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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

10 Nações Extintas Pouco Conhecidas que Mudaram a História do Mundo

 

  10 Nações extintas pouco conhecidas que mudaram a história do mundo.



             


 

   O nosso colunista Mateus Ernani Heinzmann Bülow preparou um texto sobre nações pouco conhecidas que mudaram a história mundial para o blog “Recanto da Escritora”. Tendo em vista que o Brasil comemora a Independência no dia 7 de setembro, o nosso colunista decidiu compartilhar a história dessas nações.

  Você sabia que o Brasil ficou num estado intermediário entre o domínio português e a proclamação da Independência durante um breve período? Descubra o contexto dessa informação e as curiosidades históricas de alguns territórios no texto do Mateus. Boa leitura!

 

1-Reino do Brasil.

 



 

               Todo estudante aprende três períodos da história do Brasil, indo do período colonial (oficialmente chamado de Estado do Brasil) à chegada da corte portuguesa, depois o Império e a república. No entanto, durante um breve período, o Brasil ficou num estado intermediário entre o domínio português e a proclamação da Independência, e paradoxalmente já poderia ser chamado de nação, embora ainda fizesse parte dos domínios lusitanos de Ultramar. Esse intervalo talvez seja o mais importante da história brasileira, e ainda é pouco falado.

               O Reino do Brasil foi proclamado pelo Príncipe-Regente João VI em 1815, com duas finalidades: Representar os interesses portugueses na Europa sem a necessidade do retorno do monarca ao continente, e acalmar os ânimos dos brasileiros que desejavam a separação completa, o que poderia se reverter na anarquia que já dominava os territórios ultramarinos da monarquia espanhola nas redondezas.

               Nesse sistema, o Brasil teria autonomia para definir leis e finanças, e um parlamento conjunto foi criado para representar ambos os reinos. À primeira vista o arranjo funcionou muito bem, e tensões entre brasileiros e portugueses arrefeceram com os países teoricamente em condições iguais sob o mesmo monarca reinante. Pelos cinco anos seguintes, o imenso Império Português teria o Rio de Janeiro como sua capital.

               No entanto, a Revolução Liberal do Porto em 1820 forçou o retorno de Dom João ao seu país de origem, deixando para trás seu filho, Pedro, como Príncipe-Regente, e rancores não demoraram a eclodir: Os portugueses insistiam em demover o Brasil da condição de Reino, o que era inaceitável à nova elite política surgida no território americano.

 



 

 

               A independência total não era unanimidade entre os brasileiros, ainda crentes numa possibilidade de manter os laços de amizade da metrópole com a ex-colônia, e foi justamente a teimosia das Cortes portuguesas a maior responsável pelo azedume nas relações. O plano do governo de Lisboa incluía a fragmentação do Brasil em territórios menores e o retorno imediato do Príncipe-Regente, sob o pretexto de receber “devida instrução” nas cortes, o que efetivamente o reduziria a um prisioneiro em Portugal.

               Pedro descobriu a tramoia por meio de José Bonifácio e sua esposa, a Princesa Leopoldina, e decidiu que era hora de encerrar de vez os laços com Portugal. Com isto, o Império do Brasil foi proclamado, dando um ponto final no breve período do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. O esforço dos brasileiros em criarem uma Pátria livre de influências externas continuaria com a guerra contra os portugueses até 1824.

 

2-República de Vermont.

 



 

 

               O estado americano do Vermont possui um apelido interessante, sendo chamado de o “Décimo-Quarto” na historiografia dos EUA. Isto se deve ao fato de que o Vermont demorou a aderir à aliança das então chamadas Treze Colônias contra os britânicos, e lutou sozinho por um tempo. Nesse período entre 1777 até 1791, o Vermont foi uma nação independente.

               O surgimento da República de Vermont deveu-se a um ato do rei George III de anexar o território das Montanhas Verdes à Província de Nova York, uma decisão que enfureceu os colonos da região. Em resposta ao que consideravam uma arbitrariedade, os habitantes organizaram uma milícia conhecida como Green Mountain Scouts (“Batedores das Montanhas Verdes”), sob a liderança de Ethan Allen. Os rebeldes chamaram o novo país de Vermont, que significa “Monte Verde”, em francês.

               Em 1777, os vermontinos escreveram a primeira constituição em território americano, e também a primeira constituição a abolir a escravatura e permitir sufrágio masculino universal, sem considerar a renda do eleitor. Apesar de não durar por muito tempo (ao menos como documento de caráter nacional), é inegável que a Constituição de Vermont teria influência considerável na Constituição Americana de 1787.

 



 

 

               Durante seu breve período de independência, Vermont auxiliou os Patriotas de outros estados enviando milicianos dos Green Mountain Scouts para a linha de frente, mas a ameaça dos indígenas do noroeste frustrou um envio contínuo de reforços. Vermont também possuía serviço postal, além de uma moeda própria chamada Cobre Vermontino, e seu governo sob a liderança de Thomas Chitenden mantinha relações diplomáticas com outros países, como França e Holanda, e também com o Congresso Continental dos EUA.

               O governo de Vermont decidiu se unir aos EUA poucos anos antes do fim da guerra contra os britânicos, porque uma parcela considerável de seus habitantes nutria simpatia pela ideia, um detalhe que valeu o apelido de “República Relutante” à nação. Assim, o Vermont foi o décimo-quarto estado a se juntar aos EUA, com outra constituição estadual surgindo em 1793; essa nova carta estadual não diferia muito da anterior de 1777.

 

3-Primeiro Estado Islâmico.

 



 

 

               Para compreendermos a importância da terceira nação nesta lista, eu proponho o seguinte exercício mental: Imagine como seria a história do mundo se Jesus Cristo não fosse crucificado, e de alguma forma libertasse o território judeu do domínio romano, além de estabelecer um governo e uma constituição. Foi o que o Profeta Maomé (também chamado Mohammed) fez na Península Arábica.

               O Primeiro Estado Islâmico, também denominado Estado de Medina, surgiu como uma consequência da Hégira, o êxodo de Maomé e seus seguidores. Após alcançarem a cidade de Medina e unificarem as oito tribos da região, Maomé estabeleceu um governo com base na Constituição de Medina, proibindo a guerra entre os muçulmanos, além de criar um senso de comunidade com base na fé em Alá, o Deus Único.

