10 Gêneros e Estéticas da
Fantasia e Ficção Científica.
O nosso colunista Mateus Ernani
Heinzmann Bülow preparou um texto sobre os gêneros da Fantasia. Se
você gosta de ler obras com enredos fantasiosos, saiba identificar o gênero dos seus livros prediletos. E, caso você seja um escritor, o artigo servirá como base para a construção do seu estilo. Boa leitura!
1-Tupinipunk.
O primeiro gênero do qual trataremos é derivado da
rica tradição cultural brasileira, associada ao futurismo e ao irreal e mágico.
Entretanto, é preciso estabelecer uma fronteira importante aqui: O Tupinipunk
não se confunde com o chamado Realismo Mágico comum à literatura Latino
Americana que surgiu na década de 1960. Aqueles autores, como Érico Veríssimo e
Gabriel Garcia Marques, tinham um objetivo diferente ao retratar acontecimentos
excêntricos em suas obras.
A etimologia do Tupinipunk se refere a Tupiniquim, um
termo genérico para qualquer coisa vinda do Brasil (às vezes com significado
pejorativo), e também uma das primeiras tribos a se aliarem aos portugueses na
construção do que se tornaria o maior país da América do Sul. Podemos afirmar
que esse gênero é uma aliança da cultura brasileira com a fantasia e a ficção
especulativa em geral.
Considera-se que a primeira obra de fantasia
brasileira foi A Luneta Mágica, de Joaquim Manuel de Macedo, o autor de A
Moreninha, e outros escritores nacionais também se aventuraram no gênero, como
Machado de Assis e Guimarães Rosa. No entanto, a estética Tupinipunk surgiu na
virada do último milênio desafiando obras de fantasia e ficção de países
dominantes no meio cultural, como os EUA, França e Reino Unido. A “jornada” dos
autores desse gênero não difere muito dos pioneiros da Semana de Arte Moderna
de 1922.
Como ocorre com frequência nos inúmeros gêneros da
ficção especulativa, já existem subdivisões no Tupinipunk: É o caso do Amazofuturismo,
misturando ficção científica com as tradições amazônicas, e o Cyberagreste,
também chamado Sertãopunk, que mistura tradições nordestinas com Cyberpunk. Uma
obra que poderia ser associada (ainda que de forma tênue) ao
Cyberagreste/Sertãopunk é Zé Calabros na Terra dos Cornos, de Tiago Moreira,
uma parte das chamadas Crônicas Anímicas.
Provavelmente a obra que mais inspirou o Tupinipunk
foi o livro Macunaíma, de Mário de Andrade, com sua mistura impressionante de
folclore, surrealismo e pura Fantasia desenfreada. Diversos autores que
poderiam ser vistos como arautos do Tupinipunk já apareceram em análises neste
blog, como é o caso de André Zanki Cordenonsi, Enéas Tavares e Gabriel Billy
Castilho. O próprio autor do presente artigo escreveu duas obras que poderiam
fazer parte do gênero Tupinipunk.
Um possível “aliado” na divulgação do Tupinipunk como
gênero é uma estética que se popularizou na internet, chamada Brazilcore, baseada
nas cores nacionais e em elementos familiares a todo brasileiro. Inicialmente
vista como simples moda entre os estrangeiros, o Brazilcore utiliza músicas e
objetos como pratos de vidro escuro, filtros de barro, culinária regional entre
outros aspectos. Até mesmo animais e memes entraram no Brazilcore, como é o
caso da capivara e do vira-lata caramelo.
2-Afrofuturismo.
O segundo gênero nesta lista também faz referência a
uma localização geográfica e cultural, porém ele não trata de uma nação, e sim
de um continente inteiro e seus dilemas quanto ao futuro. O Afrofuturismo,
grosso modo, trata-se de uma combinação da cultura africana com temáticas
futuristas e uma boa dose de Fantasia clássica, devidamente adaptada à
realidade desses países.
