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quinta-feira, 16 de março de 2017

Analisando Esplendor


                                      


      Olá, pessoal. Hoje eu venho analisar a telenovela Esplendor, produzida e exibida pela Rede Globo no horário das 18 horas, entre 31 de Janeiro e 23 de Junho de 2000. Sabe-se que a telenovela foi escrita pela autora Ana Maria Moretzsohn, recebendo a colaboração de Glória Barreto, Daisy Chaves e Izabel de Oliveira. Como diretores, destacam-se Luciano Sabino, Ary Coslov e Maurício Farias. Wolf Maya, por sua vez, era responsável pela direção geral e do núcleo.
      Trata-se basicamente da história de amor entre Flávia Cristina (Letícia Spiller), a doce governanta de Vivenda do Sombrio, e Frederico Berger (Floriano Peixoto), o pai de família taciturno. O drama da novela reside nos segredos do passado guardados por ambos os personagens. 

                        

Flávia Cristina


Flávia Regina


      Flávia Cristina (Letícia Spiller) esconde sua verdadeira identidade, já que ela trocou de lugar com a moça que seria a verdadeira governanta de Vivenda do Sombrio, Flávia Regina (Christine Fernandes), após um acidente de ônibus. Com nomes parecidos e aparências físicas semelhantes, não foi difícil assumir a função de governanta no lugar de sua sósia, a qual ficou em coma depois do acidente. Além do mais, o motivo pelo qual Flávia Cristina estava no mesmo ônibus que Flávia Regina era nebuloso... 
      Em verdade, Flávia Cristina estava fugindo do Rio de Janeiro para o Sul do Brasil, pois estava receosa de ser descoberta pela polícia após ferir um homem (ela o atingiu na cabeça com uma estatueta). Ela pensava que havia matado o homem, mas ele sobreviveu após a briga. Sabe-se que Flávia Cristina havia agredido este homem (um agiota) para defender o irmão que era perseguido por ele. Além disso, almejava defender a si mesma já que foi agarrada pelo agiota momentos antes de atirar uma estatueta contra a cabeça dele...

                             

                                  

Bruno Sampaio 

          

           Ocorre que o seu irmão, Bruno Sampaio (Caio Blat), era um tremendo mau-caráter que se aproveitava do amor da irmã para explorá-la em prol de seus vis interesses. Quando Bruno vai ao apartamento do agiota e vê o homem ferido, resolve matar o bandido e roubar todo o dinheiro que encontra. Após matar o agiota, ele convence a irmã de que ela deve fugir para evitar ser presa pela polícia. Além do mais, em sua bagagem, Bruno escondeu a mala com o dinheiro roubado. 

                                      

Flávia Cristina

         
             Na rodoviária, Flávia encontra uma moça chamada Flávia Regina, a qual é amável e simpática com ela. Flávia Regina está indo trabalhar como governanta na Vivenda do Sombrio, localizada na cidade de Esplendor. As duas viajam no mesmo ônibus, mas são surpreendidas por um acidente na estrada. Quando Flávia Regina é internada em estado grave, Flávia Cristina é confundida com ela e levada para a mansão dos Berger. Sendo assim, ela assume a função de governanta e a identidade da amiga. Mas ela não sabia o que o destino preparava para ela no Sul do Brasil...

                                          

Frederico Berger

               

           No Sul do Brasil, em uma cidade fictícia chamada Esplendor, vive o industrial milionário Frederico Berger (Floriano Peixoto), um homem constantemente assombrado pelas lembranças de uma tragédia envolvendo a morte de sua esposa Elisa (Ângela Figueiredo). Há muitos anos, quando discutia de modo áspero com a sua mulher dentro de um pequeno avião pilotado por ele, ele acaba perdendo o controlo da aeronave. Logo, os dois se chocaram contra o precipício que fica em sua propriedade. Elisa morre imediatamente, mas Frederico escapa com vida do desastre.  

                        

Frederico, Gui, Elisa, Fred e Érica


           Todavia, ele ganhou uma cicatriz no rosto e pesadelos que o atormentam todas as noites. A morte da mulher o tornou um homem autoritário e taciturno, o qual não admite oposição ou falhas alheias. A sua tristeza e o seu mau humor acabam contagiando os seus familiares, tornando Frederico uma figura intimidadora para todos os que trabalham ou vivem em sua mansão. 

                                

Flávia, Gui e Frederico

             

               Em "Vivenda do Sombrio" (apelido dado pelos moradores de Esplendor ao casarão em estilo vitoriano de Frederico), Frederico mora com seus três filhos: Érica (Thaís Fersoza), Fred (Max Fercondini) e Gui (Thiago de Los Reyes). Érica, a filha mais velha, é uma jovem ingênua e doce que tenta sempre agradar e adocicar a vida do pai sem obter êxito. Fred, o filho do meio, tem uma personalidade bem rebelde. Ressentido pelo distanciamento de Frederico, ele culpa o pai pela tristeza da casa. Gui, o filho mais novo, é um garoto arredio e melancólico que não pronuncia uma palavra desde a morte da mãe. Acontece que todos os médicos afirmam que o garoto é saudável dentro da Fonoaudiologia... 
               Desse modo, há todo um mistério sobre o garoto sonhador, avoado e "mudo", que sofre de problemas psicológicos (e espirituais também como veremos mais tarde). Gui é um personagem que chama muito a atenção do telespectador e que ganha um destaque imenso ao longo da trama devido à curiosidade das pessoas acerca de seu comportamento diferenciado (ele gostava de se trancar no sótão e fazer desenhos estranhos, alguns envolvendo a mãe). Toda boa mansão sombria deve ter um sótão com aparência gótica, não é mesmo, minha gente?