               Apesar de obterem uma base permanente, os primeiros muçulmanos sob a liderança de Maomé não estavam plenamente seguros: Os governantes de Meca ainda hostilizavam os fugitivos, e a Tribo Coraixita também compunha uma grande ameaça. Por dez anos o oeste da Arábia foi palco de batalhas e escaramuças ferozes, até os muçulmanos se tornarem fortes o bastante para conquistarem Meca, em 630. O líder de Meca era Abu Sufyan ibn Harb, que se converteu ao Islã e ofereceu sua filha Ramla ao ex-inimigo.

 

 

 


              


 

 

 

              Após a conquista de Meca, Maomé teve de lidar com as tribos remanescentes que ainda resistiam ao Islã, mas nenhuma delas foi capaz de oferecer a aguerrida determinação dos senhores de Meca e seus aliados Coraixitas. O Profeta de Alá faleceu dois anos depois da conquista de Meca, porém a presença islâmica encontrava-se coesa na Península Arábica, restando apenas a questão da sucessão ao governo.

               O conflito pela sucessão de Maomé teria como vencedor Abu Bakr, pai de Aisha, a terceira esposa do Profeta. Abu Bakr foi o primeiro líder islâmico a adotar o título de Califa (literalmente “Sucessor” em árabe). Considera-se que o Primeiro Estado Islâmico se converteu no Califado Ortodoxo (também denominado Rashidun) com a ascensão do Primeiro Califa, que lideraria a expansão islâmica pelos próximos anos, assim como seus sucessores.

 

4-Império Gana.

 



 

 

               Seguiremos agora para a África, onde existiu um império poderoso no oeste, trezentos anos depois do nascimento de Cristo. Pouca informação escrita restou sobre esse formidável império que se estendeu sobre o sul da Mauritânia e o oeste do Mali, sobrando uma rica tradição oral a respeito de sua existência.

               O fundador do Império Gana foi um chefe tribal do povo Soninke chamado Dinga, que estabeleceu uma pequena cidade chamada Uagadugu como a primeira capital de seu nascente país. O povo Soninke era descrito como excelente no combate a cavalo, mas o domínio não era mantido pela mão de ferro do governante, e sim com um sistema confederado que dotava as cidades fiéis ao império com autonomia em assuntos locais.

               Gana se encontrava numa área cheia de pastagens, além de minas de ouro e sal, e logo se tornou muito rico, permitindo a construção de uma nova capital chamada Kumbi-Saleh, cujas ruínas seriam encontradas apenas em 1913 pelos europeus. Manter o monopólio do acesso dessas riquezas subterrâneas era a principal função dos governantes em Gana, ao lado do comando do exército.

 



 

 

               O declínio do Império Gana começou em 1076, após a invasão dos Almorávidas, uma dinastia Berbere que dominava o Marrocos. Os Almorávidas não puderam fincar seu domínio na região de forma definitiva, mas o estrago estava feito: Rebeliões internas surgiram após a expulsão dos invasores do norte, e vários reinos e províncias declararam sua independência, fragmentando o domínio Gana sobre a região.

               É inegável que Gana inspirou os grandes impérios que surgiriam mais tarde no oeste africano, como o Mali e o Songhai (falamos dessa nação na segunda lista dos Heróis de Independência Pouco Conhecidos): A exploração do ouro e das rotas comerciais ao lado da autonomia provincial seria imitada por todos os países que viriam depois, em maior ou menor escala. Hoje, o nome Gana sobrevive numa nação ao sul de onde outrora se localizou o Império, e Uagadugu é o nome da capital de Burkina Faso.

 

 

 

5-Rússia de Kiev.

 



 

 

               O próximo integrante desta lista foi a primeira organização estatal dos povos eslavos do leste, bem como um produto da Era Viking. A chamada Rússia de Kiev influenciou de forma significativa as histórias de todos os países que outrora fizeram parte de seu extenso território, além de alimentar nacionalismos furiosos e conflitantes até hoje. Tanto a Rússia como a Ucrânia e Belarus reclamam para si o legado desta nação.

               Durante a Idade Média, a região ocidental da Rússia era entrecortada por grandes rios, planícies e florestas, alimentando o interesse dos Nórdicos em busca de um atalho rumo ao Mar Cáspio rumo à Pérsia. Os entrepostos comerciais montados pelos forasteiros em parceria com as tribos eslavas amistosas se converteriam nas primeiras cidades da região, tais como Novgorod, Moscou e Kiev, que mais tarde se tornaria a capital deste curioso império.

               Os fundadores da Rússia de Kiev foram os guerreiros Rurik e seu sucessor, Oleg, o Sábio. Enquanto Rurik liderou as primeiras expedições colonizadoras, Oleg foi o responsável pela transformação de Kiev na capital do novo país, além de expandir o território por meio da conquista e assimilação das tribos eslavas. O Povo Rus também lutou contra os Cazares ao leste e os Búlgaros ao sul, transformando-se em grandes aliados do Império Bizantino.

 



 

               Foi justamente o contato com Bizâncio que levou o Povo Rus a adotar o Cristianismo Ortodoxo, sob o reinado de Vladimir, o Grande. Esse monarca concordou em abandonar o paganismo numa visita à cidade de Constantinopla; como parte do acordo, Vladimir casou-se com Ana Porfirogênia, irmã do imperador Basílio II.

               Vladimir foi sucedido por seu filho Yaroslav, que defendeu o território Rus dos Pechenegues um povo nômade do leste. Depois de Yaroslav, as rachaduras apareceram na Rússia de Kiev, com o enfraquecimento do comércio e vários príncipes declarando sua independência; surgiram novos domínios e poderes no extenso território, como a República de Novgorod, o Principado de Vladimir-Suzdal e a Galícia-Volínia.

               Os novos estados eram pequenos e desunidos demais para resistir ao avanço do Império Mongol em 1237, gerando um período de submissão que apenas se reverteria em 1480. Ironicamente, a resistência e posterior vitória contra os mongóis devem-se muito a uma cidade considerada pequena demais para ser saqueada na época da invasão: Essa cidade era Moscou, que mais tarde se tornaria sede do Grão-Ducado da Moscóvia, a nação que cresceria até se tornar o Império Russo.

 

6-Yuan do Norte.

 



 

 

               O próximo império na lista é um caso interessante, porque o seu papel de destaque na história não foram suas realizações, e sim o que ele impediu de forma indireta, devido à sua existência. O chamado Yuan do Norte foi um estado remanescente do Império Yuan, uma das divisões do grande Império Mongol. Após o estabelecimento da Dinastia Ming, os mongóis foram obrigados a recuar para sua terra natal, onde os descendentes de Gengis Khan se reorganizaram para não serem dominados pelos antigos vassalos.

