagou Catarina com a voz em tom bravo enquanto a mão de Luís escorregava pelos seus cabelos compridos e parecia ir em direção aos seios.
─Ai!─Exclamou Luís após receber um tapa na mão de Catarina.
─Mais respeito. Mais respeito, seu doido!
─Desculpe-me. Foi involuntário.
─Então, trata de controlar teu fogo aí. Só os homens fracos dizem que o fogo é involuntário.
─Está me chamando de fraco?
─Estou só pedindo respeito. ─Disse Catarina antes de abrir a bolsa e pegar um lenço cor-de-rosa. Ela colocou o lenço em volta do pescoço para cobrir o leve decote e esconder os seios.
─Você é muito engraçada. ─Disse Luís enquanto dava risada de Catarina. ─Quer valorizar este busto maravilhoso e depois quer esconder.
─Eu mostro e escondo o que eu quiser na hora que eu bem entender.
─Falou como uma feminista agora.
─Não sou exatamente o tipo feminista. Aliás, não sou do tipo que pessoa que levanta bandeiras ou ideologias.
─Falou a pessoa que me disse que também queria mudar o mundo com as ideias lá na missa da quarta-feira.
─Isto é só uma ambição. Mas uma ambição é sempre como uma estrela-guia, que serve para ser uma espécie de norteador, mas não para ser especificamente realizada. No meio do caminho, realizo missões pequenas. Quero apenas tocar as pessoas positivamente com o dom da palavra. Aliás, você fala tanto de humildade, mas porta um sonho bem grandioso de mudar o mundo. Qual é a sua, cara? Assistiu muito ao desenho animado Pink e o Cérebro na infância?
─Você está bem bravinha hoje. Nem parece aquela moça meiga que eu conheci na missa. Fala do meu sarcasmo, mas porta um humor igualmente ácido, hein?
─Gostou do meu lado fofo e agora se decepcionou com o meu lado bravo? Fique sabendo que sou doçura e acidez, meiguice e braveza. Se quiser gostar de mim, vai me aceitar assim.
─Você é difícil, hein, Catarina? Que gênio forte! Não imaginava que fosse assim. Uma fera dentro da bela. Assistiu muito ao desenho animado A Bela e a Fera?
─É, você adivinhou meu filme predileto.
─E você também adivinhou que eu gostava de Pink e Cérebro, Catarina.
─Estamos empatados então.
─É.
─Você parece irritada comigo.
─Desculpe-me. É o meu primeiro encontro e eu fiquei nervosa. Eu fiquei irritada quando disse que meu perfil parecia não se encaixar com o universo franciscano e ambientalista.
─Por quê?
─Porque eu acho que não precisamos abrir mão da vida material, das roupas bonitas e do nosso orgulho para sermos espirituais.
─São Francisco abriu mão das riquezas.
─É diferente, Luís. Ele era um santo. Santos são como estrelas-guias. Eles dão um suporte norteador, mas ninguém consegue ser como eles. Aliás, existe muito mais orgulho em querer ser santo do que em admitir o próprio orgulho, o próprio pecado e a própria humanidade em si. Somos humanos muito pequenos ainda, Luís. O orgulho espiritual de querer ser santo é muito mais perigoso do que o nosso pequeno orgulho mundano de botar um salto alto e usar um batom.
─Você filosofa bem, Catarina.
─É claro que não podemos ser gananciosos e mergulhar no materialismo supérfluo a ponto de esquecermos nossa essência espiritual. Mas podemos ter um equilíbrio entre vida material e vida espiritual. Há muito mais santidade em tolerar os desafios mundanos, os conflitos e as intempéries do dia a dia do que em fugir para um mosteiro no topo da montanha. É fácil ser santo meditando o dia inteiro sem ninguém para lhe perturbar. O difícil é estar aqui na vida, suportando o trânsito, as ruas esburacadas, as injustiças e mantendo-se honesto num país corrupto.
─Nunca tinha enxergado a evolução espiritual por este ângulo. Talvez haja mais evolução em aprender a tolerância nesse mundo difícil do que em querer mudar o mundo ou viver somente do espiritual.
─Você já leu a carta de João Paulo II aos jovens? A carta sobre a santidade na juventude? Ele dá novos conceitos à santidade. Talvez nós tenhamos que, urgentemente, levar a palavra de Deus no contexto da vida cotidiana. O mundo não muda com ideias somente, mas com atitudes. Já pensou se houvesse pessoas espirituais e caridosas disfarçadas de advogadas, médicas, policiais ou filósofas por aí?
─Eu gostava muito deste papa, mas não li esta carta.
─Então, pesquise na internet sobre ela e leia essa carta quando você chegar em sua casa após o nosso lanche.
─Hum, falando em lanche, acho que já podemos pedir alguma coisa para comer, que tal?
─Eu também acho. Mas, desta vez, eu quero pagar o meu lanche, por favor. Sou uma mulher moderna.
─Putz grila, eu trouxe pouco dinheiro. Queria pagar o seu lanche também, mas não vai dar.
─Tudo bem. Você já foi gentil em pagar o meu refri. Pelo visto, o mocinho fala putz grila também.
─É melhor falar essas expressões leves do que usar os palavrões que eu solto quando estou com meus amigos. Você é uma mocinha delicada.
─Nem tão delicada. Eu dou tapas em mãos bobas.
─Eu já percebi. Acho melhor te respeitar mesmo.
─Ainda quero visitar a paróquia de São Francisco de Assis. É muito longe daqui?
─A cinco quadras de distância. É um pouco longe. Ultimamente, estou indo à paróquia de Nossa Senhora das Dores.
─Sou muito devota de Nossa Senhora. Amo a paróquia onde a gente se viu pela primeira vez.
─Você tem cara de quem tem imagens da Virgem pela casa. Acertei?
─Como você adivinhou?
─Ah, sou meio vidente às vezes. ─Respondeu Luís antes de soltar uma risada larga e gostosa.