Os autores considerados pioneiros no Afrofuturismo
foram Samuel Delany e Octavia Butler, que se destacaram na chamada “Nova Onda”
da Ficção Científica da década de 1960 e influenciaram diversos arquétipos do
gênero. Outra influência importante ao gênero durante esse período foi a luta
pelos Direitos Civis nos EUA, movida por Martin Luther King e outros líderes
que buscavam acabar com a discriminação racial imposta por leis.
Durante muito tempo o Afrofuturismo foi um território
dominado pelos americanos de origem africana, porém recentemente surgiram
autores em outros países, como Namina Forna de Serra Leoa, Marlon James na
Jamaica e Karen Lord, nascida em Barbados. A Nigéria também ofereceu uma leva
interessante de autores que se aventuram pelo gênero, como Tomi Adeyemi, Ben
Okri e Amos Tutuola.
Existem duas ironias interessantes no Afrofuturismo: A
primeira delas envolve o responsável pela criação do termo, um crítico
americano chamado Mark Dery, um homem branco sem ancestrais africanos. A
segunda ironia diz respeito a alguns temas comuns no Afrofuturismo, derivados
da “Nova Onda”: O feminismo e o combate ao preconceito contra homossexuais.
Diversos países africanos possuem costumes, tradições e leis que seriam
consideradas sexistas e homofóbicas aos olhos do ocidente.
A obra mais popular no Afrofuturismo provavelmente é
Pantera Negra, um super-herói da Editora Marvel, criado em 1966. O personagem é
o monarca de um reino africano isolado e altamente tecnológico chamado Wakanda
(falamos deste país na lista de Nações Fictícias da Literatura), e suas
histórias combinam elementos de ficção científica e fantasia nos enredos,
passando por viagens espaciais a conflitos contra deuses e espíritos.
3-Espada e Feitiçaria.
Agora voltaremos aos primórdios da Fantasia, com o
olhar direcionado às publicações de revistas Pulp, então consideradas
“inferiores” em qualidade e valor literário. Aqui nasceu um gênero que foi
reescrito, reinterpretado e parodiado, porém nunca ignorado, além de contar até
hoje com defensores incansáveis, como este autor que vos fala.
Também chamada Fantasia Heroica, o gênero de Espada e
Feitiçaria (Sword and Sorcery, no original em inglês) pode ser descrito como
uma fantasia “pé no chão”, onde o que realmente importa na história são os
objetivos pessoais dos personagens, quase sempre valentes guerreiros em busca
de riquezas e gratificações imediatas; apesar de seguirem seus interesses
materiais, os protagonistas são dotados (na maioria das vezes) de um código
pessoal de honra.
Os protagonistas tradicionais de Espada e Feitiçaria
são aventureiros viajantes, como caçadores em busca de tesouros perdidos, ou
mercenários procurando serviços que paguem bem. Os conflitos raramente envolvem
o destino de todo o mundo onde se passa a história, e muitas vezes eles ocorrem
por culpa dos próprios humanos e suas intrigas diárias. Devido ao aspecto
“mundano”, as histórias de Espada e Feitiçaria raramente são longas, o que as
tornam ideais às publicações em revistas Pulp.
Em comparação com obras de Alta Fantasia (High
Fantasy, em inglês), as ameaças nas histórias de Espada e Feitiçaria são
relativamente “pequenas”, porém ainda terríveis. Os elementos mais bizarros e
sobrenaturais surgem como uma consequência do conflito, e não é raro ver o
usuário de magia (quase sempre um antagonista) ser punido por seu envolvimento
com forças além da compreensão humana.
Outro elemento comum à Espada e Feitiçaria é a
presença de donzelas em apuros que precisam ser resgatadas de feiticeiros,
monstros e outros perigos. Devido à presença constante das moças em perigo, o
gênero já foi acusado de “misógino”, a despeito da presença de muitas mulheres
guerreiras em suas páginas. Autores como Robert Ervin Howard, Fritz Leiber e
Clark Ashton Smith nutriam simpatia pelo movimento feminista da década de 1930.