               O novo estado foi fundado em 1368 por Toghon Temur, o último imperador mongol que reinou sobre a China, e considerado também o último Grande Khan do Império fundado por Gengis Khan, seguindo a linha tradicional de sucessão. A fragilidade desse estado ficou evidente em diversas ocasiões, com invasões movidas pelos chineses e rivalidades internas; durante um bom tempo os Khans não passavam de figuras decorativas no trono, enquanto senhores da guerra mandavam no Yuan do Norte.

               A situação se inverteria com a ascensão de Dayan Khan, em 1480. Ao lado de sua esposa, chamada Mandukhai, o novo Grande Khan tirou o Yuan do Norte da defensiva e pôs novamente os mongóis no ataque, eliminando clãs hostis e fustigando as posições chinesas instaladas ao norte da Grande Muralha. O Yuan do Norte recuperou diversas tribos que se aliaram aos chineses, e expandiu seu território até o Lago Baikal na Sibéria.

               O reinado de Dayan Khan e Mandukhai foi tão bem-sucedido que alguns historiadores falam numa “segunda reunificação” durante sua época, provavelmente a melhor fase da dinastia. Nessa época o Budismo também se tornou a religião dominante na Mongólia, enquanto o tradicional xamanismo era deixado para trás.

 



 

               Em 1600 em diante, o Yuan do Norte voltou a mergulhar em conflitos internos crônicos, enquanto a China foi dominada pelos Manchus da Dinastia Qing, que logo voltaram seus arcos e mosquetes à Mongólia. A Dinastia Ming e o Yuan do Norte caíram sob o domínio Manchu praticamente na mesma época, entre 1635 e 1644, tornando seus respectivos fins especialmente irônicos.

               Apesar de não deter a mesma força de seu antecessor imediato, nem se destacar em grandes conquistas, é inegável que o Yuan do Norte mudou a história do mundo ao oferecer um desafio à China. Os ataques movidos por Dayan Khan ocorreram numa época em que a China buscava se expandir pelos oceanos de forma parecida com portugueses e espanhóis na mesma época; isso obrigou os soberanos Ming a focarem seus esforços contra os inimigos ao norte da Muralha, impedindo-os de participarem das Grandes Navegações.

 

7-Estado Borgonhês.

 



 

 

               Entre os anos de 1384 e 1482 existiu um território nos atuais Países Baixos que em tese encontrava-se governado por vassalos do Rei da França, mas na prática era uma nação independente. O chamado Estado Borgonhês foi um dos maiores poderes políticos, militares e culturais da Europa no Século XV, mas simplesmente desapareceu no início da Era das Grandes Navegações. No rastro de sua partilha surgiu a rivalidade entre as famílias reais de Valois, da França, e os Habsburgos, que governavam a Espanha e o Sacro Império Romano.

               A história do Estado Borgonhês é longa, então focaremos apenas no período em que essa entidade efetivamente agiu como se fosse uma nação independente. O arquiteto da autonomia borgonhesa foi o duque João Sem Medo, que assumiu a liderança da Borgonha em meio à Guerra dos Cem Anos e à Guerra Civil que retalhou a França em facções pró-monarquia e favoráveis à autonomia de certos domínios.

               Os borgonheses compreensivelmente apoiavam a vertente descentralizadora, e João Sem Medo pagou com sua vida numa negociação realizada numa ponte em Paris, após ser (supostamente) morto à traição. Seu filho, Felipe, jurou vingança pelo ocorrido, aliando-se aos ingleses a partir de 1420, além de capturar e entregar Joana D’Arc aos seus “novos amigos”, dez anos depois. Felipe não permaneceria aliado aos ingleses por muito tempo, e logo mudaria de lado cinco anos depois da captura da Donzela de Orleans.

 

 



 

 

               Depois de auxiliar os franceses e apoiar uma revolta conhecida como Praguerie, Felipe se afastou dos assuntos ao oeste, agindo como um líder independente e expandindo o território borgonhês. Sua corte era suntuosa, provavelmente a mais sofisticada da Europa na época. Em seu auge, a Borgonha se estendia dos Países Baixos até o centro-leste da França; o exército borgonhês também era poderoso, com tropas pagas regularmente, além de canhões e arcabuzes em grande quantidade.

               Essa potência nascente seria destruída pelas ambições do sucessor de Felipe, Carlos o Temerário, que morreu depois de invadir a Suíça, esgotando o poderio militar borgonhês. As cidades da Holanda e Bélgica também se ressentiam de um domínio centralizado, e em pouco tempo o domínio fragmentado seria partido entre uma França cada vez mais forte e o Sacro Império dos Habsburgos.

               O lugar do Estado Borgonhês na historiografia da Bélgica é interessante: Durante o Século XIX, quando os Belgas se tornaram independentes da Holanda (falamos desse episódio na lista das Constituições mais Antigas ainda em Vigor), a Borgonha era vista como um “ancestral” do país, numa visão nacionalista da história. Essa situação se inverteria no Século XX, com historiadores belgas declarando ironicamente que foi o fim do Estado Borgonhês a razão pela qual a Bélgica existiria mais tarde como nação.

 

8-Império Srivijaya.

 



 

 

               Seguindo rumo ao Sudeste Asiático, encontraremos agora uma Talassocracia (poder marítimo) que definiria a história de países como a Indonésia, a Malásia e muitos outros. O chamado Império Srivijaya, também chamado Serivijaya, foi a primeira grande nação do Arquipélago Malaio a se beneficiar do Estreito de Malaca, vital para o comércio entre a China e as Índias, além de servir com um importante centro budista.

               Poucas evidências físicas restaram de Srivijaya, restando apenas os testemunhos de viajantes chineses e relatos orais em Sumatra, a maior e mais ocidental das ilhas que compõem a atual Indonésia. Sabe-se que o núcleo inicial desse império surgiu no Século VII, perto da moderna cidade de Palembang, no sul de Sumatra. A acanhada cidade-estado tem como fundador o rei Jayanasa, que também começou a expansão do país.