Catarina e Luís Rodolfo se levantaram e foram até o balcão. Ela quase tropeçou no primeiro degrau perto do balcão, já que estava de salto alto. Eles ficaram olhando o cardápio por alguns minutos.
─Eu gostaria de um hambúrguer, mas sem salada. Pode falar para o cozinheiro tirar a alface e o tomate do meu lanche, por favor?
─Sim, senhorita. ─Respondeu o atendente.
─Então, o meu pedido é um hambúrguer só com pão, carne e queijo cheddar. Ah, e me vê mais uma Sprite, por gentileza. Obrigada!─Exclamou Catarina sorridente enquanto Luís arregalava os olhos e parecia assustado diante do pedido da moça.
─Minha nossa!─Exclamou Luís antes de soltar uma risada.
─Algum problema, Luís?
─Você pede para tirar a salada do hambúrguer?
─Sim, eu não gosto de salada.
─Mas que paladar mais infantil, moça! Salada faz bem, sabia?
─O que é agora? Tá querendo dar palpite até no meu paladar? Não sou obrigada a gostar de salada.
─Bem, eu vou pedir uma salada de frutas com um suco de laranja sem açúcar. ─Disse Luís em tom mais formal enquanto se dirigia ao atendente do balcão.
─Aceita adoçante?
─Sem adoçante. O suco puro é mais saudável. O suco de vocês é natural ou industrializado?
─É natural.
─Ufa! Só gosto assim. Estou seguindo um estilo de vida vegano e fitness. Você gosta de exercícios, Catarina? Pratica alguma atividade física?
─O meu único exercício é estudar ultimamente. Para falar a verdade, nunca gostei de atividade física. Minha única atividade física é ir a pé da minha casa até a paróquia com minha vó.
─Então, como tem esse corpo bonito aí? Pura sorte?
─Deus que desenhou.
─Ah! Tá certo. Eu gosto de aprimorar o desenho que Deus fez para mim e dar uma contornada nos meus músculos.
─Percebi. ─Disse Catarina enquanto erguia uma sobrancelha e respirava fundo com uma pontada de irritação. No momento, ela se lembrou do dia que viu Luís caminhando no corredor da igreja com os braços musculosos valorizados pelos passos largos.
Quando eles se sentaram para comer, Catarina se sentiu a “gorda” do encontro. Não por ser gorda (ela tinha um corpo esbelto, aliás), mas por estar comendo um hambúrguer gorduroso diante de um rapaz que se alimentava de salada de frutas. Enquanto colocava a colher prateada em uma taça transparente com a salada de frutas, Luís observava Catarina com curiosidade. Catarina pensou que ele deveria estar zombando da alimentação dela mentalmente, mas ele estava admirando a moça em verdade.
─Você está linda.
─Obrigada. ─Disse Catarina antes de abrir um sorriso.
Nesse momento, ela percebeu que havia um pedaço de queijo cheddar grudado no seu aparelho ortodôntico. Luís se aproximava dela com os olhos fechados e um sorriso bobo nos lábios, indicando que queria beijá-la. “Não, ele não pode me beijar agora. Não depois de eu ter comido hambúrguer e estar com bafo de carne. Ai! Meu Deus! Tem um queijo cheddar grudado no meu dente. Ele não pode me beijar enquanto um queijo cheddar está grudado no meu dente. Meu primeiro beijo não pode ser assim.” ─Pensou Catarina com o coração acelerado.
─Ah, preciso pegar mais guardanapos e ketchup!─Exclamou Catarina enquanto empurrava os ombros de Luís para trás, afastando o rosto do rapaz do rosto dela.
Quando Catarina se levantou para ir até o balcão pegar mais guardanapos e ketchup, a mãe e a avó dela atravessaram a rua, com sacolas nas mãos, da loja de roupas que ficava frente à lanchonete. Dona Mila e avó Teresa resolverem se esconder atrás de uma das pilastras da lanchonete para espiar Luís e Catarina.
─Então, Catarina, tá gostando do nosso encontro?─Indagou Luís quando Catarina se sentou novamente.
─Estou gostando sim.
─Fico feliz que esteja gostando. ─Disse Luís enquanto passava a mão nos cabelos de Catarina. ─Prometo que é só no cabelo. Gosto de seu cabelo.
─Tudo bem. Percebi. Toda hora você inventa um pretexto para tocar em mim e colocar as mãos em meus cabelos.
─Isto é bem típico, né?
─Típico do quê?
─Típico de paixão. Um homem apaixonado quer estar perto da moça sempre e arranja um jeitinho para tocar as mãos e os cabelos dela de algum modo.
─Só espero que não arranje qualquer jeitinho para tocar em outros lugares, senão levará uns tabefes. ─Disse Catarina antes de soltar uma risada.
─Estou sentindo algo bem especial por ti. Este encontro reforçou o encantamento que tive logo que te vi pela primeira vez na missa. Você também tá sentindo algo especial?─Indagou Luís entusiasmado enquanto Catarina abaixava a cabeça com expressão triste. Ela detestava ter de desagradar alguém ou fazer alguém sofrer por amor. Mas ela deveria ser sincera.