Apesar de repetitivo em sua estrutura, o gênero da
Espada e Feitiçaria se beneficia de uma surpreendente versatilidade quanto aos
mundos onde ocorrem as aventuras. Existem histórias de Espada e Feitiçaria que ocorrem
em nosso mundo, em mundos de fantasia, e até mesmo em ambientes
pós-apocalípticos, contando com elementos como feras alienígenas, robôs e armas
laser.
Provavelmente nenhum protagonista de Espada e
Feitiçaria supera a fama de Conan, o guerreiro Cimério criado por Robert Ervin
Howard, que também criou o caçador Solomon Kane, o Rei Atlante Kull e a
mercenária francesa Dark Agnes de Chastillon. Outros personagens que se
destacam são Fafhdr e Rato Cinzento, criados por Fritz Leiber, um autor que
cunhou o nome do gênero; o Bárbaro Brak, de John Jakes; o espadachim albino Elric
de Melniboné, uma invenção do britânico Michael Moorcock, entre muitos outros.
Apesar de ser visto como um gênero “datado”, a Espada-e-Feitiçaria
sobreviveu aos tempos modernos, adaptando-se à nova cultura popular. Um exemplo
disso é a série Witcher, criada pelo autor polonês Andrzej Sapkowski, sobre um
caçador de recompensas meio-bruxo, que já virou videogame e série na Netflix.
Algumas Light Novels japonesas e mangás também carregam elementos de Espada e
Feitiçaria em seus enredos.
4-Space Opera.
O próximo gênero nessa lista nos levará mais além,
rumo às estrelas, porém ainda manteremos um pé na terra, ou ao menos na
natureza humana. Assim como o Gênero da Espada e Feitiçaria, a Space Opera
passou por inúmeras reinterpretações e paródias, porém continua firme e forte
na cultura popular, com diversas obras relembradas com grande estima e carinho
pelos fãs mais fiéis.
A origem do termo Space Opera deve-se às chamadas
“Soap Operas”, como eram chamadas as novelas da época do rádio nos EUA, e sua
origem possui teor pejorativo. O criador do termo foi o autor de ficção
científica Wilson Tucker, que observou uma curiosa “repetição” de temas em
aventuras espaciais das revistas Pulp da época. Tucker comentava que havia
pouca ciência e muitas aventuras bizarras de Espada e Feitiçaria sob a roupagem
de Ficção Científica.
De certa forma, a Space Opera está para a Ficção
Científica o que a Espada e Feitiçaria representam à Fantasia: O universo
interno não interessa tanto ao autor e seus leitores quanto as inúmeras
aventuras e atos de heroísmo, intrigas e reviravoltas. Pouco importa se as leis
da física são desafiadas ou violadas na trama, porque não estamos aqui para aprender
ciência, e sim para torcer pela vitória dos heróis.
Quando se lê algumas obras americanas mais antigas da
Space Opera, fica notável a influência de outros gêneros, em especial o
Faroeste, ou Western, com seus tiroteios e situações mirabolantes. A Space
Opera também originou gêneros derivados como o Romance Interplanetário, focado
em relacionamentos entre espécies diferentes. Outro derivado com óbvia
influência da Espada e Feitiçaria chama-se justamente Espada e Planeta, aonde
os clichês da fantasia vão ao Infinito e Além.
Entre os americanos, o autor considerado pioneiro do
que seria chamado Space Opera foi Edward Elmer Smith, um engenheiro alimentar e
criador das séries Lensman e Skylark. Praticamente todos os elementos clássicos
do gênero se encontram nessas obras, desde as batalhas no espaço até os
patrulheiros galácticos responsáveis pela defesa da lei e da ordem entre mundos
e asteroides.
Uma obra considerada como “ancestral” da Space Opera
foi uma paródia escrita pelo autor greco-romano Luciano de Samósata, chamada
História Verdadeira. Nessa obra bizarra escrita no Século II DC, Luciano satiriza
relatos exagerados de viajantes, criando uma aventura mirabolante que começa no
oceano e vai ao espaço sideral, onde é possível “velejar” usando ventos
cósmicos. Em História Verdadeira ocorre uma guerra entre os Reinos do Sol e da
Lua pelo domínio de Vênus, talvez a primeira guerra entre mundos da literatura
mundial.