                                 

               

                  Recordo de assistir esta novela nos anos 2000, aos 07 para 08 anos de idade (Nasci em Julho de 1992). Minha mãe, fã desta telenovela, me buscava rapidamente na escola (eu estudava no período da tarde nesta época), já que minhas aulas terminavam 17:30 para assistir ao Esplendor 18:00 (hehehe). Recordo também que as pessoas que acompanhavam esta telenovela torciam para o Gui falar. Nas reuniões entre mulheres e revistas de telenovelas da época, o mistério de Gui era o mais comentado. Todo capítulo era aguardado para verificar quando o menino teria "revelações espirituais" ou a cura para a sua mudez. De certa forma, eu me identificava com a sensibilidade do garoto incompreendido, e seu temperamento melancólico e diferenciado inspirou os meus primeiros personagens... Um segredo revelado hoje hehehe, mas o Gui não desenhava nem via fadas como meus personagens hehehe. ;) Eu revelando as minhas inspirações em telenovelas... Quem nunca se inspirou um pouco?

                                            

Adelaide


                 Adelaide (Cassia Kiss), a irmã mais velha de Frederico, costumava cuidar das crianças. No passado, Adelaide teve uma história de amor com Hugo Norman (Gracindo Jr), médico da família. Entretanto, ele se casou com Olga (Joana Fomm), uma mulher agressiva e rancorosa que vive presa a uma cadeira de rodas desde o nascimento da filha Marisa (Adriana Garambone). Apesar de continuar amando Adelaide, Hugo sente-se responsável pela mulher. 

                                  

Frederico e Cristovão 

                   

                    Bondosa e solidária, Adelaide costumava viver exclusivamente para ajudar o irmão. Contudo, uma doença rara no coração obriga Adelaide a abandonar seus afazeres em razão de recomendações médicas. Então, Cristovão Rocha (Murilo Benício), advogado e "braço-direito" de Frederico, resolve contratar uma governanta para cuidar da casa. Desde que seus pais morreram em um acidente na Fábrica dos Berger quando Cristovão era criança, ele foi criado como irmão de Frederico. Pelos sobrinhos de consideração, ele é adorado, já que se apresenta como um homem simpático e bem-humorado. Porém, na realidade, ele é movido pela inveja e por um enorme desejo de vingança. 

                                      

Cristovão, Flávia e Frederico

                  

                           Flávia, a nova governanta, conquista todos do casarão, inclusive Frederico, tendo em vista que a presença dela ilumina o lugar. O taciturno pai de família vê uma oportunidade de voltar a ser feliz. Flávia se apaixona por ele e deseja contar a verdade assim que Flávia Regina se recupera do coma, porém fica com medo de perdê-lo. Ela também passa a lidar com as inconvenientes investida de Cristovão, o qual fica obcecado por ela assim que percebe o quanto ela faz Frederico feliz (Cristovão adorava competir com Frederico além de ser mau-caráter). 

                                                    

Bruno e Érica (ela fica apaixonada por ele por um tempo, mas depois descobre que ele não merece o seu amor).

                             

                              Quando o irmão de Flávia chega em Esplendor, o segredo dela passar a correr perigo. Com o intuito de recuperar o dinheiro que a irmã levou por engano, ele se aproxima da família Berger ao seduzir Érica. Flávia somente descobrir a má índole do irmão quando ele ameaça denunciá-la por falsa identidade à polícia. Sabe-se que Bruno recebe seu castigo no final da novela: Ele é preso pela morte do agiota e passa os dias na cadeia arrependido por não ter valorizado o amor da irmã. 

                                          

                              

                                 Quando a verdadeira identidade de Flávia é revelada, ela passa a ser rejeitada por todos. Sua superação apenas viria mais tarde ao tornar-se a mais bem-sucedida desenhista da fábrica de móveis de Frederico. Todavia, a reconciliação do casal somente acontece no fim da trama quando um segredo do passado trágico do milionário é revelado. 
                      Descobre-se que Elisa, a primeira mulher de Frederico, havia sido amante de Cristovão. Na noite em que Frederico e a mulher sofreram o acidente, Cristovão e Elisa planejam fugir com parte dos bens de Frederico. Para aumentar a infelicidade de Frederico, Cristovão contratou Flávia Regina para ser governanta da casa, mas teve os seus planos frustrados pelo destino quando Flávia Cristina veio trabalhar no lugar dela. Ao saber da verdade sobre a primeira esposa, Frederico acaba por se livrar da culpa que sentia por ter sido áspero com ela em uma discussão no dia do acidente. Livrando-se dos tormentos do passado, Frederico resolve ser feliz ao lado de Flávia. 

