Na infância, tudo era brilho:
o mar, o sol, o parque e o rio.
Na tempestade, víamos emoção,
e, na calmaria, brincar era imensidão.
Hoje, o tédio corrompe o dia,
e o cansaço ceifa a alegria.
O dia especial é mais um,
o calendário é um contrato.
Queria artes, dança, brilho!
Queria rugir como um leão
e criar até o mais doce infinito.
A rotina é um cárcere sem filtro.
Não sei se nasci para ser triste
ou se nasci para ser bem feliz.
Ainda não me encontrei por aqui.
Queria ser poetisa. Será que consegui?
O céu mente sobre nós na infância,
pois lá tudo era inocente e possível.
Amar, casar e ser feliz para sempre,
ter um trabalho lindo, nobre e ardente.
O céu mente sobre nós na infância,
pois as catedrais brilhavam mais.
Eu olhava para os vitrais e sorria!
Quão gloriosa parecia ser a vida!
O futuro parecia um mar de sonhos,
um mar de sonhos a realizar.
O sol penetrava nos vitrais,
minha cor favorita a brilhar.
Cores fabulosas refletidas no olhar,
olhar de criança doce, perdido no alto.
Hoje, adultos escravizados e tristes
vivem a olhar para uma tela abaixo.
O céu mente sobre nós na infância,
porque a vida parecia um sonho,
um sonho colorido a brincar e desbravar.
Hoje, não somos sequer parte da dança.
Não nos sentimos adultos inteiros,
não temos sonhos nem dinheiro.
Tudo o que resta é a persistência,
visto que ainda há uma doce crença.
Esse poema foi inspirado em uma pintura do artista inglês Herbert James Draper. O título da pintura é: "O céu mente sobre nós na infância".
A obra traz uma atmosfera reflexiva que captura a transição entre a inocência da criança e a realidade da vida adulta. O olhar puro e idealista da menina somente é capaz de mirar o céu enquanto ela reza por um futuro brilhante.
A garota não percebe o semblante triste dos adultos ao seu redor, que não são iluminados pela luz do sol e que, provavelmente, estão rezando em busca de alívio para as suas realidades cinzentas e sombrias.
A luz que atravessa o vitral ilumina apenas a criança, porque ela é a única que está conectada com o céu e com as possibilidades infinitas de alegria do mundo espiritual.
Apesar do tom melancólico e reflexivo, o poema, a pintura e o título da pintura carregam uma dose de bom humor. Afinal, o contraste entre a infância e a vida adulta pode ser visto como uma comédia também.
O final do poema traz uma mensagem de esperança: quem carrega a criança interior em seu coração sempre terá uma doce crença sobre a vida.
Tatyana Casarino.