A obra de Space Opera mais popular hoje provavelmente
é Guerra nas Estrelas, que dispensa maiores apresentações. Outras obras de
destaque são Duna, do autor americano Frank Herbert; Perry Rhodan, escrita por
vários autores alemães; Barsoom, de Edgar Rice Burroughs (mais lembrado como o
criador do Tarzan); Flash Gordon, de Alex Raymond; Cruzador Espacial Yamato, do
japonês Leiji Matsumoto. No Brasil, poderíamos citar A Princesa e o Robô e
Cassiopeia como dois exemplares de Space Opera no cinema.
5-Fantasia Sombria.
O próximo gênero talvez seja a variável mais antiga no
amplo leque da Fantasia, e continua forte na cultura popular moderna. A
Fantasia Sombria (Dark Fantasy, no original em inglês) também é chamada de
Grimdark ou Fantasia Gótica, e se destaca nos temas sombrios, muitas vezes
pesados e desagradáveis em seus enredos ou no clima e no folclore interno da
aventura.
A Fantasia sempre tratou de aspectos de nossa
realidade por meio do imaginário, transformando temores em criaturas ou
perigos, e na variante sombria esse teor sombrio e macabro é mais intenso,
refletindo nos cenários e nos personagens: Na Fantasia Sombria, os castelos em
ruínas ostentam arquitetura gótica, os dragões são mais feios, e as donzelas
possuem malícia. Esse aspecto muitas vezes reflete um clima de decadência e
perda, de uma grande era dourada que ficou para trás, deixando apenas ruínas.
Nas histórias de Fantasia Sombria, a vitória dos
heróis (muitas vezes anti-heróis) é obtida com sacrifícios inimagináveis,
incluindo mortes de amigos e aliados pelo caminho, deixando um final agridoce
ou amargo. Os heróis nem sempre são bons samaritanos ou “amigos da vizinhança”,
e não é difícil ver antagonistas que são verdadeiros monstros imorais, capazes
de torturas, estupros e até mesmo genocídios.
Considera-se hoje que a primeira autora de Fantasia
Sombria foi Gertrudes Barrows Bennett, uma escritora que atuou entre 1917 e
1923 e se destacou com sua história curta A Cidadela do Medo. Os criadores da
expressão, entretanto, vieram muito tempo depois dessa autora; seus nomes eram Charles
Lewis Grant e Karl Edward Wagner, e suas obras publicadas entre as décadas de
1970 a 1990 possuem grande influência do Gótico e horror.
A influência do gênero Horror é inegável na Fantasia
Sombria, um detalhe que torna a classificação difícil de ser contida em termos
fixos ou fórmulas pré-estabelecidas. Tomemos como exemplo a saga da Torre Negra,
do americano Stephen King: Os elementos de terror são óbvios na aventura do
pistoleiro Roland e seus amigos, mas a essência da aventura e do heroísmo
continua visível. Muitos escritores especializados em horror também se arriscam
na Fantasia Sombria, como forma de atingir um mercado maior.
Devido à amplitude do gênero, não é raro ver obras
anteriores à década de 1990 serem posteriormente rotuladas como representantes
da Fantasia Sombria. Exemplos desses “recém-chegados de longa data” incluem filmes
como A História sem Fim (1984), Conan o Bárbaro (1982), A Lenda (1985),
Labirinto – A Magia do Tempo (1986); O Cristal Encantado (1982). Até filmes da
Disney entraram no gênero, como Branca de Neve (1937), Pinóquio (1940), Bela
Adormecida (1959), Bela e a Fera (1991), entre outros.
https://www.youtube.com/watch?v=EtydeMS7bCA&t=7s
O gênero da Fantasia Sombria passou por uma curiosa
ressurgência nos últimos anos, graças à internet. Por meio de plataformas de
vídeos e músicas, uma geração nova conheceu compositores ativos nos anos de
1980 até 2010, que se especializaram num gênero conhecido como Dungeon Synth
(literalmente, “Sintetizador de Masmorra”), que mistura a música eletrônica com
referências às obras clássicas de Fantasia, destacando o aspecto sombrio dessas
histórias.