─Nã. Nã. ─Gaguejou Catarina em tom de voz baixinho enquanto sentia a garganta fechando.
─O que disse?
─Não. ─Catarina soltou a palavra “não” com alguma dificuldade. ─Não senti algo especial, Luís. Me desculpe. ─Disse Catarina erguendo a cabeça timidamente.
─Não precisa me pedir desculpas. Isto não é o tipo de coisa pela qual se pede desculpas. ─Disse Luís com o tom de voz irritado e frustrado. Catarina sentiu-se angustiada por ter frustrado o rapaz de algum modo.
Ela detestava dizer “não”, mas essa era a palavra que mais salvava as pessoas de enrascadas. Afinal de contas, não se pode dizer “sim” para tudo sob o risco de virar “capacho” ou levar uma vida densa e tensa. Ela tinha a personalidade forte demais para sacrificar as suas vontades, mas ela também era diplomática o suficiente a ponto de temer desagradar as pessoas. Além do mais, ela havia chegado numa idade onde era flertada. E flertes não combinam com diplomacia. O sentimento acontece ou não. Simples assim.
Ela era uma moça que chamava a atenção dos rapazes e, sendo assim, não poderia dizer “sim” para qualquer flerte só para não desagradar. Só tinha facilidade de dizer “não” para as drogas e para os convites de baladas, mas era preciso usar mais aquela palavrinha mágica (“não”) tão temida. E não é viável ser fofa e agradável o tempo todo.
─Eu me apaixonei por você à primeira vista, Catarina. Mas, pelo visto, não rolou o mesmo com você.
─Desculpe-me, Luís. Eu não acredito em amor à primeira vista. Confesso que me senti atraída pelo seu jeito quando te vi na missa, mas não senti as borboletas no estômago e nem ouvi os sinos de amor na cabeça hoje.
 ─Para de me pedir desculpas. Por favor, você não precisa me pedir desculpas por não me querer, ok? Isto faz com que eu me sinta um coitado. E que história é essa de borboletas no estômago e sinos na cabeça?─Indagou Luís franzindo as sobrancelhas antes de soltar uma risada irônica.
─É o que eu espero sentir de alguém especial um dia. Para mim, o amor é uma casa construída tijolinho por tijolinho com o diálogo e a convivência. Não acredito em paixões à primeira vista. Você nem me conhece em profundidade.
─A sua noção de amor é muito retrógrada e sem graça. Onde fica o fogo em tudo isso?
─Toda casa tem a sua lareira, Luís. Gosto de fogo seguro e não de fogo de palha.
─Eu não vou ficar pegando no seu pé não. Não me quer, não me quer. Pronto. Acabou. Duvido você achar alguém que vai querer construir essa sua casa aí tijolinho por tijolinho. Não existe homem paciente.
─Luís, você está me ofendendo.
─Só estou te dizendo a realidade, entendeu, Catarina? Desse jeito, você vai arranjar um teimoso psicopata que vai chegar todo dia com um “tijolo” em formato de sinal para você.
─Teimoso não. Psicopata não. Perseverante sim. Quem me quiser, vai lutar por mim. Eu achei você muito impaciente.
─Não tenho paciência mesmo, Catarina. Eu sou um furacão!
─E eu sou a mistura da brisa mais leve da primavera com a tempestade. Você não tem paciência com a minha doce primavera nem como a minha ácida tempestade, pelo visto.
─Espere aí, Catarina. Eu acho que vi sua avó atrás daquela pilastra. ─Disse Luís enquanto apontava para uma pilastra vermelha.
─Vovó? Mamãe? Vocês estão aí?─Indagou Catarina enquanto Mila e Teresa saíam atrás da pilastra e caminhavam em direção à mesa de Catarina. “Ai! Que mico!”─Pensou Catarina.
─Muito prazer, Luís, eu sou a Mila. Sou a mãe de Catarina.
─O prazer é meu em conhecê-la, Dona Mila.
A avó e a mãe de Catarina se sentaram nas cadeiras da mesa de Catarina e Luís. Luís foi bem educado com elas e puxou assuntos religiosos para conversar. O encontro de Catarina tinha terminado ali. A partir daquele momento, a mãe e a avó dela dominaram o papo com o rapaz. Luís até cantou algumas músicas católicas com a avó de Catarina enquanto algumas pessoas da lanchonete olhavam para a mesa deles, deixando Catarina tímida.
A mãe de Catarina ofereceu carona ao rapaz, mas ele preferiu pegar o ônibus para voltar para a casa dele. Quando Catarina foi para a casa dela, ela colocou um pijama e se deitou.
─Simpático o rapaz. Sentiu algo por ele?
─Não deu o “clique”, mãe. Não deu o “clique”. ─Disse Catarina com o tom de voz melancólico. A expressão “clique” significava que não havia surgido qualquer “clique” dentro dela, estalo ou sentimento especial.
─Um dia, quando você menos espera o clique dá. E o clique dá com quem você menos espera também. ─Disse a mãe carinhosamente antes de dar um beijo na testa da filha.