               Em seu auge, Srivijaya dominou toda a Sumatra, além da Península Malaia ao norte, o oeste de Bornéu e metade da ilha de Java, sob a enérgica Dinastia Sailendra. O império era forte o bastante para ameaçar vizinhos, como o Império Khmer e os Champas do Vietnã, mas seu grande inimigo foi o Reino de Medang, que ocupava o leste de Java. Srivijaya e Medang guerrearam entre si até 1016, quando o reino do leste colapsou sob o poderio do rival mais rico e poderoso.

 



 

               A vitória sobre Medang foi a última glória de Srivijaya, porque um adversário mais forte veio do leste, no sul da Índia: Em 1025, o rei Rajendra do Império Chola invadiu Srivijaya, com o objetivo de proteger o Império Khmer, aliado dos indianos. O aguerrido monarca lançou o que provavelmente foi a maior expedição naval do sudeste asiático durante a era medieval, e arrebentou com uma nação que já sofria com a constante pirataria e o enfraquecimento de sua marinha, ocupada em inúmeras frentes.

               O sucessor de Srivijaya foi Melayu, um dos primeiros reinos a declarar independência diante da fraqueza de seus suseranos. Praticamente todos os grandes impérios do Arquipélago Malaio adotaram o sistema de Srivijaya, focando no comércio em áreas estratégicas e uma poderosa força naval. Alguns destes estados sucessores foram Singhasari, Majapahit e os Sultanatos de Malaca e Brunei.

 

9 e 10-Províncias Unidas da Nova Granada e Estado Livre de Cundinamarca.

 



 

 

               Para finalizar esta lista eu escolhi duas nações que existiram ao mesmo tempo e que acabaram numa destruição mútua, abrindo um precedente sombrio na América Latina. Os dois países surgiram como facções rivais na atual Colômbia, então nomeada como Vice-Reinado de Nova Granada, e seu breve período de existência entre 1810 e 1815 é conhecido como a “Pátria Boba” na história desta nação.

               Para compreender melhor o ocorrido é necessário puxar da memória as aulas sobre a Independência da América Espanhola, e o surgimento das primeiras Juntas, ou governos autônomos nos territórios de Ultramar. Em resposta à captura do rei espanhol Fernando VII, os latino-americanos estabeleceram seus próprios governos regionais, e não demorou a surgirem rivalidades entre eles.

               Na Nova Granada foi proclamada uma Junta que resultou nas Províncias Unidas, de cunho federalista, sob a liderança de José Miguel Pey, considerado historicamente o primeiro presidente da Colômbia. Apesar de a independência entrar nos planos da maioria dos líderes, havia uma grande divergência sobre a forma que o novo estado deveria ter; em resposta ao projeto federalista, e também por temer a perda da hegemonia de Bogotá, Antonio Nariño proclamou a independência de Cundinamarca.

 



 

               Entre 1811 e 1813 ocorreu uma guerra entre os federalistas, chamados de “Carracos”, e os centralistas, apelidados de “Patiadores”. A vitória do primeiro grupo foi breve, pois os espanhóis reconquistaram Nova Granada, e não sairiam até 1819, quando os colombianos se reorganizaram sob a liderança de Francisco de Santander, contando com o importante apoio dos venezuelanos de Simon Bolívar.

               O legado da “Pátria Boba” serviu como advertência aos líderes independentistas da América Latina, e também abriu um precedente funesto na história da Colômbia, com suas frequentes guerras civis e insurreições. Há quem afirme que os Federalistas e Centralistas foram em sua época o que mais tarde se tornariam os partidos Conservador e Liberal, que também mancharam de sangue a jornada conturbada deste país.

 

Texto escrito por Mateus Ernani Heinzmann Bülow.

 

Mateus é Bacharel em Direito, escritor e colunista do blog “Recanto da Escritora”.

 

Confira os textos do Mateus que foram citados na postagem do blog:

 

 

10 Constituições antigas que continuam em vigor


https://poetisataty.blogspot.com/2019/06/10-constituicoes-antigas-que-continuam.html

 

 

10 Heróis de Independência pouco conhecidos – parte 2

 

https://poetisataty.blogspot.com/2021/09/10-herois-de-independencia-pouco.html

 


Confira os livros publicados pelo escritor (disponíveis na Amazon):

 

 

Taquarê – Entre a Selva e o Mar




 

 

Taquarê – Entre um Império e um Reino




 


 

 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

10 Gêneros e Estéticas da Fantasia e Ficção Científica

 

10 Gêneros e Estéticas da Fantasia e Ficção Científica.





O nosso colunista Mateus Ernani Heinzmann Bülow preparou um texto sobre os gêneros da Fantasia. Se você gosta de ler obras com enredos fantasiosos, saiba identificar o gênero dos seus livros prediletos. E, caso você seja um escritor, o artigo servirá como base para a construção do seu estilo. Boa leitura!

 

1-Tupinipunk.

 



 

               O primeiro gênero do qual trataremos é derivado da rica tradição cultural brasileira, associada ao futurismo e ao irreal e mágico. Entretanto, é preciso estabelecer uma fronteira importante aqui: O Tupinipunk não se confunde com o chamado Realismo Mágico comum à literatura Latino Americana que surgiu na década de 1960. Aqueles autores, como Érico Veríssimo e Gabriel Garcia Marques, tinham um objetivo diferente ao retratar acontecimentos excêntricos em suas obras.

               A etimologia do Tupinipunk se refere a Tupiniquim, um termo genérico para qualquer coisa vinda do Brasil (às vezes com significado pejorativo), e também uma das primeiras tribos a se aliarem aos portugueses na construção do que se tornaria o maior país da América do Sul. Podemos afirmar que esse gênero é uma aliança da cultura brasileira com a fantasia e a ficção especulativa em geral.

               Considera-se que a primeira obra de fantasia brasileira foi A Luneta Mágica, de Joaquim Manuel de Macedo, o autor de A Moreninha, e outros escritores nacionais também se aventuraram no gênero, como Machado de Assis e Guimarães Rosa. No entanto, a estética Tupinipunk surgiu na virada do último milênio desafiando obras de fantasia e ficção de países dominantes no meio cultural, como os EUA, França e Reino Unido. A “jornada” dos autores desse gênero não difere muito dos pioneiros da Semana de Arte Moderna de 1922.

 



 

               Como ocorre com frequência nos inúmeros gêneros da ficção especulativa, já existem subdivisões no Tupinipunk: É o caso do Amazofuturismo, misturando ficção científica com as tradições amazônicas, e o Cyberagreste, também chamado Sertãopunk, que mistura tradições nordestinas com Cyberpunk. Uma obra que poderia ser associada (ainda que de forma tênue) ao Cyberagreste/Sertãopunk é Zé Calabros na Terra dos Cornos, de Tiago Moreira, uma parte das chamadas Crônicas Anímicas.