Outra novidade tecnológica que trouxe a Fantasia
Sombria de volta à atenção do público geral foi a arte de Inteligência
Artificial, que logo caiu nas graças de muita gente. Hoje em dia é fácil
encontrar reinterpretações de desenhos animados e filmes com um visual mais
“Dark”, indo desde Hora de Aventura até Bob Esponja, para citar alguns
exemplos.
No Brasil, um bom exemplar de Fantasia Sombria é
Cemitério de Dragões, a primeira parte da saga do Legado Ranger, de Raphael
Draccon, mais conhecido hoje como o roteirista de Cidade Invisível. O mundo
fantástico nesse livro passou por muitos desastres e caos, tornando-o uma mera
sombra de sua era dourada.
6 e 7-Mundo Perdido e Ficção
Subterrânea.
O próximo gênero possui um histórico curioso, porque
de certa forma ele sempre existiu na literatura, porém se solidificou na
segunda metade do Século XIX, um período de grande expansão dos países do
ocidente sobre o resto do mundo. O avanço notável no estudo de civilizações
perdidas nessa época (com destaque para o Egito e a Babilônia) também
contribuiu para que os autores se arriscassem na concepção desse gênero, que
teve seu auge entre os anos de 1880 até a Primeira Guerra Mundial.
O Mundo Perdido é basicamente um gênero focado na
descoberta e exploração de novos lugares, outrora desconhecidos ou inacessíveis,
até o dia em que valentes exploradores (obviamente vindos do mundo civilizado)
ousaram cruzar a barreira e descobrir o que se esconde por detrás da selva, das
montanhas ou mesmo no centro da terra. Essa última variante às vezes é
denominada Ficção Subterrânea, e possui suas próprias convenções típicas no
enredo e outros elementos.
Considera-se que a primeira obra de Mundo Perdido foi
As Minas do Rei Salomão, de Henry Rider Haggard, sobre um grupo de aventureiros
procurando pelas fabulosas minas sob a liderança de Allan Quatermain, um
personagem tão popular que apareceria em quatorze livros do mesmo autor. Na
época, o interior da África ainda era desconhecido pelos europeus, então era
razoável imaginar que grandes mistérios ainda se escondiam no continente.
O estilo da narrativa de Sir Haggard inspiraria outros
autores, como Rudyard Kipling, Edgar Rice Burroughs (olha ele aí de novo) e até
mesmo Arthur Conan Doyle, o criador do Sherlock Holmes, que escreveu uma
aventura chamada justamente de O Mundo Perdido. Essa aventura tem como “palco”
os cerros achatados na fronteira do Brasil com a Venezuela, e foi uma das
primeiras aventuras a usar dinossauros como elemento essencial ao enredo, algo
que se repetiria em inúmeras histórias do gênero.
Embora várias histórias de aventuras subterrâneas já
existissem antes do Século XIX, é inegável a importância de Viagem ao Centro da
Terra ao gênero, no âmbito da popularização. Em sua curiosa aventura do
professor Otto Lidenbrock e seu sobrinho Axel, Júlio Verne também inseriu a
ideia dos seres pré-históricos sobrevivendo aos nossos dias, um conceito
explorado por Doyle no Mundo Perdido, como visto anteriormente, e Burroughs em
sua obra Pellucidar.
O Mundo Perdido sempre foi associado ao lado
aventureiro da fantasia, mas existem enredos mais calmos e filosóficos em seu
bojo. Um exemplo é Horizonte Perdido, de James Hilton, sobre uma civilização
perdida nas montanhas do Tibete, onde as pessoas vivem quase eternamente, desde
que nunca saiam da cidade de Shangri-La. A influência de lendas como Shambala e
Agartha é notável em Horizonte Perdido.
