O caderno digital de Tatyana Casarino. Aqui você encontrará textos e poesias repletos de profundidade com delicadeza.









Contador Grátis





sábado, 7 de março de 2026

Como acalmar um lobo selvagem?




Há, dentro de nós, um labirinto.

Um labirinto de lobos famintos,

uma terra de puros instintos. 

Freud chamou isso de libido.


Mas, Jung decifrou o labirinto

com o seu mundo arquetípico. 

No inconsciente coletivo do mundo,

somos todos os mitos belos e profundos. 


O lobo não é mau nem cruel.

Ele é o impulso da sobrevivência,

que enche o ego para suprir a carência. 

Sem ele, não haveria poesia e beleza. 


O mundo lá fora que é cruel,

pois sufocou os lobos de dentro.

Encarcerados, eles ficaram violentos.

Quando deixaremos de ser sedentos?


Eu tenho um lobo dentro de mim,

um lobo que uiva para a lua cheia,

um lobo que quer a pura natureza

e que não se contenta com a civilização.


Eu quero voltar a acreditar em Rousseau

e abandonar as ideias de Hobbes e de Maquiavel.

Eu quero acreditar que somos bons por natureza,

eu quero acreditar e arder na suprema beleza. 


A civilização corrompeu a bondade

com as suas máscaras de piedade. 

Eu quero viver numa chácara modesta

e, no meio da floresta, ser feliz de verdade. 


Se eu beijasse o Tarzan, eu seria uma flor.

E, juntos, seríamos felizes em uma selva

como o casal primordial, como Adão e Eva.

Mas, desta vez, eu não morderia o fruto.


Eu desejo ser a rainha da floresta

como uma fada que dança e encanta. 

E, dentro do bosque mágico, eu voaria

como a pomba da paz na terra divina. 


Enquanto danço sob a lua cheia,

sou a loba feroz e sou a flor do campo. 

Como no início dos tempos, sou a paz.

Como no fim dos tempos, sou o que amo.


Eu acalmo o meu feroz lobo interior

com gentileza suprema e amor-próprio.

Eu aprendi a respeitar o meu ritmo,

vivo de acordo com o meu propósito.


Se quer ter a mesma paz de espírito,

abandone essa corrupta e louca civilização

e vá viver a vida que vibra no seu coração. 

No isolamento, encontramos pureza e libertação.  


Vamos retornar à natureza selvagem

s soltar os nossos lobos na floresta.

Saiba que os lobos livres são leais e bons.

Portanto, não prenda os lobos do seu coração. 


Poema escrito por Tatyana Casarino. 





Essa poesia é filosófica e demonstra uma convicção: a de que a nossa essência é boa por natureza, porém ela foi corrompida pela civilização e pela repressão dos instintos. A ideia centra da poesia foi impulsionada pela célebre frase do filósofo iluminista Jean-Jacques Rousseau: "o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe".

De forma lúdica e simbólica, o eu lírico descreve o personagem "Tarzan" como um exemplo do mito do "bom selvagem", um conceito popularizado pelo filósofo citado. Esse mito retrata uma visão idealizada do homem em estado de natureza: alguém puro, inocente e livre de maldade. Esse ideal teve impacto sobre o Romantismo, movimento artístico, literário e cultural que surgiu na Europa no final do século XVIII.  

Em alguns versos, o eu lírico compara o mito do Tarzan (o bom selvagem) ao casal bíblico "Adão e Eva", visto que esses viveram em um local perfeito e repleto de natureza. Conforme a Bíblia, Adão e Eva eram puros antes de conhecerem o fruto proibido. Desse modo, existe uma idealização romântica e um anseio para retornar ao estado de pureza original quando o eu lírico afirma "desta vez, eu não morderia o fruto".

Muito embora o início do poema cite Freud com um leve tom de crítica ao compará-lo com Jung (a segunda estrofe afirma que o psicoterapeuta suíço decifrou melhor o "labirinto" da alma humana com a sua riqueza arquetípica), os versos também foram inspirados por uma obra famosa do autor: "O Mal-estar na Civilização". 

Sendo assim, a poesia conecta, de forma inusitada, autores bem diferentes: Rousseau, Freud e Jung. Apesar da diferença entre eles, os três almejaram decifrar os aspectos instintivos do ser humano muito além das convenções sociais. Rousseau pode ser considerado o mais "romântico" dentre os pensadores apontados pelo poema. Freud e Jung, no entanto, observaram os aspectos "sombrios" do inconsciente. 

O poema ainda fala de outros pensadores: Hobbes e Maquiavel. Hobbes defendia o oposto de Rousseau, já que afirmava o seguinte: "o homem é o lobo do homem". Esta frase resume a ideia de que os seres humanos são maus por natureza e que viveriam em uma guerra de todos contra todos se não houvesse leis. 

Maquiavel também é um autor que fica bem distante do romantismo de Rousseau, pois foca em uma abordagem pragmática sobre a política. Ele defendia o realismo político e revelava a seguinte ideia: "é melhor ser temido do que ser amado". 

Considerando o que foi comentado sobre os pensadores que influenciaram a construção do poema, é importante notar que existe uma nostalgia pelas ideias românticas quando a poesia expressa "quero voltar a acreditar em Rousseau e abandonar as ideias de Hobbes e de Maquiavel".

Salienta-se que a poesia "salta" da filosofia e da psicologia em direção a uma sabedoria mística sobre a forma de acalmar um "lobo selvagem". Esse "lobo" seria o nosso mundo interior, o qual ficaria desgovernado e erraria pelo descontrole emocional caso fosse reprimido ou pouco conhecido. A sabedoria mística aponta a meditação, o respeito pelo próprio ritmo, o autoconhecimento e o amor-próprio para o fortalecimento do autocontrole emocional. 

Ao enaltecer as ideias de Rousseau, o eu lírico sugere que o nosso "lobo" interior é bom e precisa de reconhecimento, pois representa a nossa intuição e o nosso instinto livre das corrupções da sociedade. 

Se o ser humano é um "lobo" bom (e não mau como dizia Hobbes), ele precisa aceitar o seu lado instintivo e escutar o seu coração (a mensagem da poesia é alinhada ao Romantismo). A recuperação dos instintos, da intuição e dos sentimentos requer uma jornada de superação psicológica. Essa jornada é bem retratada no livro "Mulheres que Correm com os Lobos" da psicóloga Junguiana Clarissa Pinkola Estés. 

O poema não sugere uma fórmula de autoajuda, mas um caminho repleto de autoconhecimento e de amor-próprio. Para encontrar o equilíbrio emocional, a poesia aconselha o leitor a acolher o seu "lobo interior" caso ele queira mais serenidade espiritual. 

A poesia também aponta a necessidade de solidão no caminho do autoconhecimento, porque somente o silêncio da solitude pode despertar a essência humana. 

Considerando que o barulho da sociedade corrompe o lado bondoso e sábio da nossa essência, o isolamento pode preservar sentimentos puros e libertar a alma das ilusões sociais. Curiosamente, Rousseau defendia o isolamento como uma resistência interna à hostilidade do mundo e uma forma de reconexão com a natureza. 

Por fim, a poesia defende o retorno à natureza e a libertação da verdadeira essência humana. Para ser autêntico, não é preciso viver isolado o tempo todo, mas ter momentos de solitude para descobrir quem você é e fortalecer o próprio espírito antes de lutar contra as injustiças do sistema. 


Tatyana Casarino.