 



 

               Provavelmente a obra que mais inspirou o Tupinipunk foi o livro Macunaíma, de Mário de Andrade, com sua mistura impressionante de folclore, surrealismo e pura Fantasia desenfreada. Diversos autores que poderiam ser vistos como arautos do Tupinipunk já apareceram em análises neste blog, como é o caso de André Zanki Cordenonsi, Enéas Tavares e Gabriel Billy Castilho. O próprio autor do presente artigo escreveu duas obras que poderiam fazer parte do gênero Tupinipunk.






 

               Um possível “aliado” na divulgação do Tupinipunk como gênero é uma estética que se popularizou na internet, chamada Brazilcore, baseada nas cores nacionais e em elementos familiares a todo brasileiro. Inicialmente vista como simples moda entre os estrangeiros, o Brazilcore utiliza músicas e objetos como pratos de vidro escuro, filtros de barro, culinária regional entre outros aspectos. Até mesmo animais e memes entraram no Brazilcore, como é o caso da capivara e do vira-lata caramelo.

 

2-Afrofuturismo.




 

               O segundo gênero nesta lista também faz referência a uma localização geográfica e cultural, porém ele não trata de uma nação, e sim de um continente inteiro e seus dilemas quanto ao futuro. O Afrofuturismo, grosso modo, trata-se de uma combinação da cultura africana com temáticas futuristas e uma boa dose de Fantasia clássica, devidamente adaptada à realidade desses países.

               Os autores considerados pioneiros no Afrofuturismo foram Samuel Delany e Octavia Butler, que se destacaram na chamada “Nova Onda” da Ficção Científica da década de 1960 e influenciaram diversos arquétipos do gênero. Outra influência importante ao gênero durante esse período foi a luta pelos Direitos Civis nos EUA, movida por Martin Luther King e outros líderes que buscavam acabar com a discriminação racial imposta por leis.

 



 

               Durante muito tempo o Afrofuturismo foi um território dominado pelos americanos de origem africana, porém recentemente surgiram autores em outros países, como Namina Forna de Serra Leoa, Marlon James na Jamaica e Karen Lord, nascida em Barbados. A Nigéria também ofereceu uma leva interessante de autores que se aventuram pelo gênero, como Tomi Adeyemi, Ben Okri e Amos Tutuola.

               Existem duas ironias interessantes no Afrofuturismo: A primeira delas envolve o responsável pela criação do termo, um crítico americano chamado Mark Dery, um homem branco sem ancestrais africanos. A segunda ironia diz respeito a alguns temas comuns no Afrofuturismo, derivados da “Nova Onda”: O feminismo e o combate ao preconceito contra homossexuais. Diversos países africanos possuem costumes, tradições e leis que seriam consideradas sexistas e homofóbicas aos olhos do ocidente.

 





               A obra mais popular no Afrofuturismo provavelmente é Pantera Negra, um super-herói da Editora Marvel, criado em 1966. O personagem é o monarca de um reino africano isolado e altamente tecnológico chamado Wakanda (falamos deste país na lista de Nações Fictícias da Literatura), e suas histórias combinam elementos de ficção científica e fantasia nos enredos, passando por viagens espaciais a conflitos contra deuses e espíritos.

 

3-Espada e Feitiçaria.

 



 

               Agora voltaremos aos primórdios da Fantasia, com o olhar direcionado às publicações de revistas Pulp, então consideradas “inferiores” em qualidade e valor literário. Aqui nasceu um gênero que foi reescrito, reinterpretado e parodiado, porém nunca ignorado, além de contar até hoje com defensores incansáveis, como este autor que vos fala.

               Também chamada Fantasia Heroica, o gênero de Espada e Feitiçaria (Sword and Sorcery, no original em inglês) pode ser descrito como uma fantasia “pé no chão”, onde o que realmente importa na história são os objetivos pessoais dos personagens, quase sempre valentes guerreiros em busca de riquezas e gratificações imediatas; apesar de seguirem seus interesses materiais, os protagonistas são dotados (na maioria das vezes) de um código pessoal de honra.

 




               Os protagonistas tradicionais de Espada e Feitiçaria são aventureiros viajantes, como caçadores em busca de tesouros perdidos, ou mercenários procurando serviços que paguem bem. Os conflitos raramente envolvem o destino de todo o mundo onde se passa a história, e muitas vezes eles ocorrem por culpa dos próprios humanos e suas intrigas diárias. Devido ao aspecto “mundano”, as histórias de Espada e Feitiçaria raramente são longas, o que as tornam ideais às publicações em revistas Pulp.

               Em comparação com obras de Alta Fantasia (High Fantasy, em inglês), as ameaças nas histórias de Espada e Feitiçaria são relativamente “pequenas”, porém ainda terríveis. Os elementos mais bizarros e sobrenaturais surgem como uma consequência do conflito, e não é raro ver o usuário de magia (quase sempre um antagonista) ser punido por seu envolvimento com forças além da compreensão humana.

 

 


 

               Outro elemento comum à Espada e Feitiçaria é a presença de donzelas em apuros que precisam ser resgatadas de feiticeiros, monstros e outros perigos. Devido à presença constante das moças em perigo, o gênero já foi acusado de “misógino”, a despeito da presença de muitas mulheres guerreiras em suas páginas. Autores como Robert Ervin Howard, Fritz Leiber e Clark Ashton Smith nutriam simpatia pelo movimento feminista da década de 1930.

               Apesar de repetitivo em sua estrutura, o gênero da Espada e Feitiçaria se beneficia de uma surpreendente versatilidade quanto aos mundos onde ocorrem as aventuras. Existem histórias de Espada e Feitiçaria que ocorrem em nosso mundo, em mundos de fantasia, e até mesmo em ambientes pós-apocalípticos, contando com elementos como feras alienígenas, robôs e armas laser.

 



 

               Provavelmente nenhum protagonista de Espada e Feitiçaria supera a fama de Conan, o guerreiro Cimério criado por Robert Ervin Howard, que também criou o caçador Solomon Kane, o Rei Atlante Kull e a mercenária francesa Dark Agnes de Chastillon. Outros personagens que se destacam são Fafhdr e Rato Cinzento, criados por Fritz Leiber, um autor que cunhou o nome do gênero; o Bárbaro Brak, de John Jakes; o espadachim albino Elric de Melniboné, uma invenção do britânico Michael Moorcock, entre muitos outros.