Assim como a Espada e Feitiçaria e a Space Opera, o
gênero do Mundo Perdido já foi acusado de perpetrar estereótipos negativos. A
acusação mais frequente atribui ao gênero o uso frequente de visões
“ultrapassadas” e preconceituosas de povos fora da Europa, como os africanos,
indígenas, polinésios e indianos. Existe algum fundamento nessas críticas,
porém é importante lembrar que tais histórias permitiram que esses povos
“exóticos” tivessem seu lugar de fala diante do mundo, pela primeira vez.
No Brasil podemos listar como exemplo do Mundo Perdido
(e também da Ficção Subterrânea) o livro A Montanha Encantada, de Maria José
Dupré, publicado em 1945. Nessa aventura, os amigos Oscar, Vera, Lúcia, Quico e
Cecília veem um brilho estranho no topo de uma montanha próxima ao sítio onde
passam o fim de semana, e descobrem uma civilização de anões mineradores de
ouro. Outro exemplo nacional é o filme dos Trapalhões na Terra dos Monstros,
que fala de uma civilização oculta sob a Pedra da Gávea no Rio de Janeiro.
8 e 9-Wuxia e Xianxia.
Saindo das terras perdidas e rumando ao Oriente,
encontramos um gênero nascido na China, que conquistou o mundo por sua
simplicidade aliada à sofisticação. Possivelmente o Wuxia está entre os mais
antigos gêneros literários do mundo, levando em consideração a história milenar
da China.
A palavra “Wuxia” é uma combinação de “militar” (Wu) e
“cavalheiresco” (Xia), e dessa forma o gênero se apoia em seus heróis:
Aventureiros errantes que viajam de uma vila a outra, lutando contra bandidos,
autoridades corruptas, e até mesmo feiticeiros e monstros típicos da mitologia
chinesa.
Os primeiros contos do Wuxia foram baseados em
histórias coletadas pelo filósofo Han Fei, que viveu entre 280 e 233 Antes de
Cristo. Esses contos falavam de aventureiros, monges bandidos, mercadores e
soldados desertores que lutavam contra todo tipo de ameaça, quase sempre um
perverso Mandarim (como são chamados os burocratas na China) que oprime a
população de uma cidade ou vila.
O código de honra dos heróis no Wuxia quase sempre faz
referência (ainda que indireta) aos valores tradicionais do Confucionismo,
mesmo quando os protagonistas são individualistas em seus objetivos pessoais.
Outro elemento importante enfatizado nas histórias é a obediência e lealdade ao
mestre, que muitas vezes serve de figura paterna ao protagonista em sua
jornada.
Às vezes a ameaça a ser combatida possui elementos
sobrenaturais, tornando muitas histórias do gênero bem parecidas com a Espada e
Feitiçaria em sua composição. A variação do gênero com ênfase nos elementos
sobrenaturais é denominada Xianxia, um subgênero dentro do Wuxia, e elementos
como reencarnação, imortalidade e alquimia são recorrentes em suas tramas. Um
exemplo de Xianxia é o filme dos Aventureiros do Bairro Proibido, que conta com
uma análise neste blog.
Quase todas as aventuras do Wuxia se passam no longo
período monárquico chinês, com suas inúmeras Dinastias, porém não foi difícil
adaptar o discurso de “luta de classes” à ideologia do Partido Comunista
Chinês. Ironicamente, o Wuxia também foi aplicado contra os atuais governantes
da República Popular da China, com sua mentalidade de desafio aberto às figuras
de autoridade.
Boa parte das histórias mais populares do Wuxia e
Xianxia foi escrita durante a Dinastia Ming (1368-1644), um período de grande
produção literária. Três exemplos são o Romance dos Três Reinos, de Luo
Guanzhong; Jornada para o Oeste, de Wu Cheng’en; e A Margem da Água, de Shi
Nai’an. Essas três obras tiveram inúmeras adaptações que alcançaram o ocidente,
e também inspiraram obras em nações próximas da China, como o Japão, Coreia,
Vietnã e Tailândia.
O sucesso do Wuxia e do Xianxia ao redor do mundo
deve-se muito à adoção da economia de mercado por parte da China a partir de
1978, e também ao crescimento e prosperidade que vieram como consequências
desse período, permitindo a exploração do gênero em outras mídias, incluindo
filmes, seriados de televisão e videogames. Um exemplo recente é o game Black
Myth Wukong, baseado na Jornada para o Oeste, um sucesso de venda e crítica.