─Assim espero, mamãe. Assim espero. É duro ser romântica e não ter alguém para amar.
─O romantismo é um estado de espírito, filha. Você não precisa namorar para sentir esse estado. Você já é doce por natureza.
─Obrigada, mãe. Boa noite. Um dia eu terei alguém para amar.
─É claro que terá.
─Te amo.
─Também te amo, filha. ─Disse a mãe enquanto saía do quarto da filha. Catarina apagou a luz do quarto, deixando apenas o abajur aceso.

Fim.


Conto escrito por Tatyana Casarino

 Confira a primeira parte do Conto:


Confira a Carta de João Paulo II aos jovens (citada na postagem):












Conto de Humor -- O Primeiro Encontro de Catarina -- Parte I

Olá, pessoal! Hoje trago mais um Conto de Humor da personagem Catarina, a Mística. Espero que gostem! ;)


O primeiro encontro de Catarina




Catarina e sua avó Teresa resolveram ir à missa da Paróquia de Nossa Senhora das Dores naquela quarta-feira. A igreja ficava a duas quadras de distância da casa delas. Catarina, embora espírita e mística, tinha raízes cristãs em sua fé religiosa, amava o catolicismo e possuía profundo respeito e devoção por Nossa Senhora. Essa devoção estava estampada em seu lar e em seu quarto especialmente, onde habitavam imagens da Virgem perto de flores de lótus de cristal (os amigos de Catarina sentiam-se dentro de uma loja esotérica na casa dela).
A avó Teresa, muito católica e tagarela, gostava de cantar músicas religiosas no trajeto até a igreja, contrastando com a moça introspectiva e quieta ao lado dela.
─Segura na mão de Deus, segura na mão de Deus e vai... ─Cantava a avó Teresa.
─Nós deveríamos ter vindo de carro, vovó. A mamãe ofereceu carona e nós recusamos indevidamente. Ah, se eu pudesse voltar atrás, teria pedido para ir de carro à igreja.
─É bom ir para a igreja a pé, Catarina. Isto torna o domingo mais missionário.
─Não vejo como ir a pé pode tornar o trajeto mais missionário. ─Disse Catarina enquanto respirava fundo.
─Não reclama, Catarina, não reclama. Não é você que vive dizendo que gosta de jornadas de fé? Não é o sonho de sua vida pegar uma mochila, colocá-la nas costas e fazer uma peregrinação em lugares místicos na Europa? Faça de conta que você está peregrinando. Não valoriza os lugares santos do Brasil?
─Não é nada disso, vovó. Eu amo e valorizo o meu país acima de tudo. É claro que eu amo as igrejas e os lugares místicos do Brasil também. Mas, as ruas esburacadas e íngremes do Brasil em nada se assemelham aos caminhos de peregrinação. Olha só a subida que nos aguarda. ─Disse Catarina enquanto apontava para a calçada inclinada para cima.
─Me segura, então, minha neta, porque eu já estou velha e tenho medo de escorregar nessa calçada. ─Sibilou a avó Teresa enquanto entrelaçava o seu braço direito no braço esquerdo de Catarina.
Catarina conduziu sua avó até a igreja enquanto ela cantava em voz alta músicas religiosas incessantemente. Quando elas chegaram à igreja, os olhos delas brilhavam. Catarina sentiu aquela paz, alegria e todas as emoções típicas que os ambientes espirituais provocavam nela.
─Catarina, gostaria tanto que você arranjasse um namorado aqui. Um homem virtuoso, católico e temente a Deus seria perfeito para você, minha neta. ─Disse a avó Teresa enquanto tocava o ombro da neta e olhava para os fiéis.
─Ai, não fala de namorado, vovó, por favor. Eu vim aqui para encontrar Deus e não um namorado. Com todo respeito, eu vim aqui para rezar. ─Respondeu Catarina com o seu tom de voz irritado típico que exalava toda vez que alguém indagava ou refletia sobre um namorado para ela.
─Namorar é bom. Na sua idade, eu namorava tanto. Pegava na mão dos rapazes que eu namorava, paquerava na praça, ia sempre ao cinema com um namoradinho, dançava coladinha ao som das orquestras e recebia bilhetes de admiradores secretos. Como uma moça bonita como você não recebe bilhetinhos? Os rapazes estão cegos ou você tem algum problema?
─A internet matou o romantismo de bilhetinhos, vovó. Além do mais, na sua época, vovó, o namoro era inocente. Os tempos mudaram. Os rapazes não cortejam mais as moças, não paqueram mais e é raríssimo encontrar um homem romântico. Hoje em dia as pessoas beijam na boca umas das outras em baladas e dizem que estão “ficando”. Eu não gosto deste tipo de coisa. Não há nada de errado comigo. Sou apenas uma mulher reservada. Essas baladas não são como as festas do seu tempo. São festas em ambientes aglomerados e escuros, com muita bebida alcóolica, funk, sertanejo universitário e música eletrônica. Definitivamente, não é um ambiente para arranjar namorado. Não é o tipo de ambiente que provoca diversão e alegria em mim.
─Então, minha neta, é por isso mesmo que eu sugiro encontrar alguém na igreja. Os cristãos geralmente não gostam dessas “ficadas”, baladas e bebedeiras.
─Ah, vovó, nem tanto ao mar nem tanto à terra. Não sejamos radicais. A igreja também não é o ambiente mais adequado para paquerar ou arranjar um namorado. Posso ser careta para os olhos de muitos, mas não sou careta ao ponto de procurar namorado em igreja.
─Desse jeito, ficará solteira para o resto da vida, Catarina. Você não gosta de baladas, onde as pessoas da sua idade arranjam os flertes, e não quer encontrar um namorado na igreja...
─Eu quero investir nos meus estudos primeiramente. Não quero perder tempo com flertes, pois quero que todo o meu tempo seja direcionado ao sucesso profissional. Eu sou ambiciosa, vovó. No seu tempo, a maior ambição era arranjar um bom marido. Hoje não é mais assim. Eu quero me casar com a minha profissão. Quero ser uma pessoa de sucesso.
─Como você é orgulhosa, Catarina! Vive pensando em sucesso. Mas, presta atenção no que eu vou falar para você, minha neta: o seu sucesso profissional nunca vai aquecer você em uma noite fria. Só o calor de um homem pode fazer isso.
─Pode deixar que eu uso bons cobertores. ─Disse Catarina antes de soltar uma risada irônica.
─Catarina, eu não estou reconhecendo você. Você é uma moça tão romântica e delicada... Como pode recusar tanto o amor?
─Eu não rejeito o amor, vovó. Continuo com o coração romântico e derretido como uma manteiga. O meu jeito duro e difícil é apenas uma resistência aos flertes sem futuro. Como tenho o coração sensível, preservo o meu coração justamente por isso. Não quero desgastar minhas energias com frustrações amorosas. Tenho muitos objetivos profissionais a conquistar e preciso da minha energia vital pronta.