 



 

               Apesar de ser visto como um gênero “datado”, a Espada-e-Feitiçaria sobreviveu aos tempos modernos, adaptando-se à nova cultura popular. Um exemplo disso é a série Witcher, criada pelo autor polonês Andrzej Sapkowski, sobre um caçador de recompensas meio-bruxo, que já virou videogame e série na Netflix. Algumas Light Novels japonesas e mangás também carregam elementos de Espada e Feitiçaria em seus enredos.

 

4-Space Opera.

 



 

               O próximo gênero nessa lista nos levará mais além, rumo às estrelas, porém ainda manteremos um pé na terra, ou ao menos na natureza humana. Assim como o Gênero da Espada e Feitiçaria, a Space Opera passou por inúmeras reinterpretações e paródias, porém continua firme e forte na cultura popular, com diversas obras relembradas com grande estima e carinho pelos fãs mais fiéis.

 

 


 

               A origem do termo Space Opera deve-se às chamadas “Soap Operas”, como eram chamadas as novelas da época do rádio nos EUA, e sua origem possui teor pejorativo. O criador do termo foi o autor de ficção científica Wilson Tucker, que observou uma curiosa “repetição” de temas em aventuras espaciais das revistas Pulp da época. Tucker comentava que havia pouca ciência e muitas aventuras bizarras de Espada e Feitiçaria sob a roupagem de Ficção Científica.




 

               De certa forma, a Space Opera está para a Ficção Científica o que a Espada e Feitiçaria representam à Fantasia: O universo interno não interessa tanto ao autor e seus leitores quanto as inúmeras aventuras e atos de heroísmo, intrigas e reviravoltas. Pouco importa se as leis da física são desafiadas ou violadas na trama, porque não estamos aqui para aprender ciência, e sim para torcer pela vitória dos heróis.

 



 

               Quando se lê algumas obras americanas mais antigas da Space Opera, fica notável a influência de outros gêneros, em especial o Faroeste, ou Western, com seus tiroteios e situações mirabolantes. A Space Opera também originou gêneros derivados como o Romance Interplanetário, focado em relacionamentos entre espécies diferentes. Outro derivado com óbvia influência da Espada e Feitiçaria chama-se justamente Espada e Planeta, aonde os clichês da fantasia vão ao Infinito e Além.

 




               Entre os americanos, o autor considerado pioneiro do que seria chamado Space Opera foi Edward Elmer Smith, um engenheiro alimentar e criador das séries Lensman e Skylark. Praticamente todos os elementos clássicos do gênero se encontram nessas obras, desde as batalhas no espaço até os patrulheiros galácticos responsáveis pela defesa da lei e da ordem entre mundos e asteroides.

 



 

               Uma obra considerada como “ancestral” da Space Opera foi uma paródia escrita pelo autor greco-romano Luciano de Samósata, chamada História Verdadeira. Nessa obra bizarra escrita no Século II DC, Luciano satiriza relatos exagerados de viajantes, criando uma aventura mirabolante que começa no oceano e vai ao espaço sideral, onde é possível “velejar” usando ventos cósmicos. Em História Verdadeira ocorre uma guerra entre os Reinos do Sol e da Lua pelo domínio de Vênus, talvez a primeira guerra entre mundos da literatura mundial.





               A obra de Space Opera mais popular hoje provavelmente é Guerra nas Estrelas, que dispensa maiores apresentações. Outras obras de destaque são Duna, do autor americano Frank Herbert; Perry Rhodan, escrita por vários autores alemães; Barsoom, de Edgar Rice Burroughs (mais lembrado como o criador do Tarzan); Flash Gordon, de Alex Raymond; Cruzador Espacial Yamato, do japonês Leiji Matsumoto. No Brasil, poderíamos citar A Princesa e o Robô e Cassiopeia como dois exemplares de Space Opera no cinema.

 

5-Fantasia Sombria.




 

               O próximo gênero talvez seja a variável mais antiga no amplo leque da Fantasia, e continua forte na cultura popular moderna. A Fantasia Sombria (Dark Fantasy, no original em inglês) também é chamada de Grimdark ou Fantasia Gótica, e se destaca nos temas sombrios, muitas vezes pesados e desagradáveis em seus enredos ou no clima e no folclore interno da aventura.

 




 

               A Fantasia sempre tratou de aspectos de nossa realidade por meio do imaginário, transformando temores em criaturas ou perigos, e na variante sombria esse teor sombrio e macabro é mais intenso, refletindo nos cenários e nos personagens: Na Fantasia Sombria, os castelos em ruínas ostentam arquitetura gótica, os dragões são mais feios, e as donzelas possuem malícia. Esse aspecto muitas vezes reflete um clima de decadência e perda, de uma grande era dourada que ficou para trás, deixando apenas ruínas.






 

               Nas histórias de Fantasia Sombria, a vitória dos heróis (muitas vezes anti-heróis) é obtida com sacrifícios inimagináveis, incluindo mortes de amigos e aliados pelo caminho, deixando um final agridoce ou amargo. Os heróis nem sempre são bons samaritanos ou “amigos da vizinhança”, e não é difícil ver antagonistas que são verdadeiros monstros imorais, capazes de torturas, estupros e até mesmo genocídios.

 







 

               Considera-se hoje que a primeira autora de Fantasia Sombria foi Gertrudes Barrows Bennett, uma escritora que atuou entre 1917 e 1923 e se destacou com sua história curta A Cidadela do Medo. Os criadores da expressão, entretanto, vieram muito tempo depois dessa autora; seus nomes eram Charles Lewis Grant e Karl Edward Wagner, e suas obras publicadas entre as décadas de 1970 a 1990 possuem grande influência do Gótico e horror.




 

               A influência do gênero Horror é inegável na Fantasia Sombria, um detalhe que torna a classificação difícil de ser contida em termos fixos ou fórmulas pré-estabelecidas. Tomemos como exemplo a saga da Torre Negra, do americano Stephen King: Os elementos de terror são óbvios na aventura do pistoleiro Roland e seus amigos, mas a essência da aventura e do heroísmo continua visível. Muitos escritores especializados em horror também se arriscam na Fantasia Sombria, como forma de atingir um mercado maior.