                                                

                                

                                  No último capítulo da telenovela, Cristovão, já desmascarado, tenta fugir com a mala cheia de dinheiro roubada por Bruno, levando Flávia e Gui como reféns dentro do carro. Gui, no entanto, consegue fugir assim que Flávia atinge a cabeça de Cristovão com a mala (essa Flávia adora atingir a cabeça dos outros com objetos, já repararam?) e abre a porta do carro para libertar o garoto. Flávia é levada até um local perto de um penhasco. Gui encontra o pai no meio da estrada e consegue falar (finalmente!). Ele avisa o pai sobre o perigo que a Flávia está correndo com Cristovão.  

                           



                                Sendo assim, Frederico os alcança perto do penhasco e o desarma. Enquanto Frederico e Cristovão lutam, Flávia escorrega e fica pendurada no rochedo. A mala com o dinheiro cai no precipício e, quando Cristovão tenta apanhar a mala, ele cai no precipício e morre. Frederico salva Flávia, e os dois se casam e têm filhos. 
                                
                  
Pontos Positivos:

1) Diálogos Requintados

                    


     
      Pensa em uma telenovela que respeita a norma culta da língua portuguesa... Pensou? Sem dúvidas, Esplendor foi a melhor telenovela no âmbito dos Diálogos. Tratando-se de uma novela ambientada em 1958 (amo telenovelas de época), é lógico que não haveria gírias, abreviações de expressões da línguas portuguesa ou qualquer "linguajar moderninho". Mas não é somente pelo fato de ela ser uma novela de época que os diálogos são lindos... Quem escreveu os diálogos realmente caprichou! 
     Dá a impressão que você está "assistindo a um livro" hehehe (uma sensação mágica) e não vendo uma telenovela. Os diálogos são muito semelhantes aos diálogos literários de modo geral. Os diálogos entre os personagens são extremante charmosos e polidos. É uma novela de alto padrão devido aos diálogos, e nós percebemos a qualidade de uma novela na forma com a qual os personagens se comunicam. Isto pode servir como uma crítica às telenovelas de hoje em dia, as quais possuem um linguajar cada vez mais "chucro" infelizmente. 
     Além do mais, a linguagem utilizada na telenovela é equilibrada: culta sem ser enfadonha. Claro que ninguém fala de maneira culta na vida real daquele jeito charmoso de Frederico e Flávia (infelizmente hehehe), mas é um prazer reparar na construção dos diálogos. As vozes dos personagens são bonitas e os atores conseguem equilibrar o ritmo das palavras, pausando nas horas certas. Frederico tem uma voz aveludada, sexy e bem masculina e Flávia exala uma voz doce na medida certa. Todos os personagens são expressivos e comunicativos... Até mesmo Gui, o personagem mudo, é tão expressivo em seu olhar que não necessita de palavras. 


   2) Romantismo no estilo "A Bela e a Fera" 

                           



                  Esta é uma das telenovelas mais poéticas que eu já assisti. O romantismo de Flávia e Frederico é lindo, doce e tocante. As cenas de amor entre os personagens são charmosas e de extremo bom gosto... Não há vulgaridade, mas muita classe. Eu, particularmente, amo as cenas onde há vinho. Em um dos capítulos onde eles dormem juntos, eles passam a madrugada tomando vinho. Eu não tomo vinho, mas amo colocar o símbolo do vinho nas minhas poesias românticas e sensuais. Gosto de me inspirar em Flávia e Frederico também. 
                   Além do mais, gosto da fórmula do romance do casal: a moça doce e o homem sombrio. Esta é a típica fórmula da "Bela e a Fera", do "O Fantasma da Ópera" e de tantas outras histórias de sucesso que eu amo... O próprio site da Globo, em "Memória Globo", afirma que Esplendor "narrava a história de um homem solitário que redescobre o amor, tendo como inspiração romances góticos e a clássica história de A Bela e a Fera." 
               Quando o site citou "romances góticos" como fonte de inspiração, sabem qual o romance que passou na minha cabeça? O Morro dos Ventos Uivantes. Há algo de Heathcliff tanto em Frederico quanto em Cristovão. Frederico é atormentado com pesadelos onde vê a primeira mulher no dia do acidente com suas vestes brancas... Isto me lembra muito o Heathcliff vendo Cathy de vestido branco em sua janela... 
                 Além disso, Gui vê o espírito da mãe vagando pelo casarão como se fosse Cathy vagando nos morros. Até os ambientes são parecidos: a taciturna casa em Yorkshire, Inglaterra, de Morro dos Ventos Uivantes é semelhante à Vivenda do Sombrio em Esplendor, cidade fictícia de Rio Grande do Sul, Brasil. E todo mundo sabe que o Sul do Brasil é a "Europa" brasileira. O clima nublado e a atmosfera tensa e sombria estão presentes em ambas as histórias. Cristovão, o vilão, também tem algo Heathcliff pelo fato de ter sido um "irmão ilegítimo" e clamar por vingança...
                   Quanto ao fato da moça alegre que ensina um homem triste a amar e a ser feliz, imediatamente surge uma referência: A Bela e a Fera! Um dos capítulos mais bonitos é quando ela abre as cortinas da janela da biblioteca, e ele diz: "Não gosto que abram as cortinas". Em seguida, ela ensina Frederico a gostar da luz... O casarão de Frederico, no estilo vitoriano, é muito parecido com o Castelo da Fera. Mas as referências não param por aqui... Vejo um pouco de "Fantasma da Ópera" na cicatriz estampada no rosto de Frederico e no seu jeito temperamental. 
                       Não é somente o Frederico que abrange muitos personagens dentro de si (Fera, Heathcliff, Fantasma da Ópera...), Flávia ostenta Bela, Christine e a Noviça Rebelde! A Noviça Rebelde também modifica radicalmente a vida da família von Trapp como governanta ao trazer alegria às crianças. A atriz Letícia Spiller, que interpretou a Flávia, estava muito parecida com a atriz de Noviça Rebelde, Julie Andrews, durante a telenovela, incluindo o mesmo tipo de cabelo.  Dá para fazer inúmeras analogias desta telenovela com fontes da literatura e do cinema. Estão vendo como telenovela também é cultura?