─E você não pretende casar e me dar belos bisnetos?
─É claro que eu pretendo me casar, vovó, e te dar belos bisnetos. Mas não agora. Quero me casar com alguém do meu ambiente profissional. Um homem de sucesso com os mesmos dons profissionais e habilidades intelectuais que eu. Não é nem na balada nem na igreja que quero arranjar alguém, mas no meu ambiente profissional. Sinto que encontrarei alguém especial na minha faculdade, em alguma biblioteca ou no meu futuro ambiente de trabalho.
─Ah, como você é doida, Catarina! Deve ser muito chato trabalhar com o marido várias horas por dia! Vocês não terão assuntos diferentes para conversar quando chegarem em casa após o expediente. Ninguém aguenta um homem vinte e quatro horas por dia. O bom é trabalhar num local completamente diferente do seu marido, Catarina!
─Eu vou gostar de ter projetos profissionais em comum com o meu, marido, vovó. Quero um homem ambicioso e idealista como eu.
─Ele vai se sentir inseguro ao lado de uma mulher bem sucedida. Pode até ter inveja de seu sucesso.
─Só os fracos têm inveja do sucesso de sua companheira, vovó. Os fortes cooperam, dão ânimo para a companheira, incentivam os seus sonhos, crescem e enriquecem ao lado de suas esposas. Quero alguém que evolua junto comigo. Estou disposta a fazer o mesmo e a ajudar na evolução não somente profissional, mas também espiritual e pessoal de meu futuro marido.
─Tudo bem, Catarina. Você é teimosa demais e não aceita conselhos mesmo. Faça de sua vida o que bem entender, mas não reclame da falta de aconchego em noites frias depois.
─Está bem, vovó. ─Disse Catarina enquanto respirava aliviada pelo assunto de namoro ter acabado por ali.
As pessoas começaram a entrar na Igreja em busca de bancos. Catarina e Teresa, que estavam conversando de pé diante das portas abertas da igreja, resolveram entrar lá também. Catarina ajoelhou-se enquanto olhava para a grande cruz do altar, fechou os olhos e fez o sinal da santa cruz. Depois, ela e sua avó se sentaram no segundo banco mais próximo do altar.
A missa começaria dentro de vinte minutos, e Catarina ainda estava surpresa com o fato de ter chegado bem cedo à missa, tendo em vista que costumava chegar atrasada aos lugares que frequentava.
Quando todos os fiéis católicos já estavam sentados em seus respectivos bancos dentro da igreja, um rapaz alto com uma camiseta preta de banda de rock entrou na igreja com óculos escuros. Ele caminhava com elegância, e os músculos de seus braços se sobressaíam quando ele dava passos mais largos. Seus longos cabelos castanhos escuros e lisos pareciam tão macios como os de Catarina.
“Uau, que homem lindo. Jurava que não ia paquerar ninguém dentro da igreja, mas deverei abrir esta belíssima exceção. Amo rock e sempre admirei secretamente os roqueiros, mas pensava que a maioria deles fosse rebelde e ateu. Um roqueiro cristão seria mais perfeito do que um sonho.” ─Pensou Catarina enquanto abria um sorriso largo e involuntário. Suas bochechas rosadas ardiam ao pensar em como aquela possibilidade romântica contrastava com a sua resistência e o seu pudor.
O rapaz sentou-se ao lado dela no segundo banco do lado esquerda da igreja mais próximo do altar. Catarina mantinha o olhar fixo para frente e evitava reparar no rapaz, mantendo uma postura séria e disfarçando o nervosismo de seu coração acelerado.
─Oi. ─Disse o rapaz para Catarina enquanto tirava os óculos. Seus grandes olhos escuros eram encantadores.
─Olá. Tudo bem?
─Tudo ótimo. Melhor agora que estou sentado perto de uma moça tão bonita.
─É mesmo?─Indagou Catarina antes de soltar um riso encabulado e cobrir a boca, um ato involuntário que fazia desde que colocou o aparelho nos dentes.  Ela não sabia como responder àquele elogio.
─Não é todo dia que a gente vem à igreja e encontra uma moça jovem e bonita. Fico feliz em ver pessoas jovens aqui. Estou acostumado a ser o único homem jovem dentre as velhinhas fiéis. Quantos anos você tem?
─Eu tenho dezessete anos. ─Respondeu Catarina antes de soltar uma risada pelo comentário dele a respeito da idade dos fiéis. “Amo rapazes bem humorados e que me fazem rir.” ─Pensou Catarina.
─E eu tenho dezoito anos. O que você faz? Já entrou em alguma faculdade?
─Eu faço Direito. Estou cursando o primeiro semestre do curso de Direito. E você?
─Eu faço filosofia. Estou estudando filosofia, mas pretendo cursar psicologia e teologia futuramente também. Quero compreender a alma humana, sabe? Ajudar as pessoas com o meu trabalho e talvez até mudar o mundo com as minhas ideias. Tenho grandes ambições.
─Nossa! Você pensa grande como eu. ─Disse Catarina antes de soltar um riso encabulado dentre as bochechas vermelhas.
A avó de Catarina ficou com um largo sorriso estampado na face ao ver a neta conversar com um rapaz jovem e bonito na igreja. Ela beliscou o braço da neta antes de dar uma pequena risada irônica. A mesma neta tão teimosa e resistente ao amor parecia radiante diante daquele roqueiro.
─Ai!─Exclamou Catarina quando a avó beliscou a sua pele. ─Não me belisca, vovó, e para com este sorrisinho, por favor. ─Sussurrou Catarina em tom bem baixinho de voz para o roqueiro não ouvir o que dizia para a avó.
O rapaz olhava para Catarina com empolgação, e seus olhos brilhavam todas as vezes que fitava os dela. A autoestima de Catarina subiu ao perceber que ela era bonita e carismática aos olhos daquele roqueiro encantador.
A missa seguiu normalmente e, no momento solene da liturgia eucarística e rito da comunhão, o rapaz fechava os olhos e parecia alcançar uma dimensão divina. Nos momentos em que os fiéis se ajoelhavam, Catarina percebeu que o rapaz era o primeiro a se ajoelhar e o último a se levantar. Catarina sentia-se desconfortável com os joelhos dobrados por muito tempo, por mais que considerasse esse um dos momentos mais belos da missa, mas reparou que o rapaz parecia confortável ajoelhado. Irônica e curiosamente, ela sempre era a primeira a se levantar quando o padre permitia que os fiéis ficassem de pé.
A forma como ele rezava era encantadora. Quem diria que aquele rapaz de camiseta preta com estampa de banda de rock tinha tanta fé? Mais uma prova de que não devemos julgar pelas aparências. “Ele parece ser até mais místico e concentrado na fé do que eu.” ─Pensou Catarina, que sempre era considerada a mais mística em sua turma ou dentre seus amigos.
Catarina segurava um terço azul com a cruz prateada nas mãos enquanto uma bíblia Ave Maria com capa cor-de-rosa dedicada às mulheres estava aberta em seu colo. O rapaz, por sua vez, portava um terço marrom com uma pequena cruz de madeira nas mãos e uma bíblia pequena e simples com a capa marrom e as folhas amareladas e desgastadas. Ela também percebeu que um escapulário simples feito de uma fina corda marrom estava em seu pescoço. O detalhe do escapulário sobre a gola da camiseta preta de rock evidenciava um contraste charmoso da fé cristã na alma de um roqueiro.
“Talvez ele seja franciscano. A simplicidade dele me encanta.” ─Pensou Catarina enquanto reparava discretamente no rapaz. Catarina não percebeu, mas já estava se apaixonando ou no mínimo atraída por ele, já que cada detalhe do rapaz era motivo de encantamento. Quando a missa terminou, o rapaz tocou o ombro esquerdo de Catarina, a qual sentiu um arrepio.