 



 

               Devido à amplitude do gênero, não é raro ver obras anteriores à década de 1990 serem posteriormente rotuladas como representantes da Fantasia Sombria. Exemplos desses “recém-chegados de longa data” incluem filmes como A História sem Fim (1984), Conan o Bárbaro (1982), A Lenda (1985), Labirinto – A Magia do Tempo (1986); O Cristal Encantado (1982). Até filmes da Disney entraram no gênero, como Branca de Neve (1937), Pinóquio (1940), Bela Adormecida (1959), Bela e a Fera (1991), entre outros.





 

https://www.youtube.com/watch?v=EtydeMS7bCA&t=7s

 

               O gênero da Fantasia Sombria passou por uma curiosa ressurgência nos últimos anos, graças à internet. Por meio de plataformas de vídeos e músicas, uma geração nova conheceu compositores ativos nos anos de 1980 até 2010, que se especializaram num gênero conhecido como Dungeon Synth (literalmente, “Sintetizador de Masmorra”), que mistura a música eletrônica com referências às obras clássicas de Fantasia, destacando o aspecto sombrio dessas histórias.

 





               Outra novidade tecnológica que trouxe a Fantasia Sombria de volta à atenção do público geral foi a arte de Inteligência Artificial, que logo caiu nas graças de muita gente. Hoje em dia é fácil encontrar reinterpretações de desenhos animados e filmes com um visual mais “Dark”, indo desde Hora de Aventura até Bob Esponja, para citar alguns exemplos.




 


 

               No Brasil, um bom exemplar de Fantasia Sombria é Cemitério de Dragões, a primeira parte da saga do Legado Ranger, de Raphael Draccon, mais conhecido hoje como o roteirista de Cidade Invisível. O mundo fantástico nesse livro passou por muitos desastres e caos, tornando-o uma mera sombra de sua era dourada.

 

6 e 7-Mundo Perdido e Ficção Subterrânea.

 



 

               O próximo gênero possui um histórico curioso, porque de certa forma ele sempre existiu na literatura, porém se solidificou na segunda metade do Século XIX, um período de grande expansão dos países do ocidente sobre o resto do mundo. O avanço notável no estudo de civilizações perdidas nessa época (com destaque para o Egito e a Babilônia) também contribuiu para que os autores se arriscassem na concepção desse gênero, que teve seu auge entre os anos de 1880 até a Primeira Guerra Mundial.

               O Mundo Perdido é basicamente um gênero focado na descoberta e exploração de novos lugares, outrora desconhecidos ou inacessíveis, até o dia em que valentes exploradores (obviamente vindos do mundo civilizado) ousaram cruzar a barreira e descobrir o que se esconde por detrás da selva, das montanhas ou mesmo no centro da terra. Essa última variante às vezes é denominada Ficção Subterrânea, e possui suas próprias convenções típicas no enredo e outros elementos.





               Considera-se que a primeira obra de Mundo Perdido foi As Minas do Rei Salomão, de Henry Rider Haggard, sobre um grupo de aventureiros procurando pelas fabulosas minas sob a liderança de Allan Quatermain, um personagem tão popular que apareceria em quatorze livros do mesmo autor. Na época, o interior da África ainda era desconhecido pelos europeus, então era razoável imaginar que grandes mistérios ainda se escondiam no continente.





               O estilo da narrativa de Sir Haggard inspiraria outros autores, como Rudyard Kipling, Edgar Rice Burroughs (olha ele aí de novo) e até mesmo Arthur Conan Doyle, o criador do Sherlock Holmes, que escreveu uma aventura chamada justamente de O Mundo Perdido. Essa aventura tem como “palco” os cerros achatados na fronteira do Brasil com a Venezuela, e foi uma das primeiras aventuras a usar dinossauros como elemento essencial ao enredo, algo que se repetiria em inúmeras histórias do gênero.

 




               Embora várias histórias de aventuras subterrâneas já existissem antes do Século XIX, é inegável a importância de Viagem ao Centro da Terra ao gênero, no âmbito da popularização. Em sua curiosa aventura do professor Otto Lidenbrock e seu sobrinho Axel, Júlio Verne também inseriu a ideia dos seres pré-históricos sobrevivendo aos nossos dias, um conceito explorado por Doyle no Mundo Perdido, como visto anteriormente, e Burroughs em sua obra Pellucidar.

 



 

               O Mundo Perdido sempre foi associado ao lado aventureiro da fantasia, mas existem enredos mais calmos e filosóficos em seu bojo. Um exemplo é Horizonte Perdido, de James Hilton, sobre uma civilização perdida nas montanhas do Tibete, onde as pessoas vivem quase eternamente, desde que nunca saiam da cidade de Shangri-La. A influência de lendas como Shambala e Agartha é notável em Horizonte Perdido.

               Assim como a Espada e Feitiçaria e a Space Opera, o gênero do Mundo Perdido já foi acusado de perpetrar estereótipos negativos. A acusação mais frequente atribui ao gênero o uso frequente de visões “ultrapassadas” e preconceituosas de povos fora da Europa, como os africanos, indígenas, polinésios e indianos. Existe algum fundamento nessas críticas, porém é importante lembrar que tais histórias permitiram que esses povos “exóticos” tivessem seu lugar de fala diante do mundo, pela primeira vez.

 





               No Brasil podemos listar como exemplo do Mundo Perdido (e também da Ficção Subterrânea) o livro A Montanha Encantada, de Maria José Dupré, publicado em 1945. Nessa aventura, os amigos Oscar, Vera, Lúcia, Quico e Cecília veem um brilho estranho no topo de uma montanha próxima ao sítio onde passam o fim de semana, e descobrem uma civilização de anões mineradores de ouro. Outro exemplo nacional é o filme dos Trapalhões na Terra dos Monstros, que fala de uma civilização oculta sob a Pedra da Gávea no Rio de Janeiro.

 

8 e 9-Wuxia e Xianxia.

 



 

               Saindo das terras perdidas e rumando ao Oriente, encontramos um gênero nascido na China, que conquistou o mundo por sua simplicidade aliada à sofisticação. Possivelmente o Wuxia está entre os mais antigos gêneros literários do mundo, levando em consideração a história milenar da China.

               A palavra “Wuxia” é uma combinação de “militar” (Wu) e “cavalheiresco” (Xia), e dessa forma o gênero se apoia em seus heróis: Aventureiros errantes que viajam de uma vila a outra, lutando contra bandidos, autoridades corruptas, e até mesmo feiticeiros e monstros típicos da mitologia chinesa.