    3) Reflexões espirituais 

                            


                     
                É interessante o fato desta novela não ser muito citada quando falamos a respeito de telenovelas espíritas. Talvez ela não seja tão lembrada como telenovela espírita devido ao fato de que ela tocou em temas espíritas de forma muito sutil... Mas os conceitos espirituais estão lá: Reencarnação, espíritos, a luta do bem contra o mal... Em inúmeros diálogos, os personagens afirmam: "Parece que te conheço há muito tempo..." Além disso, foi muito comentada na época a possibilidade do Gui ter mediunidade. 
                  Em um capítulo, quando Adelaide está no hospital, é possível ver o seu espírito se comunicando com a amiga que cuidava dela enquanto o corpo físico dela dormia. Em vários diálogos, é comentada a possibilidade dos personagens serem conhecidos de outras vidas...


              4) Trama bem consolidada

                                


                O enredo é muito bem feito, e não há "furos" ou "impasses" durante a telenovela. Podemos afirmar que a trama é bem "fechada" e cumpre o seu papel. Há mistérios sendo revelados aos poucos, e a história é construída de forma inteligente e criativa. Uma das melhores histórias de telenovela que eu já vi em toda a minha vida!


Ponto Negativo:

1) Não fez tanto sucesso quanto merecia

                  



        Muito embora esta telenovela tenha sido vendida para diversos países, ela não é uma novela muito lembrada no meio artístico. É como se a Rede Globo tivesse se esquecido dela... Inúmeras pessoas mandam cartas e e-mails pedindo para que ela passe em "Vale a Pena Ver de Novo", mas a Globo parece ignorar todos os pedidos... Ela não foi considerada um novela de "sucesso" e acabou sendo "ofuscada" pela telenovela "O Cravo e a Rosa" que substituiu a trama em 26 de junho de 2000. Adoro Cravo e a Rosa, mas também tenho um lugar especial em meu coração para Esplendor. 
            Ela teve média de 28 pontos na audiência, uma média razoável para o horário que exigia 30. Durante a telenovela, sua audiência oscilava de 20 (pior número) a 38 (melhor número) pontos. Apesar de sua audiência não ser muito chamativa, esta novela conquistou fãs que lembram dela até hoje (como eu). Não são raros os internautas que assistem à telenovela pelo YouTube e que falam a respeito dela com carinho. A audiência pode não ter sido expressiva em termos numéricos, mas quem é fã da novela gosta intensamente. A qualidade dos fãs é incrível... E eles continuam a brotar na internet e no Youtube!


Texto escrito por Tatyana Casarino

Confira também a minha análise de Hilda Furacão:

http://tatycasarino.blogspot.com.br/2017/03/analisando-hilda-furacao.html
                  
             

segunda-feira, 13 de março de 2017

Analisando Hilda Furacão

                         

   

     Olá, pessoal! A postagem de hoje será a respeito da telenovela brasileira Hilda Furacão que foi produzida e exibida pela Rede Globo entre 27 de Maio e 23 de Julho de 1998. Considerada uma "novela das onze" e escrita por Glória Perez, sabe-se que o seu enredo foi inspirado no romance homônimo de Roberto Drummond.
   Trata-se basicamente da história de amor entre o frei Malthus (Rodrigo Santoro) e a prostituta Hilda Furacão (Ana Paula Arósio). No início da história, vemos que Malthus resolve sair do município de Santana dos Ferros ao lado de Aramel (Thiago Lacerda) e Roberto (Danton Mello). Nascidos e criados juntos, os "três mosqueteiros" (como são chamados em Santana dos Ferros) vão para Belo Horizonte em busca de seus sonhos. Malthus queria ser santo e ir para o Convento dos Dominicanos, Aramel desejava ser artista de cinema em Hollywood e Roberto almejava fazer uma "Revolução".



Malthus


Aramel 


Roberto


             Hilda Furacão, por sua vez, é uma moça sonhadora da "High Society" (Alta Sociedade) de Belo Horizonte. Romântica, ela não admite o seu casamento arranjado e abandona o seu noivo, chamado Juca, no altar. Desesperado, ele sai da igreja para "resgatar"a noiva na casa dela. Chegando na casa de Hilda, ele se depara com ela confusa e triste. Ela, então, admite que tem medo de se casar sem ter certeza de seus sentimentos e que havia pensado em quase tudo acerca do casamento: no bolo, no vestido, na festa, exceto no afeto (o mais importante).

