Há, dentro de nós, um labirinto.
Um labirinto de lobos famintos,
uma terra de puros instintos.
Freud chamou isso de libido.
Mas, Jung decifrou o labirinto
com o seu mundo arquetípico.
No inconsciente coletivo do mundo,
somos todos os mitos belos e profundos.
O lobo não é mau nem cruel.
Ele é o impulso da sobrevivência,
que enche o ego para suprir a carência.
Sem ele, não haveria poesia e beleza.
O mundo lá fora que é cruel,
pois sufocou os lobos de dentro.
Encarcerados, eles ficaram violentos.
Quando deixaremos de ser sedentos?
Eu tenho um lobo dentro de mim,
um lobo que uiva para a lua cheia,
um lobo que quer a pura natureza
e que não se contenta com a civilização.
Eu quero voltar a acreditar em Rousseau
e abandonar as ideias de Hobbes e de Maquiavel.
Eu quero acreditar que somos bons por natureza,
eu quero acreditar e arder na suprema beleza.
A civilização corrompeu a bondade
com as suas máscaras de piedade.
Eu quero viver numa chácara modesta
e, no meio da floresta, ser feliz de verdade.
Se eu beijasse o Tarzan, eu seria uma flor.
E, juntos, seríamos felizes em uma selva
como o casal primordial, como Adão e Eva.
Mas, desta vez, eu não morderia o fruto.
Eu desejo ser a rainha da floresta
como uma fada que dança e encanta.
E, dentro do bosque mágico, eu voaria
como a pomba da paz na terra divina.
Enquanto danço sob a lua cheia,
sou a loba feroz e sou a flor do campo.
Como no início dos tempos, sou a paz.
Como no fim dos tempos, sou o que amo.
Eu acalmo o meu feroz lobo interior
com gentileza suprema e amor-próprio.
Eu aprendi a respeitar o meu ritmo,
vivo de acordo com o meu propósito.
Se quer ter a mesma paz de espírito,
abandone essa corrupta e louca civilização
e vá viver a vida que vibra no seu coração.
No isolamento, encontramos pureza e libertação.
Vamos retornar à natureza selvagem
s soltar os nossos lobos na floresta.
Saiba que os lobos livres são leais e bons.
Portanto, não prenda os lobos do seu coração.
Poema escrito por Tatyana Casarino.
Essa poesia é filosófica e demonstra uma convicção: a de que a nossa essência é boa por natureza, porém ela foi corrompida pela civilização e pela repressão dos instintos. A ideia centra da poesia foi impulsionada pela célebre frase do filósofo iluminista Jean-Jacques Rousseau: "o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe".
De forma lúdica e simbólica, o eu lírico descreve o personagem "Tarzan" como um exemplo do mito do "bom selvagem", um conceito popularizado pelo filósofo citado. Esse mito retrata uma visão idealizada do homem em estado de natureza: alguém puro, inocente e livre de maldade. Esse ideal teve impacto sobre o Romantismo, movimento artístico, literário e cultural que surgiu na Europa no final do século XVIII.
Em alguns versos, o eu lírico compara o mito do Tarzan (o bom selvagem) ao casal bíblico "Adão e Eva", visto que esses viveram em um local perfeito e repleto de natureza. Conforme a Bíblia, Adão e Eva eram puros antes de conhecerem o fruto proibido. Desse modo, existe uma idealização romântica e um anseio para retornar ao estado de pureza original quando o eu lírico afirma "desta vez, eu não morderia o fruto".
Muito embora o início do poema cite Freud com um leve tom de crítica ao compará-lo com Jung (a segunda estrofe afirma que o psicoterapeuta suíço decifrou melhor o "labirinto" da alma humana com a sua riqueza arquetípica), os versos também foram inspirados por uma obra famosa do autor: "O Mal-estar na Civilização".
Sendo assim, a poesia conecta, de forma inusitada, autores bem diferentes: Rousseau, Freud e Jung. Apesar da diferença entre eles, os três almejaram decifrar os aspectos instintivos do ser humano muito além das convenções sociais. Rousseau pode ser considerado o mais "romântico" dentre os pensadores apontados pelo poema. Freud e Jung, no entanto, observaram os aspectos "sombrios" do inconsciente.
O poema ainda fala de outros pensadores: Hobbes e Maquiavel. Hobbes defendia o oposto de Rousseau, já que afirmava o seguinte: "o homem é o lobo do homem". Esta frase resume a ideia de que os seres humanos são maus por natureza e que viveriam em uma guerra de todos contra todos se não houvesse leis.
Maquiavel também é um autor que fica bem distante do romantismo de Rousseau, pois foca em uma abordagem pragmática sobre a política. Ele defendia o realismo político e revelava a seguinte ideia: "é melhor ser temido do que ser amado".
Considerando o que foi comentado sobre os pensadores que influenciaram a construção do poema, é importante notar que existe uma nostalgia pelas ideias românticas quando a poesia expressa "quero voltar a acreditar em Rousseau e abandonar as ideias de Hobbes e de Maquiavel".
Salienta-se que a poesia "salta" da filosofia e da psicologia em direção a uma sabedoria mística sobre a forma de acalmar um "lobo selvagem". Esse "lobo" seria o nosso mundo interior, o qual ficaria desgovernado e erraria pelo descontrole emocional caso fosse reprimido ou pouco conhecido. A sabedoria mística aponta a meditação, o respeito pelo próprio ritmo, o autoconhecimento e o amor-próprio para o fortalecimento do autocontrole emocional.
Ao enaltecer as ideias de Rousseau, o eu lírico sugere que o nosso "lobo" interior é bom e precisa de reconhecimento, pois representa a nossa intuição e o nosso instinto livre das corrupções da sociedade.
Se o ser humano é um "lobo" bom (e não mau como dizia Hobbes), ele precisa aceitar o seu lado instintivo e escutar o seu coração (a mensagem da poesia é alinhada ao Romantismo). A recuperação dos instintos, da intuição e dos sentimentos requer uma jornada de superação psicológica. Essa jornada é bem retratada no livro "Mulheres que Correm com os Lobos" da psicóloga Junguiana Clarissa Pinkola Estés.
O poema não sugere uma fórmula de autoajuda, mas um caminho repleto de autoconhecimento e de amor-próprio. Para encontrar o equilíbrio emocional, a poesia aconselha o leitor a acolher o seu "lobo interior" caso ele queira mais serenidade espiritual.
A poesia também aponta a necessidade de solidão no caminho do autoconhecimento, porque somente o silêncio da solitude pode despertar a essência humana.
Considerando que o barulho da sociedade corrompe o lado bondoso e sábio da nossa essência, o isolamento pode preservar sentimentos puros e libertar a alma das ilusões sociais. Curiosamente, Rousseau defendia o isolamento como uma resistência interna à hostilidade do mundo e uma forma de reconexão com a natureza.
Por fim, a poesia defende o retorno à natureza e a libertação da verdadeira essência humana. Para ser autêntico, não é preciso viver isolado o tempo todo, mas ter momentos de solitude para descobrir quem você é e fortalecer o próprio espírito antes de lutar contra as injustiças do sistema.
Tatyana Casarino.