─Eu nem sei qual é o seu nome, moça linda.
─Meu nome é Catarina, e o seu?
─Eu me chamo Luís Rodolfo.
─Foi um prazer conhecê-lo, Luís Rodolfo.
─O prazer foi todo meu, Catarina. ─Disse Luís antes de beijar a mão de Catarina em um gesto de cavalheirismo surpreendente. Catarina, sempre sensível ao romantismo, abriu um largo sorriso enquanto os seus olhos brilhavam tanto que chegavam a faiscar de felicidade.
─Você sempre frequenta a missa da tarde às quartas-feiras? Espero encontrá-lo de novo na próxima semana, Luís.
─Sim, eu costumo vir à igreja toda a semana. Mas queria encontrar você em um lugar diferente, onde a gente possa conversar melhor. Você estará livre nesse fim de semana?
A garganta de Catarina fechou de nervoso, e o encantamento romântico inicial passou. Ela tinha muito medo de namoro e não sabia o que responder. Costumava negar flertes assim. Embora tivesse dificuldades em dizer “não”, essa era a palavra que mais dizia aos rapazes.
─Talvez eu esteja. Ainda não sei. Semana que vem, as provas na faculdade vão começar. Eu gosto de me preparar e revisar algumas matérias no fim de semana.
─Você estuda até nos fins de semana?─Indagou o Luís com uma risadinha no canto da boca. ─Será que não tem uma hora livre sequer no fim de tarde da sexta-feira? Eu duvido disso, moça linda.
─Ah, a gente sempre dá um jeito para arranjar uma hora livre na sexta-feira afinal de contas. ─Respondeu Catarina com um sorriso tímido.  
A moça engoliu em seco, olhou para baixo e ficou em silêncio. Ela destetava ter de tomar decisões assim, como aceitar ou não sair com um rapaz. Ela nunca havia tido um encontro antes.
 “Acho que posso abrir uma exceção para ele.” ─Catarina pensou antes de passar o seu nome completo, com o seu sobrenome correto, que localizava as suas redes sociais e o seu número de celular. Quando algum rapaz perguntava o sobrenome que ela usava nas redes sociais para adicionar Catarina como amiga e conversar com ela no bate-papo dessas redes, ela costumava passar um sobrenome falso para nunca ser encontrada. Ela também nunca havia passado o número do celular para um rapaz com indícios de interesse romântico antes. “Se ele me perturbar ou se mostrar perigoso, eu posso bloqueá-lo.” ─Pensou Catarina que costumava achar qualquer rapaz potencialmente perigoso.
─Onde posso marcar um encontro com você?
─Na lanchonete dessa quadra. ─Respondeu Catarina rapidamente, considerando-se esperta por citar um local público próximo de sua casa. Jamais se encontraria com um desconhecido em um local distante ou isento de pessoas.
─Cinco e meia da tarde é um horário bom para você?
─É um horário ótimo.
─Então, te vejo lá na lanchonete sexta-feira, Catarina. Até logo!
─Até logo, Luís Rodolfo!
Catarina chegou à sua casa angustiada por ter dito “sim” ao rapaz da igreja. “Não seria melhor ter recusado esse encontrado?” ─Ela indagava a si mesma de forma perturbada.
─Está vendo só, vovó Teresa, eu arranjei um encontro com um rapaz da igreja como a senhora queria.
─Não sei se você fez bem em aceitar.
─Como assim? A senhora passa o tempo todo me incentivando a namorar e agora acha que agi errado em aceitar um encontro com o rapaz da igreja?
─Eu incentivo você a namorar, mas ele é um desconhecido ainda, Catarina. Não é por ser da igreja que o caráter dele é necessariamente bom. Não sabemos a índole dele. E se for um roqueiro rebelde e doido? E se ele for um rapaz com más intenções?
─Ah! Eu não estou acreditando nisso, vovó! Primeiro, a senhora me incentiva a namorar e agora quer me proteger desse rapaz!
─Você é muito inocente ainda, Catarina. Faltam a malícia e a vivência em você. Você pode ser uma pessoa “estudada”, cheia de estudos, mas não tem a experiência da vida nem as informações. Você nem se liga em notícias. Não sabe o que acontece por aí no Brasil e no mundo. Você precisa assistir mais à televisão como eu.
─Eu sei sim o que acontece no Brasil e no mundo. Leio nos livros, nas revistas, nos jornais e nas notícias da internet. Não preciso de televisão.
─Você não sabe dos horrores que acontecem com moças bonitas da sua idade. Eu estou sempre ligada nos telejornais e nos programas do Datena e da Sônia Abrão.
─Quais horrores são esses, vovó?
─Esses dias uma moça como você pegou um táxi e nunca mais voltou para a casa. Foi estuprada e morta. É por essas e outras que você não pode sair sozinha, Catarina!
─Ah! Mas eu vou sair sozinha sim. Que perigo a lanchonete da quadra da igreja pode me oferecer? Vovó, eu vou completar dezoito anos em breve. Como posso não ter liberdade na maioridade?
─Este rapaz pode ser perigoso. Pode te fazer entrar no carro dele e te levar para um lugar distante. Se ele te convidar para um lugar “confortável” após a lanchonete, você não aceita. Geralmente, eles levam a moça para um motel. Você não pode sair da lanchonete em hipótese alguma.
─Vovó, desse jeito a senhora até me ofende. Jamais iria para a cama com um rapaz num primeiro encontro. É um passeio inocente em uma lanchonete às cinco e meia da tarde, entendeu?
─No mundo de hoje, não podemos confiar em mais ninguém. Você deveria ter negado o encontro. Moça de família deve tornar a conquista difícil. É bom e os rapazes valorizam bem mais. Além do mais, seria mais conveniente encontrá-lo mais vezes dentro da igreja ao meu lado nas missas da quarta-feira antes de marcar um encontro fora da igreja.
─Moça de família? Minha nossa, que expressão retrógrada! Estamos no século dezenove ou no século vinte e um, vovó?
─Não importa o século, moça difícil sempre será moça de valor.
─Eu sempre fui uma moça difícil, mas agora cansei. Abri uma exceção para esse rapaz e aceitei o encontro. Quero inovar na minha vida sentimental, arriscar mais, seguir o conselho da senhora em ser aberta para o amor. Desse jeito, a senhora me deixa confusa! Ora, foi a senhora que me incentivou a paquerar na igreja!
─Incentivei a paquerar, mas não a marcar um encontro com um roqueiro cabeludo de camiseta preta e cara de doido. Que mania estranha você tem de se sentir atraída por gente doida, Catarina!
─Não vi nada de errado com ele, vovó. Não vamos julgá-lo pela aparência. Parece ser temente a Deus.
─Tem muita gente ruim que parece ser temente a Deus por aí, Catarina!
Catarina não quis discutir com a sua avó e foi para o quarto. Colocou um pijama confortável e pegou os fones de ouvido conectados ao seu celular repleto de músicas que faziam sua alma sonhar acordada. A avó morava junto com Catarina e dormia no quarto ao lado.
 Catarina ouviu quando a avó ligou a televisão para assistir ao telejornal das oito horas da noite. A estudante nem quis saber de assistir à televisão naquela noite. Tudo o que Catarina queria era fugir da realidade um pouco e ir para um lugar mais seguro, belo e fantasista de sua imaginação vívida.