                                  

Hilda e o seu noivo Juca

             

                Ele não acredita que ela está refletindo sobre seus sentimentos justamente no dia do casamento e desconfia que ela tem outro homem. Afirma também que as "amigas" dela alertaram que, por trás de sua cara de "santinha", ela era "tenebrosa". Em verdade, as amigas inventaram que Hilda era "danada" movidas pela inveja que nutriam por ela, pois Hilda não tinha ninguém no coração mesmo (ao menos por enquanto, já que Malthus aparecerá um pouquinho depois na vida dela). Diante disso, o noivo ameaça se suicidar e até propõe um casamento de "fachada", permitindo que ela tivesse amantes. Tudo para não ser abandonado no altar e humilhado perante a "High Society". 
                  Perturbado com a ideia de ser humilhado, Hilda tenta consolar o noivo que chorava, dizendo a ele que logo viria uma moça boa na vida dele e que o problema estava com ela mesma que tinha um temperamento difícil e sentimental. Destaque para a brilhante atuação de Ana Paula Arósio quando elevou a voz e disse num momento: "Que Deus me cegue se eu estiver mentindo, eu não tenho ninguém!"  Mas ele não cede ao consolo persuasivo de Hilda e continua a insistir que o problema dela seria a "saudade dos supostos amantes". Sentindo-se constrangida e humilhada, ela fica brava e expulsa o noivo de sua casa, o qual dá um tapa na cara dela antes de sair e revela um temperamento agressivo não revelado antes. 

                                 

                    
                     A mãe de Hilda (interpretada pela atriz Eliane Giardini) briga com ela quando vê o Juca indo embora da casa. Ao invés de se preocupar com os sentimentos da filha, a mãe não se cansa de repetir que "ele era um rapaz bem colocado na sociedade" e que "ninguém casa morrendo de paixão, exceto em cinema e em fotonovela". A filha argumenta que já andava calada e reflexiva, mas a mãe diz que sempre teve medo de seu comportamento "vaporoso" e de seu "romantismo exagerado"... 
                  Ela afirma para a filha: "A rua da amargura está cheia de cabeças feito a sua." Hilda tenta alertar a sua mãe da loucura de Juca ao propor um casamento de fachada, permitindo que ela tivesse amantes. Mas, tudo o que a mãe consegue dizer naquele momento é a respeito dos presentes... "Como ficaremos perante a sociedade?" "Usa a cabeça, na vida a gente tem é que ser prática." "Oh! Meu Deus, o que a gente faz com os presentes?" "Oh! O jogo de cristais tcheco puríssimo..." "E as baixelas de prata que os Magalhães Lins mandaram?"--- Algumas frases de sua mãe. 

                                   


                    

                   Inconformada diante da frieza e do materialismo da mãe, Hilda foge de casa e vai para um prostíbulo na Zona Boêmia em Belo Horizonte, um local cercado por prostitutas, travestis, cafetões, "vagabundos"... Hilda Muller, a moça da High Society, passa a ser Hilda Furacão a partir deste momento. Sua fama começa a brotar pela cidade e logo todos ficam sabendo da mulher belíssima e exuberante que seduz todos os homens de Belo Horizonte, inclusive os casados.

                                 


                 
                  Diante disso, ocorre uma grande manifestação popular para acabar com os prostíbulos em defesa da moral e dos bons costumes. Nesta manifestação, frei Malthus é convocado para "exorcizar" Hilda Furacão. Na noite da manifestação, acontece uma grande discussão entre os "defensores da moral e dos bons costumes" presentes na passeata contra os prostíbulos e os moradores da Vila Boêmia. Durante o confronto, ocorre uma tempestade e todos começam a correr para todos os lados.
                  Nessa confusão, Hilda perde um dos seus sapatos (justamente um de seus sapatos favoritos) e volta para o seu quarto 304 do "Hotel Maravilhoso" furiosa e triste. Nesse ínterim, Malthus, ao caminhar pelas ruas, acaba se deparando com um sapato preto bonito que estava prestes a ir direto ao esgoto. Prontamente, ele apanha o sapato antes de voltar ao Convento. [Minha gente, isto está me lembrando um certo Conto de Fadas hehehe... Eu sei que Cinderela passou pela cabeça do leitor neste exato momento também hehehe.]

                                        

                   
                     No dia seguinte, Hilda vai até a rádio de Belo Horizonte pedindo o sapato de volta. Ela promete cobrir de abraços e beijos como recompensa a quem tiver achado e guardado o seu sapato ou ainda o valor de 10.000 dólares (eita que sapato caro, Hilda!). Ela explica que o seu sapato é praticamente "de estimação". Malthus fica perturbado ao descobrir que Hilda é a dona do sapato, chegando a cobrir os ouvidos quando ela promete "cobrir de beijos" quem estivesse com o seu "sapato de estimação". A partir daí, ele fica imaginando como seriam os beijos de Hilda e passa a "acariciar" o sapato ao pensar nela. Sente-se culpado ao se sentir atraído por Hilda Furacão, a pecadora de Belo Horizonte, nascendo todo o seu drama. Há também toda uma "mística" em volta daquele sapato. 
                      Depois, ele decide se comunicar com ela através da Rádio também. Quando ela ouviu o recado dele na rádio a respeito de seu sapato, ela chegou a quebrar o aparelho de rádio de tanta raiva dele. Jamais poderia imaginar que o homem que almejava "exorcizar" a sua alma estava com o seu sapato. Ela não suportava o discurso dele e detestava quando ele dizia: "venha conversar comigo, eu posso lhe dar palavras de conforto e lhe mostrar o caminho certo." No entanto, os dois passaram a se encontrar e o "ódio" de Hilda foi naturalmente sendo transformado em amor ao conhecer Malthus melhor. 