No Brasil, o exemplo mais próximo de um “Wuxia” (se
considerarmos a influência do gênero no Japão e na comunidade nipo-brasileira)
provavelmente foi um herói chamado O Judoka, que nasceu nos quadrinhos em 1969 e
até recebeu um filme em 1973. O personagem foi criado por Adolfo Aizen, um
russo naturalizado brasileiro, e seu nome verdadeiro é Carlos da Silva. Após
ser treinado pelo Mestre Minamoto, o Judoka parte ao combate ao crime,
recebendo ajuda de outros personagens baseados nas artes marciais.
10-Hopepunk.
O último gênero que trataremos na lista é o exato
oposto da Fantasia Sombria, e também serve como um exemplo interessante de como
o ato de revolta de uma geração se converte no habitual de outra geração, e
vice-versa. O Hopepunk é um gênero da Fantasia que se destaca pelo otimismo, e
pela ideia de que as coisas ficarão melhores, ou pelo menos estáveis, ao longo
do caminho. Ele também surgiu como uma resposta ao Grimdark.
O termo Hopepunk (literalmente “Punk da Esperança”),
também chamado Noblebright (“Luz Nobre”) foi cunhado por Alexandra Rowland em
2017, numa postagem da rede social Tumblr, apresentando-o como uma alternativa
ao Grindark. Mais tarde ela expandiria o conceito, utilizando a frase “Um Átomo
de Justiça, uma Molécula de Misericórdia, e um Império de Facas
desembainhadas”. A citação, apesar de vaga, deixava evidente a ideia da vitória
obtida aos poucos, e a cooperação no lugar do conflito.
A estética do Hopepunk busca se afastar da Fantasia
Sombria, com suavização na aparência das criaturas, dos castelos e outros
elementos comuns no gênero, porém sem cair no otimismo ingênuo e infantil. A
ideia principal do Hopepunk não afirma que a vitória do Bem ocorrerá de forma
inevitável, e sim que ela Pode Acontecer; mas para isso deve haver um grande
esforço, além de cooperação, estratégia e visão de longo prazo.
O aspecto mais importante do Hopepunk é a
Insatisfação, que permite o surgimento de uma resposta, às vezes agressiva,
porém contundente. O maior adversário dos entusiastas desse gênero não é a
Fantasia Sombria, e sim a inércia e apatia surgida dela, quando a falta de
perspectiva fala alto demais. Alguns autores falam nos “Três Erres” que compõem
o gênero: Resistência, Rebelião e Resiliência, enquanto outros comentam sobre
uma possível influência do Catolicismo no Hopepunk, devido aos “Três Erres”.
A década de 2020 em diante foi o pontapé inicial rumo
à popularização do Hopepunk, com o declínio da literatura distópica focada nos
jovens. Uma combinação especialmente perversa de notícias pessimistas sobre
crises econômicas, aquecimento global e a pandemia deixaram o público sedento
por uma distração mais suave, ou que pelos menos não refletisse as angústias
que os afligiam naquele momento difícil.
Por ser um gênero considerado recente, ainda existe
discussão sobre como seria uma verdadeira literatura Hopepunk, e alguns livros
clássicos entraram na lista, como é o caso do Senhor dos Anéis, Harry Potter e
as Crônicas de Nárnia. Trabalhos baseados em contos de fadas, como os filmes da
Disney, também entraram no rol de obras Hopepunk.
Texto escrito por Mateus Ernani
Heinzmann Bülow.
Coluna do Mateus no blog:
Todos os artigos do Mateus no blog
Mateus é Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Santa Maria (FADISMA), escritor e colunista do blog "Recanto da Escritora". Ele é o autor de dois livros de fantasia (disponíveis para compra na Amazon):
Taquarê - Entre a Selva e o Mar
Taquarê - Entre um Império e um
Reino












































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