Quando o dia do encontro chegou, o coração de Catarina se acelerava com o passar das horas. Ela olhava para o relógio inúmeras vezes pensando que já estava perto das cinco e meia.
Após tomar um banho demorado, ela decidiu depilar as pernas enquanto ouvia a sua playlist de pop romântico no celular. Desconectou os fones do ouvido do celular de modo que todos poderiam escutar as suas músicas em sua casa.
Sentou-se na sua cama de solteiro com as pernas dobradas e colocou uma folha de cera fria na perna direita. Aumentou o som da música para cantar na hora da depilação a fim de não doer tanto aquele momento. A primeira música de sua playlist era “Like a Virgin” de Madonna.
─Like a virgin, touched for the very first time. ─Cantava Catarina com empolgação, já que era fã de Madonna.
Sua mãe passava pelo corredor quando ouviu a música vinda do quarto da filha. “A tradução do que a minha filha canta faz esse encontro ser muito suspeito. Será que Catarina terá sua primeira vez com este tal de Luís? Não pode ser, tenho que impedir esse encontro de Catarina”. ─Pensou Mila, a mãe de Catarina.
A mãe de Catarina começou a varrer o corredor com o coração apertado de medo. Jamais havia deixado a filha se encontrar com um rapaz antes. “Talvez essa música da Madonna não signifique alguma intenção adicional. Ela sempre gostou de Madonna. Não posso cogitar quaisquer vínculos entre a música e o encontro. Estou ficando doida de preocupação.” ─Pensou a mãe enquanto varria a casa. Enquanto Catarina se depilava, outra música de sua playlist pop romântica começou a tocar: tratava-se de 2 become 1 de Spice Girls.
─Free your mind of doubt and danger. Be for real, don’t be a stranger. We can achieve it, we can achieve it. Come a little bit closer, baby. Get it on. Get it on. ‘Cause tonight is the night when two become one. ─Cantava Catarina enquanto se depilava.
“Minha nossa, essa música das Spice Girls que a Catarina está cantando tem forte conotação sexual. Preciso impedir este encontro.” ─Pensou a mãe enquanto batia na porta da filha.
─Pode entrar!─Exclamou Catarina.
─Catarina, o que a senhoria está pensando?
─Em nada. Estou me depilando, mamãe.
─Que músicas são essas, Catarina?
─Pop romântico internacional dos anos oitenta e noventa, mamãe. Músicas bem melhores do que as brasileiras e as internacionais de hoje em dia.
─Eu perguntei o que essas músicas querem dizer, Catarina! Você faz inglês e deve saber muito bem o significado.
─Eu nem estava ligada à tradução, mamãe. Já cheguei num estágio bom de inglês, onde não preciso ficar fazendo tradução simultânea com o português na cabeça. A senhora sabe inglês também. Por que está me perguntado?
─Porque essas músicas falam do momento em que uma mulher se entrega para um homem, Catarina. Você vai se entregar para esse cara?
─Ai! Meu Deus do céu, quanta implicância! Não posso mais ouvir Madonna e Spice Girls agora?
─Catarina, pelo amor de Deus, você não vai se entregar a um desconhecido, não é?
─Jamais, mamãe. Eu vou só comer um hambúrguer e tomar uma Sprite na lanchonete. Nada além de uma boa conversa acompanhada de um lanche.
─Tudo bem. Eu confio em você. Vou te levar a este encontro. Mas eu não confio nele. Não vou te deixar sozinha na quadra e voltar para a casa. Eu e sua avó ficaremos dando voltas na quadra e visitando as lojas ao redor da lanchonete enquanto você conversa com o Luís.
─Ah! Mamãe, assim não tem graça!
─Vai ser assim ou você vai cancelar este encontro.
─Tudo bem, mãe. Mas, por favor, não apareçam na lanchonete no meio do encontro. Deixa que eu te mando uma mensagem quando terminar a conversa com o Luís.
A mãe de Catarina suspirou aliviada antes de voltar a arrumar a casa enquanto a filha decidiu mudar a playlist. “Coloquei músicas leves para respeitar a minha casa, já que elas não gostam de rock e rock pesado. Aproveitei o clima romântico para ouvir aquele antigo pop que eu amo, mas a mamãe implicou com as letras. Ouvirei rock agora.” ─Pensou Catarina.