                                                

                                                         
                                             Roberto, amigo de Malthus, indo devolver o sapato de Hilda. [Ele segura o sapato embrulhado como se fosse um bebê, mais uma vez a "mística" do sapato que não acaba hahaha, e olha que este sapatinho nem era de cristal pra receber tanto cuidado...].

                    Entretanto, Malthus demora para entregar o sapato de Hilda mesmo após alguns encontros com ela. Ele não tem coragem de devolver o sapato e, ao mesmo tempo, sente-se culpado de ter em mãos o sapato (uma confusão que só, minha gente!). Ele chega até a pensar em jogar fora o sapato dela! Tudo por causa das suas crises de identidade. "Afinal, eu sou um santo ou homem apaixonado?"-- Ele indagava a si mesmo. Ele também tinha muito medo de seu guia superior, o Padre Nelson. Mas, chega um dia em que ele decide entregar o sapato a ela através de um amigo, o Roberto (até que enfim!). 

                                             

                   

                      Depois de alguns encontros apaixonados, Malthus e Hilda descobrem o amor verdadeiro. Mas, para realizarem os seus sonhos de amor, eles deverão enfrentar múltiplos obstáculos. Há cenas extremamente românticas como a da noite em que eles ficam juntos e Hilda se encanta ao ver Malthus com trajes "normais" e sem a vestimenta de frei. Hilda também vai diversas vezes à Igreja de Malthus e chama a atenção quando caminha de salto alto em direção ao Confessionário. Chegando lá, ela confessa que ama o santo... Uma confissão de amor literalmente. Padre Nelson, ao perceber que o Frei Malthus está apaixonado por Hilda, tenta impedir de todas as maneiras o romance, mas não consegue. Como um bom "Conto de Fadas" de uma Cinderela diferenciada (mas ainda Cinderela), eles ficam juntos e felizes no final. 


Pontos Positivos:


1) Personalidade de Hilda Furacão


                            


   Sem dúvidas, o que mais chama a atenção na telenovela é a personalidade de Hilda Furacão. Em razão disso, a frequência com que Hilda aparece é mais intensa nos capítulos. Afirma-se, inclusive, que Hilda Furacão tem mais destaque na telenovela do que no livro. No livro, Roberto Drummond dá um destaque histórico aos acontecimentos de Belo Horizonte no período do Regime Militar. Sabe-se que Roberto Drummond era jornalista e fazia parte da Juventude Comunista. Santo (Malthus) e Belo (Aramel) foram inspirados em amigos do autor. Muito embora ele escreva sobre Hilda de maneira nebulosa, misteriosa e repleta de "mitos" e "boatos", a personagem que alavancou a sua obra ao patamar de sucesso foi Hilda Furacão sem sombra de dúvidas. 
     Por ser uma jovem doce e, ao mesmo tempo, brava e temperamental, Hilda pode ser considerada, dentre inúmeros adjetivos, incrivelmente fascinante. Fascínio é uma palavra que serve muito bem para Hilda Furacão, a qual exerce um magnetismo inigualável sobre as pessoas de sua história (e sobre os leitores e telespectadores também). Hilda, então, confirma o mito de que "personagens femininas são perigosas, pois cativam os leitores/telespectadores e roubam a atenção da história..."
        Sobre a personalidade cativante da Hilda, sabemos algumas características como, por exemplo:

*"Ela era dada a súbitas tristezas -- em geral, seu riso italiano, que na alegria saiu à mãe, convertia-se em tristeza -- e chorava".


*"Nas missas dançantes, escolhia só os rapazes feios para par, e dizia: --Eu amo os deserdados do mundo."


*"A garota do Maiô Dourado que trocou o Minas Tênis Clube pelo Maravilhoso Hotel."


*"Desde que foi para o Maravilhoso Hotel passou a ser a paixão coletiva de Belo Horizonte."


***Destaque para atuação brilhante de Ana Paula Arósio que tornou Hilda Furacão um personagem ainda mais interessante!




2) Excelentes críticas ao materialismo da High Society


                         


      Hilda Furacão acabou sendo castigada pelas próprias virtudes (fazendo uma leitura baseada na filosofia de Nietzsche), por isso, sua personalidade caiu nos vícios do prostíbulo e do mal caminho. O que levou a moça rica que tinha tudo na vida a virar prostituta? A inadequação diante de uma sociedade materialista de casamentos arranjados, onde baixelas de prata valem mais do que o afeto... Seu temperamento romântico e visceral simplesmente não suportou o formalismo e a frieza das convenções sociais de seu contexto social. 
       Hilda Furacão é um excelente emblema contra a cultura da aparência. O que seria a cultura da aparência? Seria aquela onde o contrato de casamento importa mais que o amor, o funeral mais que o morto, as roupas mais do que o corpo e a missa mais do que Deus, consoante Eduardo Galeno. 
        Hilda faz com que todos reflitam a respeito de seus desejos, vontades e afetos que vão além das meras convenções e aparências. Ela faz indagações profundas: O que realmente move a sua vida? A convenção ou a paixão? Você tem coragem de ser quem você realmente é? Você tem coragem de expor seu lado visceral? Você tem coragem de perseguir os próprios sonhos?