               Os primeiros contos do Wuxia foram baseados em histórias coletadas pelo filósofo Han Fei, que viveu entre 280 e 233 Antes de Cristo. Esses contos falavam de aventureiros, monges bandidos, mercadores e soldados desertores que lutavam contra todo tipo de ameaça, quase sempre um perverso Mandarim (como são chamados os burocratas na China) que oprime a população de uma cidade ou vila.

 



 

               O código de honra dos heróis no Wuxia quase sempre faz referência (ainda que indireta) aos valores tradicionais do Confucionismo, mesmo quando os protagonistas são individualistas em seus objetivos pessoais. Outro elemento importante enfatizado nas histórias é a obediência e lealdade ao mestre, que muitas vezes serve de figura paterna ao protagonista em sua jornada.

               Às vezes a ameaça a ser combatida possui elementos sobrenaturais, tornando muitas histórias do gênero bem parecidas com a Espada e Feitiçaria em sua composição. A variação do gênero com ênfase nos elementos sobrenaturais é denominada Xianxia, um subgênero dentro do Wuxia, e elementos como reencarnação, imortalidade e alquimia são recorrentes em suas tramas. Um exemplo de Xianxia é o filme dos Aventureiros do Bairro Proibido, que conta com uma análise neste blog.

               Quase todas as aventuras do Wuxia se passam no longo período monárquico chinês, com suas inúmeras Dinastias, porém não foi difícil adaptar o discurso de “luta de classes” à ideologia do Partido Comunista Chinês. Ironicamente, o Wuxia também foi aplicado contra os atuais governantes da República Popular da China, com sua mentalidade de desafio aberto às figuras de autoridade.







               Boa parte das histórias mais populares do Wuxia e Xianxia foi escrita durante a Dinastia Ming (1368-1644), um período de grande produção literária. Três exemplos são o Romance dos Três Reinos, de Luo Guanzhong; Jornada para o Oeste, de Wu Cheng’en; e A Margem da Água, de Shi Nai’an. Essas três obras tiveram inúmeras adaptações que alcançaram o ocidente, e também inspiraram obras em nações próximas da China, como o Japão, Coreia, Vietnã e Tailândia.

 

 

 



 

               O sucesso do Wuxia e do Xianxia ao redor do mundo deve-se muito à adoção da economia de mercado por parte da China a partir de 1978, e também ao crescimento e prosperidade que vieram como consequências desse período, permitindo a exploração do gênero em outras mídias, incluindo filmes, seriados de televisão e videogames. Um exemplo recente é o game Black Myth Wukong, baseado na Jornada para o Oeste, um sucesso de venda e crítica.

 

 


 

               No Brasil, o exemplo mais próximo de um “Wuxia” (se considerarmos a influência do gênero no Japão e na comunidade nipo-brasileira) provavelmente foi um herói chamado O Judoka, que nasceu nos quadrinhos em 1969 e até recebeu um filme em 1973. O personagem foi criado por Adolfo Aizen, um russo naturalizado brasileiro, e seu nome verdadeiro é Carlos da Silva. Após ser treinado pelo Mestre Minamoto, o Judoka parte ao combate ao crime, recebendo ajuda de outros personagens baseados nas artes marciais.

 

10-Hopepunk.




 


               O último gênero que trataremos na lista é o exato oposto da Fantasia Sombria, e também serve como um exemplo interessante de como o ato de revolta de uma geração se converte no habitual de outra geração, e vice-versa. O Hopepunk é um gênero da Fantasia que se destaca pelo otimismo, e pela ideia de que as coisas ficarão melhores, ou pelo menos estáveis, ao longo do caminho. Ele também surgiu como uma resposta ao Grimdark.

               O termo Hopepunk (literalmente “Punk da Esperança”), também chamado Noblebright (“Luz Nobre”) foi cunhado por Alexandra Rowland em 2017, numa postagem da rede social Tumblr, apresentando-o como uma alternativa ao Grindark. Mais tarde ela expandiria o conceito, utilizando a frase “Um Átomo de Justiça, uma Molécula de Misericórdia, e um Império de Facas desembainhadas”. A citação, apesar de vaga, deixava evidente a ideia da vitória obtida aos poucos, e a cooperação no lugar do conflito.

               A estética do Hopepunk busca se afastar da Fantasia Sombria, com suavização na aparência das criaturas, dos castelos e outros elementos comuns no gênero, porém sem cair no otimismo ingênuo e infantil. A ideia principal do Hopepunk não afirma que a vitória do Bem ocorrerá de forma inevitável, e sim que ela Pode Acontecer; mas para isso deve haver um grande esforço, além de cooperação, estratégia e visão de longo prazo.

 



 

               O aspecto mais importante do Hopepunk é a Insatisfação, que permite o surgimento de uma resposta, às vezes agressiva, porém contundente. O maior adversário dos entusiastas desse gênero não é a Fantasia Sombria, e sim a inércia e apatia surgida dela, quando a falta de perspectiva fala alto demais. Alguns autores falam nos “Três Erres” que compõem o gênero: Resistência, Rebelião e Resiliência, enquanto outros comentam sobre uma possível influência do Catolicismo no Hopepunk, devido aos “Três Erres”.

               A década de 2020 em diante foi o pontapé inicial rumo à popularização do Hopepunk, com o declínio da literatura distópica focada nos jovens. Uma combinação especialmente perversa de notícias pessimistas sobre crises econômicas, aquecimento global e a pandemia deixaram o público sedento por uma distração mais suave, ou que pelos menos não refletisse as angústias que os afligiam naquele momento difícil.

 



 

               Por ser um gênero considerado recente, ainda existe discussão sobre como seria uma verdadeira literatura Hopepunk, e alguns livros clássicos entraram na lista, como é o caso do Senhor dos Anéis, Harry Potter e as Crônicas de Nárnia. Trabalhos baseados em contos de fadas, como os filmes da Disney, também entraram no rol de obras Hopepunk.


Texto escrito por Mateus Ernani Heinzmann Bülow.


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Mateus é Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Santa Maria (FADISMA), escritor e colunista do blog "Recanto da Escritora". Ele é o autor de dois livros de fantasia (disponíveis para compra na Amazon):


Taquarê - Entre a Selva e o Mar






Taquarê - Entre um Império e um Reino