Catarina colocou uma playlist com músicas da banda Paramore, Metallica, Guns N’ Roses, Nirvana, Nickelbak, Bon Jovi, Angra, Avantasia, Cradle Of Filth, Nightwish, Evanescence, Within Temptation e etc. Ela ouviu “I Disappear” do Metallica com empolgação.
─Hey, hey, hey, here I go now, here I go into new days. I’m pain, I’m hope, I’m suffer. ─Cantava Catarina com empolgação.
Depois de se depilar, Catarina colocou um vestido azul com estampa xadrez e um sapato cor-de-rosa claro de salto alto. Adornou-se com acessórios charmosos: um colar prateado com um pingente delicado, brincos pequeninos e anéis coloridos delicados. Aplicou em seu rosto uma maquiagem leve e natural que destacava os seus grandes olhos e longos cílios. Em suas bochechas, passou um pouquinho de pó de blush cor-de-rosa.
A dúvida pairou na hora de escolher de batom: “Será que eu vou beijar hoje? Qual é o batom mais adequado para beijar?” Embora fosse fã de batons com cores fortes, como o roxo, e batons líquidos, Catarina resolveu aplicar o batom seco mais leve de seu estojo de maquiagem. Tratava-se de um batom rosa claro de longa duração. “Acho que esse batom não deixa marcas e não borra.” ─Pensou Catarina. 
Quando chegou a hora de ir à lanchonete, Catarina pegou a sua bolsa de couro preta com sua carteira e o seu celular. Sua mãe estava bem arrumada e elegante (Catarina admirava o modo como a mãe se transformava de gata borralheira varrendo a casa na Cinderela mais elegante do mundo). “Sorte a minha ter uma mãe jovem e bonita, pois, se ela aparecer na lanchonete, eu posso dizer que ela é minha irmã e não pagar tanto mico.” ─Catarina pensou rapidamente. Dona Mila vestia uma calça social marrom e uma blusa de cetim preta além de calçar botas pretas de couro. A mãe também usava uma bela maquiagem e brincos grandes como sempre.
Antes de sair de casa, Catarina passou pela sala e sentiu-se tímida diante do seu pai. O pai estava sentado no sofá enquanto escrevia em seu notebook. Ele ergueu os olhos para Catarina com preocupação.
─Se cuida, Catarina!─Exclamou o pai, fazendo Catarina se sentir encabulado pelo fato de o pai saber que ela estava indo se encontrar com um rapaz.
Mesmo a lanchonete sendo perto da casa de Catarina, na mesma quadra da igreja, ou seja, a duas quadras de distância de seu lar, a mãe resolveu levar Catarina de carro ao encontro com Luís. O carro seria mais cômodo, já que Catarina e sua mãe usavam salto alto e a avó costumava se cansar indo a pé aos locais por mais que dissesse o contrário.
A mãe de Catarina estacionou o carro bem próximo da lanchonete, e elas conseguiam avistar as costas do Luís e o cabelo comprido do rapaz, que estava sentado em uma das mesas enquanto aguardava a moça. Como de costume, Catarina havia chegado cinco minutos atrasada ao local. Dentro do carro de vidros escuros, elas não eram vistas pelos transeuntes da quadra. No banco do automóvel, a mãe de Catarina resolveu dar mais alguns avisos.
─Catarina, você se cuida nesse encontro! Nada de ir para lugares mais “confortáveis” depois da lanchonete, entendeu, mocinha?



─Sim, mãe. Pode deixar.
─Eu e sua avó não vamos voltar para a casa. Nós vamos passear nessa quadra enquanto você lancha por aqui. Qualquer coisa você me liga. Prende o grito. Me chama que eu venho na hora.
─Pode deixar. ─Respondeu Catarina, revirando os olhos pelos avisos chatos e suspirando densamente.
─Está com o celular ligado? O volume do celular está alto? Olha, você tem mania de deixar o celular no silencioso.
─Está tudo certo com o volume do meu celular, mãe. Fique tranquila que eu estarei atenta. Meu celular está ligado e ele costuma vibrar também. Estarei com a bolsa no colo.
                 ─Então, pode descer do carro filha. ─Disse a mãe enquanto fazia o sinal da santa cruz na testa de Catarina. 

Conto escrito por Tatyana Casarino

***Confira a segunda parte do Conto:

https://tatycasarino.blogspot.com/2018/07/conto-de-humor-o-primeiro-encontro-de_14.html

**Traduções das músicas citadas na postagem:

https://www.letras.mus.br/spice-girls/11/traducao.html

https://www.letras.mus.br/madonna/69103/traducao.html

https://www.letras.mus.br/metallica/25915/traducao.html