  3) Excelentes reflexões sobre a verdadeira virtude


                         


     Ao longo da história, surge uma indagação: quem é mais virtuoso? Hilda ou Malthus? Então, somos convidados a penetrar em um terreno que vai além das aparências... Muito embora Malthus parecesse ser mais virtuoso do que Hilda, ele era muito confuso e queria ser "santo" mais por questões de seu ego do que por verdadeira vocação. 
       Na briga do Alto do Monte, há um diálogo interessantíssimo entre Hilda e Malthus:

--Você se acha melhor do que todo mundo. Mais perfeito do que todo mundo. (Hilda)

--Você acha pouco o sacrifício que eu faço? Desde que eu me entendo por gente, eu me sacrifico. (Malthus)
--Por quem? Por quem você se sacrificou? Se você fez algum sacrifício foi por vaidade, mais nada. Para ser admirado e reconhecido por todo mundo. Para ser apontado na rua! Para eles te chamarem de santo!
--Você não sabe o que está dizendo. Mas eu te perdoo. 
--Vaidade! Você é um poço de orgulho e vaidade. Se eu me ajoelhasse ao seus pés, você me idolatrava, porque ia se sentir um deus. Mas, como eu lhe amo, você sente raiva, porque eu faço você se sentir humano como todo mundo. 

      Ao longo da história, percebemos as confusões de Malthus e suas crises de identidade. Hilda, apesar de parecer orgulhosa e ter perfil temperamental de ser segura de si (ser uma pessoa segura é qualidade e não defeito), era gentil, humilde e bondosa. Já Malthus precisava ser "aplaudido" pela sociedade a fim de curar suas carências e satisfazer o seu ego. 

       Hilda fazia mais caridade e mostrava o coração repleto de compaixão. Malthus, no entanto, é mergulhado nas próprias questões internas e no desejo de ser mais do que humano...         
       Afinal, quem é mais virtuoso? A prostituta ou o frei? Ao que tudo indica, por incrível que pareça, a prostituta. O seu coração não havia sido "contaminado" pelo orgulho de sua beleza ou admiração de Belo Horizonte. Ela fazia sempre o que queria fazer e não se importava com o reconhecimento alheio.
       Todavia, Malthus tinha medo de críticas e de perder a admiração das pessoas ao revelar seu caráter humano. Ele era mais "apegado" ao que as pessoas pensavam dele. Hilda era mais virtuosa e autêntica. 
      Claro que Hilda estava longe de ser perfeita, já que o seu ego era "espinhoso" e temperamental também. Mas, ao que tudo indica, ela tinha o ego mais "bem resolvido" e era mais bondosa naturalmente sem necessidade de ser apontada como bondosa. Ela tinha mais "desprendimento" em relação ao reconhecimento. Isto me lembra uma célebre frase: "Seja uma boa pessoa, mas não gaste tempo tentando provar isto." O que é melhor: ser apontada como prostituta e pecadora mesmo com a alma bondosa ou ser apontado como santo e ser um homem pecador?

4) Excelente Trilha Sonora


                     


    
      As músicas que fazem parte da Trilha Sonora de Hilda Furacão são absolutamente fantásticas! Para quem gosta de música "retrô" como eu é ainda mais fascinante! Sabe aquelas músicas que tocavam na rádio no tempo das suas avós? Então, você vai viajar no tempo ao ouvir estas músicas. Eu amo ouvir essas músicas! Dá até para imaginar vestidos de bolinhas, laços na cabeça hehehe, roupa pin up nas moças e os rapazes com gel no cabelo, suspensório e casaco de couro hehehe. Eu adoro histórias de época!!! 
     Eu amo cantar as músicas de Hilda Furacão com as minhas avós. Sim, eu até tenho o CD original da Trilha Sonora de Hilda Furacão hehehe. Sou fã!




*Resposta ao tempo -- Nana Caymmi
*You are my destiny -- Paul Anka
*Que Será Será -- Doris Day
*Sonhar Contigo -- Adilson Ramos
*Boneca Cobiçada -- Palmeira e Biá
*Balada Triste -- Agostinho dos Santos
*Que queres tu de mim -- Altemar Dutra
*Nossos momentos -- Elizeth Cardoso
*Quem é -- Silvinho
*Molambo -- Roberto Luna
*Meditação -- Maysa
*C'est si Bon -- Eartha Kitt 
*Kalú -- Ângela Maria
*Só Danço Samba -- Tamba Trio
*Túnel do Amor-- Celly Campelo
*Chega de Saudade - Tom Jobim

5) Excelente Elenco


              

O inesquecível personagem "Cintura Fina"


   Eu não poderia deixar de elogiar o elenco dessa minissérie! Que elenco maravilhoso! É raro um elenco tão harmonioso e fabuloso assim! Todos os atores trabalharam muito bem e passaram veracidade na telinha. A expressividade da Ana Paula Arósio já demonstrava o seu talento mais do que especial. Rodrigo Santoro, Danton Mello, Thiago Lacerda, Arlete Salles (a cartomante Madame Janete), Paulo Autran (o Padre Nelson), Rosi Campos (a Maria Tomba-Homem) e Matheus Nacthergaele (o Cintura Fina) são alguns destaques brilhantes! Um dos melhores elencos de telenovela que eu já vi!


Pontos Negativos:


  1) Romantização da prostituição


                   


  
    Hilda Furacão é uma excelente história sem dúvidas, mas não podemos nos esquecer de que, na vida real, a vida de uma prostituta não é glamourosa. No submundo da Vila Boêmia, Hilda encontra amigos verdadeiros e exala empolgação, entusiasmo e alegrias. No entanto, os "submundos" reais de prostituição estão repletos de drogas, doenças, intrigas, violência, falsidade e sofrimento. 
    Não há nada charmoso na vida da prostituta. Muito embora a vida de Hilda Furacão tenha sido repleta de cor e brilho, a prostituição é cinzenta, sombria e apagada. Ao contrário de Hilda que conquistou a admiração de Belo Horizonte na ficção, as prostitutas sempre são alvos de depreciação e discriminação. Não há qualquer reconhecimento social ou "aplausos" para elas. 

  2) Romantização dos socialistas/comunistas


             


     Hilda Furacão é uma história politicamente tendenciosa, já que induz, de certa forma, o telespectador a acreditar que os Movimentos Estudantis Revolucionários e os Movimentos Comunistas eram charmosos, idealistas e virtuosos. Os personagens comunistas são bonitos, bem intencionados e cheios de charme... Um dos personagens comunistas, interpretado por Daniel Boaventura (um ator que eu sou fã e adoro o trabalho dele como cantor também) diz aos seus "camaradas" durante uma reunião do Partido Comunista: "Sabemos que é possível construir o paraíso na terra". Ele também afirma: "Porque o comunista, antes de pensar em si, pensa na humanidade". 
       Eu acredito que são válidas as críticas ao materialismo da High Society. Mas eu não levo tal discussão para a política. Sei separar o joio do trigo. As críticas ao o materialismo e à cultura de aparência não precisam atacar o capitalismo propriamente dito. Afinal, posso viver em uma sociedade capitalista sem me contaminar por ela. Posso me elevar acima do sistema e não me revoltar contra ele. 

                         

Roberto: Personagem bonito, inteligente, bom moço, carismático e... comunista. 

     
                   Também não acredito que seja válido o intuito de defender as ideologias comunistas ou utópicas a partir de tais críticas. Existe uma cena irritante onde uma "camarada" loura falsa que, em verdade, era uma espiã ou agente dupla diz ao Roberto: "Por que você me trocou por aquela burguesinha?" Quem entende de política e sabe a respeito dos males do comunismo se irrita diante da romantização deste. 
               Algumas críticas às hipocrisias sociais são importantes, bem como o olhar atento às pessoas menos favorecidas da sociedade como os pobres da Vila Boêmia, as prostitutas, os travestis e os "deserdados". A própria Hilda Furacão é uma defensora dos oprimidos e deserdados. Contudo, não acredito que tal discussão necessite de política e do "ideal socialista". 
                 Quando vejo um filme ou telenovela, gosto de refletir acerca de virtudes e questões humanas profundas e acho irritante o fato de tudo ser discutido sob lentes políticas. Podemos muito bem discutir sobre amor, virtude, ego, orgulho, humildade, tolerância e respeito sem tocar a Política... 
                Gosto de discutir a respeito da diferença entre Ter X Ser, mas não acredito que tal dicotomia seja necessariamente política. O Ter sempre existirá. Precisamos apenas nos lembrar que o Ser é mais importante. Viva a nossa essência... Mas vivam os valores e o nosso pão de cada dia que nos sustenta também! 


Texto escrito por Tatyana Casarino.



*Curiosidades


*O meu poema "Das Chamas do Santuário" faz referência à Hilda Furacão nos versos: "Ela entra de véu negro na igreja, posso ouvir o barulho do salto alto... Hilda Furacão não foi a minha única fonte de inspiração, mas foi uma das minhas inspirações (minhas poesias nascem de múltiplas inspirações). 


Confira o Poema Das Chamas do Santuário:





http://tatycasarino.blogspot.com.br/2016/07/das-chamas-do-santuario.html (clique aqui)


*Eu disse que Hilda foi uma personagem castigada pelas próprias virtudes. Diante disso, é interessante ler um poema que escrevi a respeito da filosofia de Nietzsche. O poema não foi inspirado em Hilda Furacão, mas pode muito bem servir para ela e até para Malthus, o qual se acha muito virtuoso e acaba pecando justamente por isso. O poema se chama "Quando as virtudes castigam". 


http://tatycasarino.blogspot.com.br/2016/11/quando-as-virtudes-castigam.html (clique aqui)



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Abraços,


Tatyana Casarino.